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Conseqüências do uso de benzodiazepínicos
Enviado por Daniel em seg, 12/03/2007 - 00:34.
Resumo
Neste projeto foram estudadas as conseqüências adversas do uso prolongado de doses terapêuticas baixas de tranqüilizantes benzodiazepínicos (BDZ): tolerância aos efeitos deletérios agudos e terapêuticos, dependência fisiológica e possíveis efeitos adversos sobre os rendimentos indivíduais (atenção, memória e psicomotricidade) que sejam específicos ao uso prolongado.
Métodos
Foram estudados 44 usuários crônicos de dosesterapêuticas baixas de diazepam nas diversas fases deste estudo: 1. Estudo de tolerância aos efeitos agudos (psicomotores, atenção e memória) de dose padrão de diazepam (10mg); 2. Avaliação retrospectiva de sintomas de abstinência em tentativas anteriores de se interromper o uso de BDZ; 3. Avaliação do estado de dependência fisiológica aos BDZ pela admnistração aguda duplo-cega, controlado por placebo de um antagonista específico (flumazenil); 4.avaliação da relevância clinica da síndrome de abstinência a BDZ atravez deum estudo de descontinuação duplo-cego, controlado por placebo; a verificação de possíveis efeitos deletérios sobre o funcionamento individual atravez da comparação dos resultados de desempenho dos pacientes com aqueles de pacientes ansiosos não usuários de BDZ e voluntários normais.
Resultados
Observou-se tolerância aos efeitos agudos psicomotores mas não amnésticos do diazepam, mesmo após 10 meses de descontinuação. Todos pacientes referiram ansiedade durante a descontinuação mas apenas 2 pacientes apresentaram quadros clinicamente significantes, necessitamdo intervenção específica. Agudamente, o flumazenil causou reações de ansiedade e ataques de pânico, associados ao histórico pessoal de pânico do paciente. O desempenho cognitivo e psicomotor dos usuários não se iqualaram àqueles dos não usuários e dos voluntários normais, mesmo após 10 meses de descontinuação.
Discussão
A população do presente estudo difere daquelas estudadas por outros grupos que também investigaram o tema da dependência aos benzodiazepínicos: 1º, a população que procura serviços especializados na pesquisa e tratamento de pacientes com dependência a benzodiazepínicos é formada por pacientes que são geralmente encaminhados por outros profissionais, devido à impossibilidade de interromper o uso em tentativas anteriores e; 2º, difere muito da população de pacientes com dependência a benzodiazepínicos no contexto de usuários recreativos de drogas. A presente população seria representativa do grande número de pacientes aos quais são prescritos benzodiazepínicos como uma alternativa simples de tratamento para um amplo espectro de transtornos emocionais nos quais a ansiedade é um sintoma preponderante, tais como o transtorno de ansiedade generalizada, transtorno do pânico/agorafobia, e quadros de sintomatologia mista depressivo-ansiosa de baixa gravidade.
Observou-se tolerância praticamente completa aos efeitos psicomotores dos benzodiazepínicos, mas não aos amnésticos, nos pacientes usuários de doses terapêuticas baixas de benzodiazepínicos. Há também indícios de que esta população apresentava tolerância aos efeitos ansiolíticos dos benzodiazepínicos. Não houve mudanças no padrão de tolerância após períodos prolongados de descontinuação.
Dependência fisiológica aos benzodiazepínicos foi observada em todos os usuários crônicos, especialmente após a administração de um antagonista específico. A retirada abrupta dos benzodiazepínicos foi, porém, realizada sem maiores intercorrências na maioria dos pacientes. Portanto, o flumazenil não é útil como um preditor das dificuldades que surgiriam quando da descontinuação natural de benzodiazepínicos.
Foram observados ataques de pânico durante o teste em uma parcela dos pacientes que receberam flumazenil. Estes foram os pacientes com antecedentes pessoais de sintomas de pânico. Os ataques de pânico foram claramente diferenciáveis da reação de ansiedade observada em todos os sujeitos recebendo o flumazenil, pelo seu caráter súbito e pela vivência de morte ou catástrofe iminente. Este achado sugere que variáveis disposicionais individuais estariam subjacentes à ação panicogênica do flumazenil.
Em relação à possibilidade da prevenção dos sintomas de abstinência e reversão da tolerância adquirida aos benzodiazepínicos através da administração do flumazenil, não conseguimos os resultados esperados. A possibilidade de reversão da tolerância com doses mais altas de flumazenil ou com múltiplas aplicações não pode ser descartada.
Prejuízos persistentes do desempenho cognitivo e psicomotor foram observados nos usuários crônicos de benzodiazepínicos quando comparados a pacientes ansiosos não usuários e voluntários normais. Estes prejuízos aparentemente não estão relacionados ao quadro ansioso de base e às ações agudas dos benzodiazepínicos. Mais ainda, estes resultados não se modificaram após períodos prolongados de descontinuação, alertando para a possibilidade de os prejuízos observados serem irreversíveis
Conclusão
Em vista dos resultados deste estudo, a presumida inocuidade do uso a longo prazo de tranqüilizantes benzodiazepínicos como droga de manutenção é, ao menos, questionável. Assim, particular atenção deve ser dada quando do tratamento de moléstias psiquiátricas crônicas, como os transtornos de ansiedade, para os quais doses altas de benzodiazepínicos são atualmente recomendadas.
Em face da grande demanda da população por drogas ansiolíticas, a busca de alternativas farmacológicas e não farmacológicas de tratamento devem ser valorizadas.
Autores:
Márcio Antonini Bernik*
Tese de Livre-Docência, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, 1997
Orientadora: Eneida Baptistete Matarazzo
dúvidas ou sugestões : Luís F Tófoli ou Roberto B Sassi
Referências:
- AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Benzodiazepine dependence, Toxicity, and Abuse. A task force report of the American Psychiatry Association. Washington, D.C., American Psychiatric Association Press, 1990.
- BERNIK, M.A. ; GORENSTEIN, C. ; GENTIL, V. Flumazenil precipitated withdrawal in chronic users of low doses of diazepam. Journal of Psychopharmacology, v. 5, p. 215-9, 1991.
- COMMITTEE ON SAFETY OF MEDICINES. Benzodiazepines and dependence. Bulletin of the Royal College of Physicians, v. 12, p. 205, 1988.
- CURRAN, H.V. Tranquillizing memories: a review of the effects of benzodiazepines on human memory. Biological Psychology, v. 23, p. 179-213, 1986.
- HOLLISTER, L. E. ; MÜLLER-OERLINGERHAUSEN, B. ; RICKELS, K. ; SHADER, R. I. Clinical uses of the benzodiazepines. Journal of Clinical Psychopharmacology, v. 13, p.1S-169S, 1993. Supplement.
- WOODS, J.H. ; KATS, J.L. ; WINGER, G. Abuse Liability of Benzodiazepines. Pharmacological Reviews, v. 39, p. 251-413, 1987.
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