Tenho algumas idéias que gostaria de partilhar com os senhores nessa manhã.
Não trago afirmativas conclusivas, mas, na perspectiva a que se propõe esse colóquio, traço um pensamento reflexivo e especulativo.
Primeira reflexão é muito sintomática que, nesses tempos de guerras, os três produtos que realizam as maiores cifras de negócios no mundo, sejam: petróleo, armamentos de guerra e drogasUm termo de uso variado. Em medicina, refere-se a qualquer substância com o potencial de prevenir ou curar doenças ou aumentar o bem estar físico ou mental; em farmacologia, refere-se a qualquer agente químico que altera os processos bioquímicos e fisiológicos de tecidos ou organismos. Portanto, droga é uma substância que é, ou pode ser, incluída numa farmacopéia. Na linguagem comum, o termo se refere especificamente a drogas psicoativas e em geral ainda mais especificamente às drogas ilícitas, as quais têm um uso não médico além de qualquer uso médico. As classificações profissionais (por exemplo: “álcool e outras drogas”) normalmente procuram indicar que a cafeína, o tabaco, o álcool e outras substâncias de uso habitual não médico sejam também enquadradas como drogas, na medida em que elas são consumidas, pelo menos em parte, por seus efeitos psicoativos.. Se fizermos um coquetel desses três ingredientes, nós teremos o clima bem nítido da situação atual.
Por outro lado, gostaria de começar citando o título de um livro que foi um grande sucesso na época de seu lançamento, sendo alvo de repetidas edições. Trata-se de uma obra do psiquiatra francês, Prof. Claude Olievenstein: "Não existem drogados felizes". Se o objetivo de minha vinda a esse colóquio era dar resposta a esse tema, apoioando-me em Olievenstein posso dizer: não existem drogados felizes!
Então, por que tanto sucesso nasVeja teor alcoólico no sangue. drogasDrogas, em todas as sociedades, desde aquelas ditas mais evoluídas, desenvolvidas, até aquelas que permeiam o 3o ou o 4o mundo?
Neste momento torna-se imperativo conceituar o termo droga. Uma expressão que precisa ser contextualizada. Pois, como droga podemos dizer desde a topada que levamos, até uma pessoa que é chata ou uma situação que é vexatória. Aqui nos referimos a todas as substâncias que tem afinidade com o aparelho psíquico. São as substâncias psicotrópicas, que tem ação sobre a psique, a mente.
Mas, precisamos nos perguntar se determinadas drogas, pela proposta terapêutica que insinuam, não estariam igualmente inseridas nesse contexto. Quero referir-me a título de argumentação a três destes fármacos que fez tanto sucesso nessa década. Uma delas foi até rotulada de a droga da felicidade. Prozac, quimicamente designado como fluoxetina. Foi com essa proposta que o laboratório fabricante conseguiu um grande êxito na bolsa de valores. Depois, o Viagra, que também busca um outro tipo de felicidade, baseada na promessa de um bom desempenho sexualA saúde sexual refere-se às áreas da medicina envolvidas com a reprodução humana e comportamento sexual, as doenças sexualmente transmissíveis, os métodos contraceptivos, anticoncepcionais, entre outros..
Uma outra substância que igualmente buscou um grande sucesso propunha emagrecer os obesos de todos os gêneros. O Xenical, porque permite controlar o peso em uma sociedade que abusa do consumo.
Limitando-nos apenas aos psicotrópicos, temos as drogas que acalmam e porque acalmam seriam proposta de felicidade para quem precisa de paz. Existem outras que propõem momentos de excitação e isso seria o caminho da felicidade para os que desejam ter ânimo. E, outras que desorganizam ou desestruturam a mente, pois fugir da realidade seria uma forma de encontrar a felicidade. Sair da real.
