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Resumo: Este artigo trata do processo da reforma psiquiátrica brasileira, a partir dos anos 80, que levou ao surgimento de serviços alternativos em saúde mentalSaúde mental é um termo usado para descrever um nível de qualidade de vida cognição ou emoção ou a ausência de uma doença mental. Na perspectiva da psicologia positiva ou do holismo, a saúde mental pode incluir a capacidade de um indivíduo de apreciar a vida e procurar um equilíbrio entre as actividades e os esforços para atingir a resiliência psicológica. A Organização Mundial de Saúde afirma que não existe definição"oficial"de saúde mental. Diferenças culturais, julgamentos subjectivos, e teorias relacionadas concorrentes afectam o modo como a"saúde mental"é definida. http://www.who.int/whr/2001/chapter1/en/index.html, World Health Organization, 2001. Mais especificamente, aborda a criação e organização do Centro de Atenção Psicossocial Espaço Vivo, de Botucatu-SP, que ocorreu a partir das transformações no atendimento aos pacientes psicóticos do Hospital Professor Cantídio de Moura Campos. Faz reflexões sobre a importância do trabalho em equipe e do respeito à singularidade e subjetividade dos envolvidos nesse processo de mudança da forma de atendimento ao sofrimento mental.

Palavras-Chave: Centro de atenção psicossocial, saúde mental, serviços alternativos, equipe interdisciplinar, reforma psiquiátrica brasileira.

 

The creation of the psychosocial attention center "living space"

Abstract: This article deals with the process of the Brazilian psychiatric reform, since the 80's, that led to the implementation of the alternative services in mental health. It discusses more specifically the creation and organization of the Psychosocial Attention Center "Living Space" of Botucatu-SP, Brazil. This was possible due to the transformations in the care of psychotic patients of "Professor Cantídio de Moura Campos" Hospital. It considers the importance of team work and the respect to the singularity and subjectiveness of the ones involved in the process of changing the attendance of mental suffering.
Key Words: psychosocial attention center, mental health, alternative services, interdisciplinary team, Brazilian psychiatric reform.


Este artigo pretende relatar o processo de criação do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Espaço Vivo de Botucatu, cidade do interior paulista, de gestão pública estadual. Na primeira parte, será abordada a reforma psiquiátrica brasileira e as transformações ocorridas nasVeja teor alcoólico no sangue. políticas de saúde mental que acabaram por levar à criação de serviços de saúde mental substitutivos às internações psiquiátricas e que lhes serviram de inspiração. Depois, será narrado o processo de criação do CAPS Espaço Vivo, do qual o autor foi participante, e sua inserção nesse processo de mudança na atenção à saúde mental.

Abordaremos a reforma psiquiátrica brasileira, especialmente a partir das décadas de 70 e 80, quando houve alterações mais substanciais na atenção à doença/saúde mental. Para um entendimento mais aprofundado das mudanças pelas quais passou a PsiquiatriaPsiquiatria é uma especialidade da Medicina que lida com a prevenção, atendimento, diagnóstico, tratamento e reabilitação das doenças mentais em humanos, sejam elas de cunho orgânico ou funcional, tais como depressão, doença bipolar, esquizofrenia e transtornos de ansiedade.A meta principal é o alívio do sofrimento psíquico e o bem-estar psíquico. Para isso, é necessária uma avaliação completa do doente, com perspectivas biológica, psicológica, sociológica e outras áreas afins.Uma doença ou problema psíquico pode ser tratado através de medicamentos ou várias formas de psicoterapia.A avaliação psiquiátrica envolve o exame do estado mental e a história clínica. Testes psicológicos, neurológicos e exames de imagem podem ser utilizados na avaliação, assim como exames físicos. Os procedimentos diagnósticos variam mas os critérios oficiais estão descritos em manuais como a CID-10 da Organização Mundial de Saúde e o DSM-IV da American Psychiatric Association. desde seu início, seja no mundo seja no Brasil, sugerimos os trabalhos de Amarante (1998), Rezende (1987) e Tenório (2002).

