Abandono do Tabagismo na Prática Clínica

  

  

 

(The Agency for Health Care Policy and Research Smoking Cessation Clinical Practice Guideline)

 

 

O objetivo desse artigo é resumir o documento Smoking Cessation Clinical Practice Guideline, criado por um comitê de consultores convocado pela Agência Americana para Pesquisa e Política em Saúde (US-AHCPR), que estabelece as condutas para se abordar, na prática clínica, o paciente tabagista e implementar o plano de abandono desse vício. Este artigo, assim como o documento completo, é direcionado a três públicos diferentes: 1) médicos de atenção primária, 2) especialistas em abandono de tabagismo e 3) administradores, consumidores e fornecedores de serviços de saúde.

 

O documento foi baseado numa revisão da literatura especializada sobre o assunto no período de 1975 a 1994 e suas conclusões em resumo são:

 

1) médicos da atenção primária:

  1. devem identificar os pacientes tabagistas;
  2. implementar o plano de abandono do vício;
  3. oferecer reposição de nicotina quando indicado e
  4. agendar contatos para acompanhamento.

2) especialistas em abandono do tabagismo:

  1. criar sessões individuais ou em grupos para aconselhamento;
  2. oferecer reposição de nicotina e
  3. aconselhar sobre manejo da abstinência e apoio social.

3) administradores, consumidores e fornecedores de serviços de saúde

  1. exigir ou garantir a existência de programas contínuos de identificação e tratamento de tabagistas;
  2. exigir ou garantir o treinamento das equipes de saúde para a implementação desses programas;
  3. exigir ou garantir a criação de equipes dedicadas a essa tarefa e
  4. exigir ou garantir o reembolso dos profissionais e atividades ligadas ao abandono do tabagismo.

O tabagismo mereceu a atenção da US-AHCPR quanto à necessidade de se criar um documento com orientações para sua identificação e combate devido à confluência de três fatores principais:

 

  1. é o hábito que individualmente constitui a principal ameaça à saúde;
  2. os médicos não tem dedicado a atenção necessária, além de se mostrarem propensos a ignorarem o problema
  3. intervenções efetivas são disponíveis, além de possuírem caráter preventivo.

O aspecto mais importantes no tratamento do tabagismo é o impacto que ele têm na prevenção das doenças dele decorrentes, especialmente as doenças ateroscleróticas e as neoplásicas.

 

As recomendações a seguir são divididas quanto ao público alvo a que estão dirigidas.

 

Médicos da atenção primária.

 

 

Os médicos se encontram em posição estratégica para abordar pacientes tabagistas, já que 70% deles são atendidos pelo menos uma vez por ano. Além disso, os fumantes reconhecem o aconselhamento médico como um fator de motivação na tentativa de abandono do vício. No entanto, somente 50% dos fumantes relatam ter sido questionados quanto ao vício ou solicitados a abandoná-lo.

 

Uma questão fundamental a ser colocada é a seguinte: "Por que os médicos não abordam rotineiramente e de forma coerente o vício em nicotina de seus pacientes?". Dentre as razões citadas para tanto temos:

  1. falta de tempo;
  2. falta de preparo;
  3. desânimo frente as baixas taxas de sucesso e
  4. crença de que isso não é obrigação do médico.

Além de mudanças estruturais, diversas recomendações foram lançadas, objetivando uma mudança na mentalidade e na prática dos profissionais da atenção primária, de forma que todo paciente tabagista tenha seu vício identificado e inicie o tratamento para abandono. As mudanças estruturais seriam: 1) institucionalização da abordagem do tabagismo, 2) reembolso dos médicos e pacientes pelas orientações e farmacoterapia (até mesmo pelo sucesso), respectivamente, 3) motivação mesmo daqueles que ainda não estão dispostos a parar e 4) obrigatoriedade da intervenção no tabagismo por parte do sistema da saúde.

 

As recomendações estão resumidas no quadro a seguir:

Tabela 1.


Recomendações para o Médico de Atenção Primária

Ação

 

Estratégias para implementação

 


Primeiro passo: Perguntar. Identificar sistematicamente todos os tabagistas.

