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Colhendo Incertezas Nos Campos Do Saber
1. As dúvidas fazem mover os pensamentos, mas queremos sempre ficar livre delas. Buscamos sempre uma certeza, a unicidade. Nem sempre a certeza é um fim. Muitas vezes é o iniciar de nova dúvida. Quando nos apegamos a uma certeza de maneira incondicional há o risco do pensamento parar. A dúvida permeia a história do pensar humano.
2. Os astronautas que foram à Lua estavam amparados de certezas. Certezas concretas, metodicamente planejadas. Mas alguns deles voltaram transformados do espaço.
O astronauta Louis Russel Sweickart, logo após seu vôo na Apolo 9, disse: "Depois que voltei do espaço, não sou mais o mesmo. Nenhum de nós consegue ser." Edwin "Buzz" Aldrin, o segundo homem a pisar na Lua na missão Apolo 11, no seu retorno a Terra começou a entrar em fases depressivas chegando quase ao suicídio. O oitavo homem a pisar na Lua, James Irwin, da Apolo 15, disse que viu Deus na Lua. Tornou-se pastor evangélico e iniciou na Turquia uma busca incessante na esperança de encontrar a Arca de Noé no Monte Ararat. Outro astronauta que mudou de vida após sua viagem na Apolo 14 foi Edgard Mitchell, abrindo um consultório para atendimento e atividades paranormais.1
A chegada à Lua pode ser considerada sob muitos aspectos o marco mais significativo das conquistas humanas, impulsionando grande desenvolvimento da ciência e, em particular, da tecnologia. Estudos e projetos exaustivos, treinos, tentativas, falhas e acertos puderam colocar o homem no satélite natural da Terra. Isso revela que a capacidade humana aprimorou sua capacidade de controlar e prever fenômenos.
Entretanto, mesmo passando por rigorosos treinamentos onde aprenderam a responder a inúmeros problemas concretos previsíveis ou imagináveis, quem poderia supor que alguns astronautas voltariam transformados do espaço? Quem poderia esperar que esses homens rigorosamente preparados voltassem submergidos em incertezas?
Jack Swigert, piloto do módulo de comando da Apollo 13, percebeu que os astronautas que pisaram na Lua, apesar de anos e anos de exaustivos treinamentos e das dúvidas sobre o sucesso da conquista, falharam em "experimentar" a eles mesmos de maneira completa. "É possível manter a calma e viajar em uma nave no vazio espacial? Não. Segundo Swigert, apenas uma alternativa: ir à Lua ou apreciar o significado da viagem; nunca ambos. Se isso é verdade, é possível que os quase quatro bilhões de pessoas que ficaram para ver as fotografias, estudar rochas e relatar as jornadas dos astronautas levaram a maior parte do bolo." 2
3. As tentativas de superar paradoxos ou impasses parecem ser uma característica fundamental do homem, provavelmente para elaborar um mundo inteligível e sem contradições. Essas tentativas estão presentes na filosofia, na ciência, nas artes, nos romances, nas lendas e nos contos de fada.
