Álcool e adolescência VIII

  

  

3. Considerações Finais

Embora o álcool seja uma droga legalizada e inserida na cultura, há restrições legais quanto à venda e o consumo de bebida alcoólica. A venda de bebida alcoólica é proibida para menores de 18 anos, ratificado pelo artigo 81 do ECA que proíbe a venda a menores de 18 anos "de substâncias com risco de criar dependência". E o decreto-lei 28.643, em vigor desde agosto de 1998, proíbe a comercialização de bebidas alcoólicas a menos de 100 metros dos estabelecimentos de ensino. Na prática sabemos que adolescentes consomem bebida alcoólica publicamente, sem que sejam obrigados, pelos locais de venda, a apresentar documento que comprove idade igual ou superior a 18 anos para que a bebida seja vendida. A Lei Estadual (São Paulo) 10.501 de 16 de fevereiro de 2000 determina que estabelecimentos que comercializam bebidas alcoólicas devem manter em local visível, e próximo às bebidas expostas, cartazes com os dizeres "Bebida Alcoólica é Prejudicial à Saúde, à Família e à Sociedade"também não é rigorosamente observada.

Levantamento realizado pela Secretaria de Estado da Educação de São Paulo apontou que 48,9% das escolas da rede no interior paulista possuem bares a menos de 100 metros dos portões de entrada, seguida da Grande São Paulo (sem contar a capital) com 45,9% e da capital com 40%. O levantamento revelou ainda a existência de bares a mais de 100 metros de qualquer entrada de escola, porém no mesmo quarteirão das escolas em 34% dos estabelecimentos de ensino da capital, em 32,9% da Grande São Paulo e 28,5% do interior do Estado (SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO DE SÃO PAULO, 2002). Aqui cabe uma questão: se o fato de um traficante vender substâncias psicoativas ilegais nas portas das escolas provoca indignação e até denúncia, então por que encaramos com normalidade o comércio ilícito de bebidas alcoólicas no entorno das escolas? O álcool, como já apontado, embora seja a última droga a apresentar problemas, geralmente é a primeira de acesso.

Também, a falta de uma política adequada de controle à propaganda maciça de bebidas alcoólicas pelos meios de comunicação social, geralmente associada aos "bons momentos da vida, e a facilidade de obter o produto, quer pela disponibilidade e variedade, quer pelo baixo preço, torna o álcool uma droga atrativa, acessível e presente nas mais diversas formas de entretenimento do universo da juventude.

Além disso, tanto as famílias quanto a sociedade aceitam com certa naturalidade um adolescente consumir alcoólicos. Alguma censura pode ocorrer em caso de algum abuso por parte desse adolescente, contudo, de forma geral, o uso de bebida alcoólica por jovens é comum e tolerada na vida familiar, em momentos de comemorações, na convivência grupal, etc.

Se, de um lado, para considerável parcela de adolescentes, como qualquer outra substância psicoativa, além do apelo da propaganda, o álcool tem seu poder de atração, por outro não tem a força de censura atribuída às substâncias ilegais, dado que o uso do álcool, na prática, é livre. Isso significa que um adolescente pode beber alcoólicos sem a culpa de estar cometendo uma transgressão (que na realidade está) como poderia sentir se consumisse alguma droga ilícita. Se consumir determinada droga ilícita, o adolescente fará isso de forma velada a fim de não se expor, pois sabe que estará transgredindo a lei ou ao menos emitindo um comportamento passível de repreensão ou censura.

Se os familiares descobrem ou são informados de que o filho ou filha adolescente está fazendo uso de uma droga ilícita, por exemplo, a maconha, os pais, de uma maneira ou de outra, iniciam um processo de trabalhar a questão. Esse modo de trabalhar a questão varia muito, desde a desconfiança, sondagem e interrogatório até a frustração ou formas claras de explosão, raiva ou violência. A droga ilícita, provavelmente por tal caráter e pela censura que desperta na sociedade, desencadeia um pânico na família, denominado por KALINA & KOVADLOFF (1976) de síndrome de alarme, na qual as pessoas próximas do usuário estabelecem uma resistência criando um conflito. Ou seja, o uso de uma droga ilícita simplesmente não é aceito de forma natural por aqueles que convivem com o usuário. Com o álcool, dado seu caráter legal e de estar inserido na cultura, tal síndrome de alarme não ocorre. Portanto, a bebida alcoólica, além de seu poder atrativo, não contém poder de censura.

O álcool, como qualquer droga psicoativa legalizada, é o lobo em pele de cordeiro (ZAGO, 1996).

Autor
José Antônio Zago joseantoniozago@ig.com.br
Psicólogo do Instituto Bairral de Psiquiatria - Itapira - SP.
Mestre em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba.

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