O uso de tabaco deve ser anotado em toda consulta de todo paciente.

Incluir campos impressos no prontuário do paciente de preenchimento obrigatório contendo as informações referentes ao tabagismo.


Segundo Passo: Aconselhar. Solicitar enfaticamente a todos os fumantes que abandonem o vício.

Solicitar de maneira enfática, clara e pessoal a todo paciente tabagista que abandone seu vício.

Como seu médico, preciso informar-lhe que parar de fumar é a ação mais importante que você pode tomar em benefício da sua saúde. Os demais membros da equipe também devem reforçar a mensagem de abandono do vício.


Terceiro passo: Identificar os tabagistas com vontade de abandonar o vício.

Perguntar a todo fumante se ele(a) está compelido a abandonar o vício ou se já tentou anteriormente.

Caso ele esteja, fornecer o apoio necessário (quarto passo)

 

Caso seja necessário tratamento mais intensivo, encaminhar para o especialista

 

Caso o paciente não manifeste vontade de parar, convença-o do contrário.*


Quarto passo: Auxilie o paciente no processo de abandono

A) Criar um plano de abandono.

Determinar uma data para parar. O paciente deve informar aos familiares, amigos e colegas de trabalho sobre decisão. Preparar o ambiente, removendo todos os cigarros do seu alcance. Rever as tentativas anteriores, identificando o que ajudava e o que levou à recaída. Antecipar desafios e situações difíceis.

B) Utilizar a reposição com nicotina.

Utilizar adesivos ou chicletes de nicotina.

C) Fornecer dicas que facilitam o processo.

Abstinência total é essencial. Evitar o consumo de álcool, devido sua associação com a recorrência. A presença de outros fumantes na casa, especialmente o cônjuge, está associado a baixas taxas de sucesso. O paciente deve elaborar um plano para contornar esse problema.

D) Fornecer material que suplemente as informações passadas.

deve ser claro, educativo e adequado ao nível sócio-cultural do paciente.


Quinto passo: Planejar. Agendar retornos para acompanhamento

Agendar consultas subsequentes.

O primeiro retorno deve ser na mesma semana e o segundo com menos de um mês. Reconhecer os sucessos, parabenizando o paciente. Mostrar que as recaídas devem ser usadas como lições para evitar que repitam no futuro. Avaliar a reposição com nicotina.

* Utilizar a regra dos quatro R: relevância, risco, recompensa e repetição.

 

Tabela 2.


Regra dos quatro R para motivar o paciente a parar de fumar.

Relevância. O médico deve conhecer as preocupações do paciente em relação ao fumo, pois deverá explorar principalmente aqueles que são mais relevantes para o paciente, já que ao faze-lo, sua chance de sucesso será maior.

Risco. O médico deve pedir ao paciente que enumere as conseqüências negativas do tabagismo. Deve frisar que o uso de cigarros de baixos teores não resolve ou evita tais complicações.

 

Recompensas. O médico deve pedir ao paciente que enumere os benefícios de interromper o tabagismo.

Repetição. Esse trabalho deve ser feito a cada visita do paciente.

Parte importante do tratamento é ensinar ao paciente como lidar com as situações que levam à recaída e como evitá-las. O quadro a seguir trata desse assunto.

 

Tabela 3.


Aprendendo a lidar com os problemas decorrentes do abandono.

Reconhecer situações perigosas para a abstinência.

Exemplo

 

Identificar eventos, situações internas ou atividades que aumentam a chance de recaída.

Estar perto de outros fumantes. Estar atrasado. Iniciar um discussão. Ansiedade ou humor negativo. Consumo de álcool.

Desenvolver habilidades para lidar com as situações que ameaçam a abstinência.

Antecipar e evitar tais situações. Fazer mudanças de hábitos de vida para reduzir o estresse. Aprender atividades comportamentais e cognitivas que distraem o paciente da tentação de fumar.

Conhecer um mínimo sobre o tabagismo e o processo de abandono.