A Obra em Negro narra a caminhada de Zênon no século VI, final da Idade Média e limiar da Renascença, período obscuro e ao mesmo tempo desejoso de conhecimento. Filósofo, alquimista e médico, Zênon busca a sabedoria ou a pedra filosofal que teria o poder de transformar metais comuns em ouro, ou seja, a procura da Grande Obra. Toda essa busca é também uma tentativa de Zênon buscar a si mesmo.3
Uma das belas estórias sobre o Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda é o conto da busca do Santo Graal, símbolo da perfeição e da união entre o céu e a terra. Marion Z. Bradley reescreveu esse conto mostrando que o Santo Graal é uma lenda que conciliou na Bretanha o cristianismo com o mundo pagão representado pela magia dos druidas.4
As idéias filosóficas têm percorrido trilhos paralelos. Um tem origem em Platão; outro em Aristóteles. O primeiro privilegia a idéia; o segundo os sentidos. Toda história das idéias percorre um ou outro trilho. Os princípios de Platão têm seu apogeu no racionalismo; os de Aristóteles no empirismo. A mais evidente tentativa de superar esse impasse ou unificar os trilhos é a obra de Kant. Reconhecido como referência do pensamento moderno, Kant unificou as duas posições anteriores e antagônicas, o empirismo e o racionalismo. Entretanto, o idealismo e o positivismo brotaram a partir da superação desse impasse.5
4. Para Thomas S. Kuhn toda ciência precisa de um paradigma geral para que se desenvolva. Denomina de fases "normais" da ciência quando os cientistas aceitam e desenvolvem o paradigma, a matriz que determina os projetos de pesquisa. E de fases "revolucionárias" quando surge um novo posicionamento que acaba substituindo o paradigma até então vigente como as mudanças radicais ocorridas, por exemplo, a partir de Copérnico, Newton, Darwin e Einstein. Para Kuhn, a psicologia é uma ciência imatura porque não possui um paradigma geral que estimule uma linha de desenvolvimento, já que vive de escolas psicológicas que se debatem entre si, não atingindo com isso o status de ciência madura.6
Na tentativa de ser reconhecida como ciência, vários campos do saber têm procurado aproximar ou seguir o modelo das ciências exatas. Eis alguns exemplos:
a). Kurt Lewin com a teoria de campo da personalidade propõe uma psicologia à semelhança da física, emprestando conceitos como vetor e valências. É uma teoria com "ares" de física clássica quanto à nomenclatura e a descrição dos fenômenos psicológicos.7
b). Skinner com o behaviorismo radical quer transformar a psicologia em ciência positiva, exata, a fim de controlar e prever o comportamento por meio do controle de variáveis do ambiente. Assim, conhecendo e manipulando as variáveis ambientais, controla-se a conduta do organismo nesse meio. 8 O postulado de Skinner, o qual pode ser expresso em uma fórmula matemática, é que o comportamento é função do ambiente:
c = ¦ (a)
onde c = comportamento (variável dependente) é função de a = ambiente (variável independente).
c). A teoria freudiana, inspirada pelo paradigma darwiniano, tem como um de seus fundamentos o determinismo psíquico. Na segunda tópica Freud desenvolve o conceito de três instâncias cujos limites entre inconsciente e consciente não são nítidos ou estáticos quanto aos conceitos da primeira tópica (inconsciente, pré-consciente, consciente), ou seja, a vida consciente seria apenas um aspecto do inconsciente que determina a vida psíquica. 9 Também, a título de exercício, tal pode ser representada matematicamente pela teoria dos conjuntos:
V = {a, b, c}
Onde a Î V; b Î V; c Î V, isto é, a = id, b = ego e c = superego que pertencem ao conjunto V (= inconsciente); relações de pertinência dos elementos a, b, c que pertencem ao conjunto V.
d). No campo da sociologia Wiese propõe uma fórmula para a análise dos processos sociais:
P = CxS
onde P = processo social que é resultante do C = comportamento dos homens nele participantes e da S = situação na qual se desenvolve.10
e). A mais conhecida fórmula é E=mc2 de Einstein11.
f). A biologia teve grandes avanços desde A Origem das Espécies de Darwin, publicada pela primeira vez em 1859. Por exemplo: 12
o estudo sobre a criação de ervilhas pelo monge austríaco Gregor Mendel, publicado em 1868 e que passou desapercebido pela comunidade científica até a virada do século. Mendel foi o primeiro a reconhecer como as características individuais são transmitidas de uma geração para outra, denominadas na época de partículas hereditárias e que contribuíram para corroborar a intuição de Darwin e refutar a teoria de Lamarck.
a descoberta da estrutura do DNA em 1953 por Watson e Crick , esquema para a construção de todos os organismos.
as neurociências que consideram que a fronteira final da ciência não é o espaço, mas o cérebro, questionando a visão dos psicólogos que consideram a mente como uma caixa preta com entradas e saídas. As neurociências concentram seu enfoque nas células nervosas e nas moléculas envolvidas.