Reforma psiquiátrica no Brasil

Podemos sintetizar que, no Brasil, a atenção aos transtornos mentais inicia-se com a criação do Hospício Pedro II, no Rio de Janeiro, em 1852, que, até o final da 2ª Guerra Mundial, teve uma trajetória higienista. Esta surgiu, segundo Machado et al. (1987), como um projeto de medicalização do social, no qual a Psiquiatria aparece como um instrumento tecnocientífico de poder, em uma Medicina que se autodenomina social. A prática dessa atenção constitui-se num auxiliar da organização social e das cidades que surgiam, de controle político e social, segundo Birman (1978), uma Psiquiatria da higiene moral.

A partir do final da 2ª Guerra, principalmente na Inglaterra, França e Estados Unidos, mas também em outras partes do mundo, inclusive em países não ligados diretamente à guerra, surgem experiências socioterápicas no tratamento de transtornos mentais. Os hospitais psiquiátricos da época não estavam conseguindo cumprir sua função de recuperaçãoA manutenção de qualquer forma de abstinência de álcool e/ou de drogas. O termo é particularmente associado com os grupos de ajuda mútua; entre os Alcóolicos Anônimos (AA) e outros grupos dos doze passos refere-se ao processo de atingir e manter a sobrie­dade. Posto que a recuperação é vista como um processo que dura toda a vida, um membro do AA é sempre visto internamente como um alcoólico “em recuperação”, embora o termo alcoólico “recuperado” possa ser usado fora do grupo. dos pacientes. As causas eram a superlotação, a pequena quantidade de funcionários, a falência das propostas de tratamento existentes ou a própria ausência de qualquer proposta terapêutica. Somavam-se a tais fatores a necessidade de se recuperar um grande número de homens jovens que tiveram danos psicológicos com a guerra e a falta de mão-de-obra para o trabalho. As experiências surgidas foram, principalmente, a comunidade terapêuticaUm ambiente estruturado no qual indivíduos com transtornos por uso de substância psicoativa residem para alcançar a reabi­litação. Tais comunidades são em geral especificamente destinadas a pessoas dependentes de drogas; elas operam sob normas estritas, são dirigidas principalmente por pessoas que se recuperaram de uma dependência, e são em geral isoladas geograficamente. As comuni­dades terapêuticas são caracterizadas por uma combinação de “teste de realidade” (através da confrontação do problema relacionado ao uso de droga do indivíduo) e de apoio dos funcionários e de co-residentes para a recuperação. Elas têm geralmente uma linha muito similar à dos grupos de ajuda mútua tais como Narcóticos Anônimos.Veja também:pensão protegida. inglesa, a Psiquiatria de setor francesa e a Psiquiatria preventiva comunitária norte-americana. Estas acabaram por levar a Psiquiatria à construção de um novo objeto - a saúde mental, e não mais a doença mental.

Os objetivos da comunidade terapêutica eram a transformação do ambiente e do tratamento dos hospitais psiquiátricos pela "terapêutica ativa" ou terapia ocupacional. Esta foi criada por Hermann Simon, na década de 20: "a necessidade de mão-de-obra para a construção de um hospital faz com que Simon lance mão de alguns pacientes considerados cronificados e observa efeitos benéficos em tal iniciativa" (Amarante, 1998, p. 28). Surge a crença e objetiva-se a reabilitaçãoNo campo relacionado ao uso de substâncias psicoativas, o processo através do qual um indivíduo com um transtorno por uso de uma dessas substâncias atinge seu máximo possível estado satisfa­tório de saúde, de funcionamento psicológico e bem-estar social [A Organização Mundial da Saúde define a reabilitação psicossocial como “um processo que facilita aos indivíduos deficientes, incapacitados ou inválidos a oportunidade de atingirem seu nível máximo de funcionamento independente em suas comunidades. Isso implica tanto a melhoria das capacidades individuais como a introdução de modificações ambientais a fim de proporcionar a melhor qualidade de vida possível aos indivíduo que tenham sofrido de uma doença mental, ou que tenham alguma deficiência de suas capacidades mentais que resulta em qualquer grau de incapacidade.” (WHO. Psychosocial rehabilitation: a consensus statement.Doc.: WHO/MNH/MND/96.2, Geneva, WHO, 1996)].A reabilitação segue uma fase inicial de tratamento (que pode implicar desintoxicação e tratamentos médicos e psiquiátricos). Compreende uma ampla variedade de abordagens, que incluem terapia de grupo, terapias comportamentais específicas para prevenir a recaída, partici­pação em grupos de ajuda mútua , residência em uma comunidade terapêutica ou em uma pensão protegida, treinamento vocacional e emprego protegido. A expectativa é a de uma reintegração social na comunidade em geral. dos doentes mentais através do trabalho e da socialização por intermédio de atividades grupais e de maior participação dos pacientes em seu tratamento. O mais importante adepto dessa terapêutica foi Maxwell Jones, na Inglaterra, a partir de 1959.