Conhecer a natureza e evolução da abstinência. A natureza viciante da nicotina e o fato de que uma simples tragada pode levar à volta completa do vício.

 

Tabela 4.


Tratamento de suporte do paciente em processo de abandono

Componente.

 

Exemplos.

 

Encorajar o paciente em sua tentativa de abandono

Tratamentos efetivos estão disponíveis. Metade dos fumantes agora estão abstinentes. Comunicar ao paciente sua crença na habilidade dele de parar de fumar.

Comunicação de cuidado e preocupação

Perguntar ao paciente como ele se sente em parar de fumar. Expressar preocupação e disposição para ajudá-lo. Estar aberto aos sentimentos do paciente com relação a seus medos, dificuldades, experiências e sentimentos ambivalentes.

Encorajar o paciente a conversar sobre o processo de abandono

Conhecer as razões por que o paciente tomou a decisão de para de fumar. Dificuldades encontradas e sucessos atingidos. Perguntar sobre as preocupações envolvendo o processo de abandono.

 

Por fim teríamos a terapia de reposição da nicotina através de gomas de mascar ou adesivo. A reposição com adesivos é preferível, devido à maior aderência e facilidade de uso. Quanto à indicação do uso da reposição com nicotina, três perguntas devem ser respondidas:

 

  1. Quem deve receber a reposição de nicotina?
  2. A reposição deve ser individualizada?
  3. Qual a forma de administração preferível: chicletes ou goma de mascar.

 

As doses estabelecidas foram pesquisadas em pacientes que fumavam mais de 10-15 cigarros por dia. Caso seja usada em pacientes que fumam menos que isso, as doses recomendadas devem ser reduzidas. As pesquisa também não apoiam a individualização da terapia de reposição por adesivos a não ser nos casos dos fumantes leves. No caso das gomas de mascar, a dose pode ser dobrada para 4mg no casos de fumantes pesados. A preferência pelo uso dos adesivos em detrimento das gomas de mascar deve-se a: 1) maior aderência ao tratamento e 2) não requer treinamento para que o uso seja efetivo. A goma de mascar deve ser usada quando for preferida pelo paciente, na vigência de contra-indicações específicas para o uso do adesivo ou falha com o adesivo.

 

O uso de adesivos de nicotina deve ser evitado em grávidas e em mulheres amamentando. Pacientes com IAM recente (até 4 semanas) , arritmias e angina pectoris severa devem tentar parar sem o uso da nicotina. A ocorrência de reações no local do adesivo chega a 50%. Pode ser evitada com mudança da posição e uso de creme de hidrocortisona 5% ou triancinolona 0,5%. Em menos de 5% dos pacientes é necessário interromper o uso. A duração de oito semanas ou menos parece ser tão eficaz quanto períodos mais longos. Os regimes abaixo são sugeridos:

 

Tabela 5.

Marca

 

Duração em semanas

 

Dosagem em mg por hora

 

Nicoderm ou Habitrol

4

2

2

 

21/ 24

14/24

7/24

 

Prostep

4

4

 

22/24

11/24

 

Nicotrol

4

2

2

 

15/16

10/16

5/16

 

 

O adesivo deve ser colocado logo pela manhã em área sem cabelo entre o pescoço e a cintura. O paciente deve estar em abstinência do cigarro. Não há nenhuma restrição pelo uso do adesivo.

 

Para a reposição com a goma de mascar, valem as mesmas precauções indicadas no caso do adesivo. Os efeitos colaterais específicos incluem: dispepsia, dor na mandíbula, soluços e irritação da mucosa oral. Pacientes usando gomas de 2mg não devem ultrapassar 30 unidades por dia e aqueles usando as de 4mg, 20 unidades. Os pacientes devem estar abstinentes do cigarro. A técnica correta de mascar é; mastigação vagarosa até que apareça um gosto de pimenta, a partir daí colocar a goma entre a gengiva e a parede da boca, a fim de aumentar a absorção da nicotina pela mucosa oral; esse processo deve ser repetido por cerca de trinta minutos. Devem ser evitados alimentos e bebidas 15minutos antes do uso da goma de mascar e durante seu uso. Um erro freqüente dos pacientes é usar menos do que deviam. Para evitar isso, devem ser receitadas gomas a cada 1 ou 2 horas por um período de um a três meses.