O reducionismo da biologia molecular de que todos os fenômenos biológicos podem ser explicados em termos físicos ou mecânicos.
Tudo isso converge para sugerir que toda a vida tem uma fonte em comum.
Mas, desde a publicação de Darwin, nenhum outro avanço da biologia desencadeou tanta discussão na ética e na teologia quanto à questão de decodificar o genoma humano. Para Mauron, essa questão tem sido central nos atuais debates éticos e de políticas públicas, pois sugere de certa forma como os nossos genes prescrevem a nossa humanidade. Assim, o genoma vem sendo rotulado como o "Livro do Homem" e sua decodificação semelhante à busca pelo Santo Graal.13
Em outras palavras, isso colocaria um fim nas ciências sociais e antropológicas.
5. Bohr define certeza deste modo: "certeza é a probabilidade = 1." 14 Com base nessa definição questionamos:
- Qual fenômeno humano ou da realidade dos homens apresenta probabilidade igual a um?
Nessa busca da certeza e da unicidade, há um paradoxo no pensamento científico: o impasse que vive a física entre a teoria da relatividade e a da mecânica quântica; entre o determinismo e a probabilidade. Para Einstein o macrocosmo é ordenado, finito e harmonioso, que se resume em sua célebre frase: "Deus não joga dados."15 Para Heisenberg, no microcosmo, quando se pretende conhecer a posição de uma partícula, menos se conhece de sua velocidade, e vice-versa. Heisenberg denominou esse fenômeno como princípio da incerteza ou princípio da indeterminação, fato que Einstein tentou refutar até o fim de sua vida, pois tal princípio implica na aceitação do acaso e no papel participativo do observador.16
Hawking refere que a tarefa de compreender o universo, que antes pertencia aos filósofos, agora é dos físicos. E faz uma tentativa em sua obra para conciliar esse impasse, afirmando que ao se chegar a uma teoria completa e unificada sobre o universo se terá compreendido a mente de Deus, e, quando isso for atingido, será o triunfo definitivo da razão humana.17
Nos campos do saber o homem tem procurado encontrar uma explicação única da realidade, em atingir uma certeza absoluta à semelhança da busca da pedra filosofal, da Grande Obra ou do Santo Graal.
É provável que toda essa empreitada de compreender a realidade represente para o homem a busca de uma compreensão de si mesmo para aceitar ou superar seus limites, paradoxos e crises.
6. Causa estranheza à associação que Kuhn faz entre a existência de um paradigma geral com a maturidade de determinada ciência. Do ponto de vista epistemológico parece uma posição estreita e imobilista que se submete à evolução histórica do conhecimento às rígidas fórmulas e padrões, desconsiderando a dinâmica intrínseca do ser humano e das relações sociais ao longo do tempo. Desconsidera também a riqueza da intersecção de diferentes áreas do saber e de diversas correntes de pensamento, tendendo cair no dogmatismo.
Em relação a determinados campos do saber como a filosofia, a sociologia, a psicologia, entre outros, questiona-se a validade e mesmo a possibilidade da formulação de um paradigma geral. Desse modo, considerando a complexidade do ser humano, e cada ser como individualidade singular, é possível uma matriz única para o saber?
Conforme apontado, Heisenberg refere que Einstein sempre relutou em aceitar o princípio da incerteza, pois esta teoria refuta a exclusividade do determinismo, já que na teoria quântica o acaso ou a probabilidade explicam os fenômenos quânticos. Mas, foi a partir de um comentário de Einstein - "É a teoria que decide o que podemos observar" - que Heisenberg encontrou a luz para a solução de suas reflexões sobre o princípio da indeterminação.18
A revolução da descoberta de Heisenberg é que ao falarmos de natureza falamos de nós mesmos, ou seja, o papel participativo do observador, encerrando a idéia de ciência puramente objetiva na qual o observador é independente do objeto de conhecimento. Ou, a posição do observador é interferente no que é observado. Em outras palavras, com a teoria quântica aprendemos que é possível uma ciência exata sem aceitar o realismo dogmático; e que a lei da causalidade, de que todo evento que ocorre pressupõe um evento antecedente de acordo com alguma regra, não é a única base do conhecimento científico. A ciência natural é feita por homens, a qual resulta não só do trabalho de descrever e explicar a Natureza, mas também da interação entre homem e Natureza por meio de um método de pesquisa, tornando impossível uma separação entre o mundo e o "Eu".19
Portanto, o impasse entre a teoria da relatividade e a da mecânica quântica não deve ser vista como uma incapacidade do homem unificá-las, porém expressão da própria maneira paradoxal de ser do homem.