Ser feliz, então, é acalmar-se, excitar-se ou desorganizar-se? A droga não responde porque ela é um produto inerte e anódino. E, quem dá a dimensão e o conteúdo existencial a essa experiência é o ser humano. Por isso nada melhor do que fazer apelo ao que os gregos chamam de fármaco. Tanto o veneno - aquilo que mata, como aquilo que cura - remédio. Um dos elementos mais extraordinário, quando se lida com esta questão das drogas, é justamente que este é um assunto prenhe de contradições e ambigüidades. Sem que se possam estabelecer noções mais claras e mais exatas ao lidarmos com essa situação.
Por que com a droga procura-se a felicidade? Ousaria corrigir essa assertiva dizendo - busca-se o prazer. Mas, ao mesmo tempo, o grande risco da droga é que ela leva à morte. Eros e Thanatos.
A outra ambigüidade da sociedade é saber porque existem drogas legais e outras que são ilegais? Por exemplo, a maconha no Brasil é tida como ilegal, uma atividade ligada à contravenção. Em muitos países muçulmanos ela é permitida - haxixeVeja cânabis. - como uma atividade prazerosa. No Brasil, as bebidas alcoólicas são largamente difundidas e estimuladas. Nos países árabes são formalmente interditadas.
Outro elemento que gostaria de destacar, esse mais em sua dimensão histórica é que a droga já esteve ligada aos próprios processos civilizatórios, quando era admitida como algo identificatório dessa cultura. Basta ficarmos com a nossa civilização, judeu-cristã, que sempre foi genuflexa, em versos e prosa, ao valor do vinho. In vino veritas.
" Do uso do haxixe nas seitas mulçumanas do Oriente Médio a partir do séc. XII, ao consumo do cipó alucinógenoUma substância que induz alterações da senso-percepção, do pensamento e dos sentimentos parecidos aos das psicoses funcionais, sem, no entanto, produzir as importantes alterações da memória e da orientação características das síndromes orgânicas. O ácido lisérgico (LSD, ou dietilamida do ácido lisérgico), a dimetiltriptamina (DMT), a psilocibina, a mescalina, a tenanfetamina (MDA, ou 3, 4-metilenodioxianfetamina), o êxtase (MDMA, ou 3,4-metilenodioximetanfetamina) e a fenciclidina (PCP) são exemplos de alucinógenos.A maioria dos alucinógenos é ingerida; contudo, a DMT é aspirada ou fumada. O uso característico é episódico, sendo que o uso crônico e freqüente é extremamente raro. Os efeitos manifestam-se de 20 a 30 minutos após a ingestão e consistem em dilatação pupilar, elevação da pressão arterial, taquicardia, tremor, hiperreflexia e a fase psicodélica (que consiste em euforia ou alterações variadas do humor, ilusões visuais e distorções perceptivas, borramento dos limites entre o eu interior e o mundo exterior, e freqüentemente uma sensação de fusão com o cosmos). São comuns as flutuações rápidas entre a euforia e a disforia. Após umas 4 a 5 horas, esse quadro pode ser substituído por idéias de auto-referência, sentimentos de aumento da consciência do eu interior, e uma sensação de controle mágico.Além da alucinose, que é produzida regularmente, são freqüentes outros efeitos adversos de alucinógenos, entre os quais:
Os alucinógenos têm sido usados como coadjuvantes de terapia através do “insight”, mas esse uso tem sido restrito ou até mesmo banido pela legislação.Veja também:planta alucinógena. - ayusca - nas nações indígenas do Amazonas, isso a centenas de anos; a utilização do cactus do peyote, em rituais de índios do México."