 

Especialistas em abandono do tabagismo e programas institucionais.

 

Os especialistas em abandono do tabagismo são um recurso vital no esforço pelo combate ao tabagismo. Eles podem atuar nas seguintes etapas dos programas de combate ao tabagismo:

 

  1. referência treinamento e consultoria para os não especialistas que fornecem serviços de abandono do tabagismo dentro da prática clínica diária;
  2. desenvolvimento e avaliação de mudanças em procedimentos clínicos que aumentam as taxas de diagnóstico e tratamento de tabagistas
  3. condução de pesquisas de para determinar a efetividade das atividades de promoção do abandono do fumo e
  4. desenvolver tratamentos inovadores que apresentem melhor relação custo-benefício.

 

Tabela 6.


Dados Relevantes para a Implementação de Programas Intensivos de Abandono

1) Existe uma forte correlação entre a intensidade do aconselhamento e as taxas de abandono. Os tratamentos podem ser intensificados aumentando-se a duração das sessões, o período de aconselhamento ou o número de sessões.

2) Altos graus de dependência, comorbidades psiquiátricas e baixos níveis motivacionais indicam maior chance de recaída. Esses indicadores devem ser usados para se estimar a intensidade do tratamento.

3) Aumentando o número de profissionais que fazem parte do programa de abandono, com a inclusão de enfermeiros, dentistas, psicólogos além do médico aumentam a chance de abandono.

4) Aconselhamento individual e em grupos são eficazes.

5) A individualização do aconselhamento são efetivos. A resolução de problemas advindos do abandono e o treinamento do paciente para enfrentá-los aumenta as chances de sucesso.

6) Farmacoterapia na forma de adesivos ou gomas de mascar de nicotina aumenta as taxas de abandono a despeito das intervenções comportamentais e psicossociais.

7) Não há diferença nas taxas de abandono entre grupos distintos quanto a idade, raça, gênero, etc.

 

Tabela 7.


Recomendações para Programas Intensivos de Abandono do Tabagismo.

Abordagem.

Deve ser determinado se o paciente está disposto ou não a parar de fumar através desse tipo de programa.

Profissionais envolvidos. Profissionais de várias áreas devem estar envolvidos. Um profissional da área médica seria responsável pelo aspecto da saúde física e outro da área de psicologia pelos problemas psicossociais.

Intensidade. As 4 a 8 sessões deve durar no mínimo 20 a 30 minutos, num período de no mínimo duas a oito semanas ou mais de preferência.

Formato. Individual ou coletivo; material extra deve ser fornecido e contatos de acompanhamentos devem ser estabelecidos.

Conteúdo. Os alvos devem ser: motivação para largar e para evitar recaída; a resolução de problemas decorrentes do abandono; e apoio social nas sessões.

Farmacoterapia. Todo tabagista em processo de abandono deve ter acesso à reposição de nicotina como descrito.

População. Esse programa pode ser usado para qualquer tipo de fumante.

 

Administradores, consumidores e fornecedores de serviços de saúde.

 

Embora orientações para a prática clínica têm sido direcionadas para o médico da atenção primária, a promoção do abandono do vício em tabaco demanda uma abordagem mais geral, pois o clínico deverá sem aparado por políticas que incentivem a sua atuação no sentido de identificar e tratar pacientes tabagistas. Ou seja, a responsabilidade pelo combate ao tabagismo deve ser distribuída. Se por um lado o médico tem o dever profissional de identificar e tratar seus pacientes tabagistas, por outro, os administradores, consumidores e fornecedores de serviços de saúde têm a responsabilidade de criar políticas, fornecer recursos e tomar a frente das decisões que intensifiquem os esforços para se reduzir a população de tabagistas.

Autor / Tradução

( The Agency for Health Care Policy and Research Smoking Cessation Clinical Practice Guideline)

Paulo Renato Valle Corrêa

 

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