Utilizando então a citação de Einstein que "Deus não joga dados", podemos afirmar que "...no microcosmo Deus joga!".20
7. A certeza científica de hoje é diferente da certeza científica de ontem. Ontem, por exemplo, os seres vivos nasciam espontaneamente.21 Hoje, a partir dos trabalhos de Pasteur, é inconcebível a idéia de "geração espontânea".
Entretanto, com a aceitação da teoria que o universo começou com uma explosão, uma singularidade, o Big-Bang, há de se aceitar que a origem da vida, nas condições da época durante a formação de nosso planeta, ocorreu espontaneamente. A não aceitação dessa hipótese ou do conjunto desse paradoxo implica aceitar como viável a existência de um Criador; ou a tese de que em tempos remotos visitantes de outras galáxias deixaram sementes de vida ao passar por aqui.
- O que é a verdade ou a certeza científica?
O avanço científico é possível à medida que o método e o instrumental de pesquisa se aproximam da rigorosidade. Contudo, é enganoso concluir que quanto mais a ciência evolui menos misterioso se torna o mundo. A ciência é constituída de campos finitos de certezas provisórias em expansão num campo infinito de mistérios. As certezas são sempre provisórias porque se trabalha nos limites desses campos de conhecimento com o desconhecido. Mesmo quando estudamos a História ou quando estudamos um autor da época antiga, de forma alguma é um retrocesso ou um retorno ao passado. A partir do limite presente esse retorno ao passado é, a rigor, uma busca em direção ao futuro na tentativa de ampliar esse limite.
Ao conhecer nova certeza mais consistente que refuta e substitui uma antiga, não significa necessariamente que se perdeu tempo numa "estrada errada", pois não deixou de ser uma caminhada e, num certo sentido, não deixou também de ser um avanço. As certezas são sempre provisórias porque se trabalha nesses limites, conforme expõe Prigogine sobre o fim das certezas e de que o futuro não é dado.22
Por isso, os argumentos de Horgan23 sobre os limites do conhecimento científico, referindo-se às ciências puras ou na sua forma mais grandiosa, onde conclui que se esgotaram todas as possibilidades para construir novos paradigmas ou revoluções na ciência, tais como Darwin, Copérnico, Einstein, etc., não são convincentes porque simplesmente ignoram que o homem é o ser das possibilidades.
Quando a ciência apresenta um novo modelo de universo há conseqüências no pensar e no fazer dos homens. O sistema de Copérnico estimulou o homem a ser mais ativo na natureza, ao contrário do modelo de Ptolomeu no qual o homem era passivo e a mais bela tarefa era a admiração, conceito que Platão deu à filosofia. Se para Empédocles a água (H2O) era um elemento substancial e admirável da natureza; ao tornar-se ativo no mundo, o homem permitiu-se invadir esse elemento admirável: por exemplo, acrescentou dois átomos de hidrogênio obtendo a água oxigenada (H2O2). No modelo de Ptolomeu cabia ao homem refazer em seu pensar a ordem existente no cosmo; no de Copérnico a hierarquia do cosmo é destruída e modificada.24 Descartes forneceu as ferramentas para a intervenção ativa do homem no mundo.