Se as drogas se inscreviam como fenônemos que permeavam as civilizações, ligadas aos ritos, aos sacramentos, às iniciações, nos tempos atuais as drogas tornaram-se uma generalidade, ato comum, banal, perdendo o sentido místico e mítico que invade o cotidiano da esperança. O uso tornou-se abusoabuso (de drogas, de álcool, de substâncias, de produtos químicos ou de substâncias psicoativas)Um grupo de termos muito utilizado embora com significados variáveis. Na 3a. edição revista do Manual Diagnóstico e Estatístico da Associação Psiquiátrica Norte-Americana (DSM-III-R), “abuso de substância psicoativa” é definido como “padrão desajustado de uso indicado pela continuação desse uso apesar do reconhecimento da existência de um problema social, ocupacional, psicológico ou físico, persistente ou recorrente, que é causado ou exacerbado pelo uso recorrente em situações nas quais ele é fisicamente arriscado”. Trata-se de uma categoria residual, ao qual é preferível o diagnóstico de dependência, quando for o caso. O termo “abuso” é algumas vezes utilizado de forma desaprovativa para designar qualquer tipo de uso, particularmente o de drogas ilícitas. Devido à sua ambigüidade, o termo não é usado na 10a. revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10) (exceto no caso de substâncias que não produzem dependência; veja mais adiante); uso nocivo e uso arriscado são os termos equivalentes na terminologia da OMS, embora eles geralmente digam respeito apenas aos efeitos físicos e não às conseqüências sociais. O emprego de “abuso” também é desestimulado pelo Escritório de Prevenção do Abuso de Substâncias dos EUA, embora expressões como “abuso de substâncias” sigam sendo amplamente utilizadas na América do Norte, para se referir, de modo geral, aos problemas do uso de substâncias psicoativas.Em outros contextos, o abuso já indicou padrões de uso não-médico ou não aprovado, independentemente das conseqüências. Assim, a definição publicada em l969 pela Comissão de Peritos da OMS em Dependência de Drogas foi “uso excessivo de droga, persistente ou esporádico, inconsistente ou sem relação com a prática médica aceitável” (veja uso indevido de álcool ou droga).. Foge da norma e do rito. Anárquico, esse comportamento desafia a própria organização da sociedade.
O que tem a droga de tão sedutora? Para os jovens, seus usuários mais freqüentes, provavelmente isso, ela "vende" a promessa mais imediata de felicidade. Mas, o que seria essa tal felicidade? Difícil resposta.
Mas, para um estudioso da Antropologia, o que seria interessante destacar é que, na perspectiva histórica, a felicidade sempre esteve relacionada e imaginada como algo coletivo, fruto de uma ampla mobilização social. Hoje, com a droga, ela pode ser obtida como a singular construção de uma individualidade. Eu posso ser feliz sozinho. Posso ser feliz isolado. Posso ser feliz alienado. Esse parece ser o grande "x" da questão da droga.
Nessa perspectiva, a droga passa a ser do extremamente caduco, ancestral e mesmo arquetipal, para algo de extremamente revolucionário.
De um lado ela romperia toda a perspectiva do que foi a construção histórica da humanidade: a necessidade do grupo, a necessidade do social, a absoluta necessidade de pensar no grupo, no social. Isso é rompido com a lógica da droga. "Eu me defino por mim mesmo, pelo meu mundo, que eu construo". Ao mesmo tempo em que ela é, digamos, pós-moderna, no sentido que ela desperta no ser humano a possibilidade de resgatar a sua autenticidade identificatória.
Nesse balanço se assentaria o grande desespero. Tendo tudo, ele não tem nada. Essa é uma experiência tão profundamente radical que a pessoa deixa de ser ela, para ser outra, que não é ninguém.
Ora, quando a sociedade só consegue pensar a droga em termos de negócio econômico, porque existiria evasão de divisas, porque tem gente que fica rica, ou porque a juventude nega-se a participar do modelo de sociedade que queremos para eles, obviamente, estamos apenas na inútil periferia da questão. Ou em palavras mais claras, apenas no superficial da coisa. A perspectiva é bem mais profunda. Ela coloca em evidência a grave pergunta do que é, afinal, a própria existência humana? Ao que ela se destina? Uma pertinente indagação que endereçamos aos filósofos.
Mas, uma dúvida continua martelando: posso ser feliz sozinho? Ora, numa sociedade cuja perspectiva é o consumo, o descartável, o pragmatismo, o hedonismo, uma negação constante do sofrimento como condição inerente ao ser humano, claro que a droga tem um grande espaço. Ela é fruto. Não seria esse o modo de viver e enfrentar mais coerente dessa civilização do aqui e agora?