8. Desde Newton até Einstein os físicos utilizam os números reais. Para Gregory Chaitin, matemático da IBM, os números reais são um "disparate", declarando que "Os físicos sabem que toda equação é uma mentira"; no que a citação de Picasso sugere o oposto: "A arte é uma mentira que nos ajuda a ver a verdade."25
Suponhamos uma pintura em tela na qual há duas figuras humanas. Uma na cor vermelha e outra na cor verde. Em qualquer lugar do planeta serão reconhecidas como duas figuras humanas: uma em vermelho, outra em verde. São certezas, ou melhor, verdades quanto ao conceito das figuras e das cores. A cor vermelha é reconhecidamente vermelha em qualquer lugar do mundo. O mesmo se refere ao verde. São verdades inquestionáveis ou certezas definitivas. São verdades objetivas!
Mas quando alguém refere que a tela é bonita ou que causa um sentimento de união, tal parecer poderá não ser concordante com outros. Um outro observador poderá dizer que as cores são agressivas ou que as figuras inspiram cisão. Enfim, quando ingressamos no campo da subjetividade, torna-se impossível afirmar qual dos observadores está com a verdade. Se esses observadores exprimem realmente o que sentem, suas proposições, embora opostas, não significam que apenas um ou apenas o outro esteja certo. Ambos pareceres são verdadeiros. Trata-se aqui de outra dimensão de verdade: a verdade subjetiva.
Rogers afirma que a única realidade que percebemos é aquela que cada um percebe e vivencia: "Os ‘mundos reais’ são tanto quanto as pessoas."26
9. A ciência, nos seus diversos campos, para compreender o homem e as coisas, fragmentou-os. Newton fragmentou o universo para trabalhar com conceito de espaço e de tempo absolutos. Descartes separou a mente do corpo e Locke por meio do empirismo extremo, que negava o conhecimento inato em oposição ao cartesianismo, retomou o conceito aristotélico de tabula rasa, símbolo da "mente" infantil sobre a qual a experiência sensorial é gravada.27 O todo foi decomposto em partes.
Contudo, para Einstein, espaço-tempo não é algo que existe independente dos objetos da física, pois objetos físicos não estão no espaço. Os objetos físicos são espacialmente estendidos, perdendo assim o sentido de "espaço vazio".28 Ou seja, o universo em expansão não preenche espaço e tempo vazios, mas expande seu espaço e seu tempo.29
10. Conforme Mauron:
"Há necessidade, mais do que nunca, de uma concepção mais profunda ou filosófica da condição humana. Essa condição está além do que ter um simples genoma. Significa ter uma identidade narrativa de si mesmo. Pertencer ao mundo humano implica um nexo abundante de laços humanos que não pode ser reduzido à taxonomia."30
É obvio que para pertencer à espécie humana é preciso ter o genoma humano. Essa condição é necessária, fundamental e imprescindível, mas não suficiente.
No dizer de Paulo Freire:
"Como presença consciente no mundo não posso escapar à responsabilidade ética no meu mover-me no mundo. Se sou puro produto da determinação genética ou cultural ou de classe, sou irresponsável pelo que faço no mover-me no mundo e se careço de responsabilidade não posso falar em ética. Isto não significa negar os condicionamentos genéticos, culturais, sociais a que estamos submetidos. Significa reconhecer que somos seres condicionados mas não determinados. Reconhecer que a História é tempo de possibilidades e não de determinismo, que o futuro, permita-se-me reiterar, é problemático e não inexorável."31
11. É elementar a compreensão da linearidade ou da seqüência lógica do ciclo natural da vida: nascer, crescer, reproduzir e morrer. Não há como questionar isso. É simples entender o geral e o racional da vida, a seqüência lógica do ser vivo. Contudo, considerando que o homem não é somente um ser vivo, mas também existente, isto é, o único a ter consciência de sua existência, e considerando o que cada existência tem de mais íntimo, olhando e convivendo com o ser como subjetividade, ou seja, com sentimentos, paixões, dúvidas, angústias, crises intransferíveis, temores, esperanças; a seqüência lógica - nascer, crescer, reproduzir e morrer -, essa linearidade do racional é insustentável como algo absoluto. Se de um lado, o ciclo natural da vida é um evoluir de fases ou etapas de forma ordenada e definida; por outro, o processo de existir de cada individualidade nem sempre é harmonioso ou lógico, isto é, nem sempre a existência, no sentido das vivências e experiências mais interiores do ser, é linear ou previsível. Tal é exatamente parecido com o impasse ou com o paradoxo da fisica.32
12. A mente não é como uma caixa vazia ou uma tabula rasa que, à medida que evolui, é preenchida de conhecimento. Conforme aprende, esse aprendizado é incorporado, ou seja, passa a fazer parte do organismo humano como um todo. O homem é um ser situado num tempo e numa cultura. É um ser histórico, como produto de seu meio, mas também um produtor da história, tanto da história pessoal quanto social. A presença no mundo requer a assunção como sujeito que não ocupa um espaço vazio no mundo, mas traça ou expande seu existir genuíno na temporalidade presente.
13. As teorias são formas de ver a realidade, mas o conhecimento mesmo requer que a situação seja experienciada de forma organísmica pelo sujeito.
De um lado, as escolas psicológicas ou as diversas correntes teóricas da psicologia revelam a riqueza, as dúvidas e os limites do pensar, do sentir e do fazer humanos. Devemos nos dar por satisfeitos por não termos encontrado um paradigma acabado e ideal do homem, pois um paradigma único implicaria numa imagem idealizada e conseqüentemente neurotizante de homem. Nem mesmo a física, ciência exata, possui um paradigma único. Somos humanos e limitados, porém insatisfeitos com esses limites.
Por outro, questões a respeito da ciência pura ou grandiosa, das possibilidades de novas revoluções científicas, de temas como a origem da vida, do começo e do fim do universo, dos "blocos" fundamentais da matéria e da equivalência da matéria e energia parecem que se tornam insignificantes frente aos problemas, até mesmo aos mais simples, do cotidiano. Este campo parece depender mais da comunhão e da solidariedade entre os homens.
14. Mesmo se atingir o conhecimento absoluto e com isso "compreender a mente de Deus" ou mesmo se encontrar a Grande Obra, a pedra filosofal ou o Santo Graal, provavelmente surgirá à dúvida de que seja a última palavra.. Aí, então, começará nova busca.
Quanto a isso convém lembrar que a teoria de geocêntrica de Ptolomeu durou cerca de 1.500 anos.33 Quer dizer, durante 1.500 anos a imensa maioria acreditava que esta era a última e definitiva palavra sobre a maneira como o universo estava estabelecido e construído teoricamente. Por 1.500 anos, apesar de ser apenas uma teoria, a aceitação do geocentrismo era a probabilidade igual a um.
Mais do que buscar a pedra filosofal, a unicidade ou superar os paradoxos do conhecimento, as tentativas de encontrar o Santo Graal são, em si mesmas, uma das mais belas aventuras humana. A colheita de certezas provisórias não só transforma partes do infinito de mistérios em campos de saber, mas, ao mesmo tempo, é semeadura de novas incertezas.
Autor
José Antonio Zago - joseantoniozago@ig.com.br
Psicólogo Clinico , Mestre em Educação pela UNIMEP, Psicólogo de Instituto Bairral de Psiquiatria e Membro da Equipe Multidisciplinar da Clínica Mirante