Por isso, mais uma vez recorrendo a Olievenstein, lembro que ele sempre alertou para a idéia de que nada podemos compreender da droga se nos limitarmos ao produto. Devemos acrescentar a essa dimensão os aspectos psicodinâmicos, pessoal, fazendo apelo, dentre outros, à própria psicanálise, e ao contexto sócio-cultural.
Não dá para combater as drogas apenas colocando policiais à procura de usuários e traficantes. A sociedade como um todo deve questionar-se: que fenômeno é esse?
E, ainda mais questionador: o que é curar um toxicômano? Ou, mais grave ainda: curar para que?
Não tenho respostas e acho que estas dúvidas nos bastam.
Autor
Dr.Antonio Mourão Cavalcante - mourao@ufc.br
Professor Titular de PsiquiatriaPsiquiatria é uma especialidade da Medicina que lida com a prevenção, atendimento, diagnóstico, tratamento e reabilitação das doenças mentais em humanos, sejam elas de cunho orgânico ou funcional, tais como depressão, doença bipolar, esquizofrenia e transtornos de ansiedade.A meta principal é o alívio do sofrimento psíquico e o bem-estar psíquico. Para isso, é necessária uma avaliação completa do doente, com perspectivas biológica, psicológica, sociológica e outras áreas afins.Uma doença ou problema psíquico pode ser tratado através de medicamentos ou várias formas de psicoterapia.A avaliação psiquiátrica envolve o exame do estado mental e a história clínica. Testes psicológicos, neurológicos e exames de imagem podem ser utilizados na avaliação, assim como exames físicos. Os procedimentos diagnósticos variam mas os critérios oficiais estão descritos em manuais como a CID-10 da Organização Mundial de Saúde e o DSM-IV da American Psychiatric Association. da Faculdade de Medicina/UFCe Autor de - O Ciúme Patológico e Drogas, Esse Barato Sai Caro - Ed. Record Trabalho apresentado no II Colóquio Internacional Sobre a Idéia de Felicidade, em Fortaleza, 10,11/março/2003.
Bibliografia
BERGERET, J.. et alli - (1991) Toxicomanias: uma visão multidisciplinar, Porto
Alegre. Artes Médicas;
BUCHER, Richard (1992) - Drogas e drogadicção no Brasil, Porto Alegre, Artes
Médicas;
DERRIDA, Jacques - (1989) - Rhétorique de la drogue. Entrevista em L'ésprit
des drogues, No 106, Abril, 1989, pp. 197-214;
JACQUES, Jean-Pierre - (2001) Para acabar com as toxicomanias - Lisboa, Climepsi Editores;
OLIEVENSTEIN, Claude
(1977) - Il n'y a pas de drogués heureux, Paris, Laffont; (1990) - A clínicaClínica médica, no Brasil, também conhecida como Medicina Interna e Clínica geral, é a especialidade médica que trata de pacientes adultos, atuando principalmente em ambiente hospitalar. Inclui o estudo das doenças de adultos, não cirúrgicas, não obstétricas e não ginecológicas, sendo a especialidade médica a partir da qual se diferenciaram todas as outras como Cardiologia e Pneumologia.No Brasil, o especialista em Clínica médica deve cumprir, além do curso de Medicina, dois anos de Residência médica.Em Portugal, trata-se de um termo actualmente a cair em desuso. Em sua substituição, surgiu a Especialidade de Medicina Geral e Familiar, mais abrangente e de natureza diferente. do toxicômano, a falta da falta - Porto Alegre, Artes Médicas.
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Comentários
Sandra
Gostei, muito bom!
Gostei, muito bom!
OBRIGADO PPROR ACABAR CO MINHAS DROGAS MACHONHA E DROG\A
OBRIGADO
PARABÉNS PELA CLAREZA E
PARABÉNS PELA CLAREZA E OBJETIVIDADE DO SEU TEXTO!PRECISAMOS COM " URGENCIA E PACIÊNCIA" ENCONTRAR A SOLUÇÃO PARA ESTE PROBLEMA QUE AFLIGE A TODOS NÓS.
Matheus Ariel Freitag
Exelente texto! Parabéns pelo seu maravilhoso ponto crítico.
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