Referências
1. Folha de S. Paulo. Homens voltam do espaço transformados. 2o Caderno, 24-07-88, p. A-28.
2. Kluger, J. They asked for the moon. Time (Latin American Edition), july 19, 1999, pp. 32-35.
3. Youcenar, M. A Obra em Negro. Rio de Janeiro: Rio Gráfica, 1986.
4. Bradley, M.Z. As Brumas de Avalon (Livro quarto). São Paulo: Nova Cultural, 1989.
5. Citado por Padovani, U.; Castagnola, L. História da Filosofia. São Paulo: Melhoramentos, 1974, p. 359.
6. Citado por Kneller, G.F. A Ciência como Atividade Humana. Rio de Janeiro: Zahar/São Paulo: EDUSP, 1980, pp. 63-70.
7. Citado por Hall, C.S.; Lindzey, G. Teorias da Personalidade. São Paulo: EPU-EDUSP, 1974, pp. 233-286.
8. Skinner, B.F. Sobre o Behaviorismo. São Paulo: Cultrix-Edusp, 1982, p. 19.
9. Freud, S. El "Yo" y el "Ello" (Obras Completas, III). Madrid: Biblioteca Nueva, 1973, pp. 2701-2728.
10. Wiese, L. von. Os processos de interação social. Em: Cardoso, F.H.; Ianni, O. Homem e Sociedade; leituras básicas de sociologia geral. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1972, pp. 212-222.
11. Citado por Brown, H.R. Albert Einstein: um simples homem de visão. São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 42.
12. Citado por Horgan, J. O Fim da Ciência; uma discussão sobre os limites do conhecimento humano. São Paulo: Companhia da Letras, 1998, pp. 148 e 204.
13. Mauron, A. Is the genome the secular equivalent of the soul? Science, 291: 5.505, february 2001, pp. 831-832.
14. Bohr, N. Física Atômica e Conhecimento Humano; ensaios (1932-1957). Rio de Janeiro: Contraponto, 1996, p. 72.
15. Citado por Heisenberg, W. Física e Filosofia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1998, p.17.
16. Heisenberg, W. A Parte e o Todo; encontros e conversas sobre física, filosofia, religião e política. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996, pp. 124-125.
17. Hawking, S. Uma Breve História do Tempo; do big-bang aos buracos negros. Rio de Janeiro: Rocco, 1988, p. 238.
18. Heisenberg, W. A Parte e o Todo; encontros e conversas sobre física, filosofia, religião e política, p. 96.
19. Heisenberg, W. Física e Filosofia, p.115.
20. Zago, J.A. Ciência, existência e crescimento interior; uma análise fenomenológica-existencial. Informação Psiquiátrica, 11: 141-143, 1992.
21. Em referência a Teoria da Geração Espontânea que teve seus primórdios com o conceito de "princípio ativo" de Aristóteles, passando por Paracelso e atingindo seu apogeu com Van Helmont no séc. XVII. Cf. American Institute of Biological Sciences. Biologia: das moléculas ao homem. Biological Sciences Curriculum Study (v.1). São Paulo: Edart, 1977, pp. 54-56.
22. Prigogine, I. O Fim das Certezas. São Paulo: UNESP, 1996.
23. Horgan, J. O Fim da Ciência; uma discussão sobre os limites do conhecimento humano, p. 11, 16 e 17.
24. Carmo, R.E. Fenomenologia Existencial; estudos introdutórios. Belo Horizonte: O Lutador, 1974, pp. 6 e ss.
25. Citado por Horgan, J. O Fim da Ciência; uma discussão sobre os limites do conhecimento humano, p. 285.
26. Rogers, C. Precisamos de "uma" realidade? Em: Rogers, C.; Rosenberg, R.L. A Pessoa como Centro. São Paulo: EPU, 1977, pp. 185-194.
27. Citado por Marx, M.H.; Hillix, W.A. Sistemas e Teorias em Psicologia. São Paulo: Cultrix, 1974, p. 125.
28. Einstein, A. A Teoria da Relatividade Especial e Geral. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999, p. 9.
29. Piettre, B. Filosofia e Ciência do Tempo. Bauru: EDUSC, 1997, p. 165.
30. Mauron, A. Is the genome the secular equivalent of the soul? Science, 291: 5.505, february 2001, pp. 831-832.
31. Freire, P. Pedagogia da Autonomia; saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996, p. 21.
32. Zago, J.A. Ciência, existência e crescimento interior; uma análise fenomenológica-existencial. Informação Psiquiátrica, 11: 141-143, 1992.
33. Heisenberg, W. A Parte e o Todo; encontros e conversas sobre física, filosofia, religião e política, p. 44.
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