A Psiquiatria de setor iniciou-se, na França, a partir de 1945, através de vários psiquiatras progressistas, principalmente Lucien Bonnafé. Tinha como objetivo estruturar um serviço público de ajuda e tratamento por meio da criação de equipes de atendimento multiprofissionais (psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros) que se responsabilizariam por uma determinada área geográfica, com a proposta de realizarem prevenção e tratamento das doenças Doença (do latim dolentia, padecimento) é uma condição anormal de um organismo que interfere nas funções corporais e está associada a sintomas específicos. Pode ser causada por fatores externos, como outros organismos (infecção), ou por desfunções ou malfunções internas, como as doenças autoimunes. A patologia é a ciência que estuda as doenças e procura entendê-las.Resulta da consciência da perda da homeostasia de um organismo vivo, total ou parcial, estado este que pode cursar devido a infecção, inflamação, isquémias, modificações genéticas, sequelas de trauma, hemorragias, neoplasias ou disfunções orgânicas. Distingue-se da enfermidade, que é a alteração danosa do organismo.O dano patológico pode ser estrutural ou funcional. O médico faz a História clínica e examina o paciente a procura de sinal (médico) e sintomas que definem a síndrome da doença, solicita os exame complementar conforme suas hipótese diagnóstica, visando chegar a um diagnóstico.O passo seguinte é indicar um tratamento. mentais junto à comunidade, criando cuidados específicos segundo as demandas locais. Assim, a internação seria apenas uma etapa transitória no tratamento. A Psiquiatria de setor procurou romper com a estrutura alienante dos hospitais psiquiátricos, bem como evitar a segregação e o isolamento do doente. A partir de 1960, na França, foi incorporada como política oficial de saúde mental.

A Psiquiatria preventiva comunitária surge nos Estados Unidos, nos anos 70, originada do cruzamento da psiquiatria de setor e da comunidade terapêutica. Foi rapidamente adotada como política oficial de saúde mental naquele país e levou a um deslocamento da doença para a saúde mental no sentido de se combater tudo o que, na sociedade, pudesse interferir no bem-estar dos cidadãos. O preventivismo estava baseadoUm termo genérico usado para denotar os vários preparados da planta de maconha (cânhamo), Cannabis sativa. Isso inclui a folha de maconha ou diamba (com variada sinonímia de gíria), o cânhamo-da-índia ou haxixe (derivado da resina dos extremos floridos da planta) e o óleo de haxixe.Na Convenção Única de Narcóticos e Drogas de 1961, a maconha foi definida como “as extremidades floridas ou frutificadas da planta de cannabis (excluindo as sementes e as folhas sem aquelas extremidades) das quais a resina não foi extraída”, enquanto que a resina da cânabis é “a resina bruta ou purificada, extraída da planta da cannabis”. As definições são baseadas na terminologia tradicional indiana como ganja (= cânabis) e charas (= resina). Um terceiro termo indiano, o bhang se refere às folhas. O óleo de cânabis (óleo de haxixe, cânabis líquida ou haxixe líquido) é um concentrado de cânabis obtido pela extração geralmente através de um óleo vegetal.O termo marijuana é de origem mexicana. Originalmente um termo usado para o tabaco barato (ocasionalmente misturado com cânabis), tornou-se um termo genérico para as folhas de cânabis ou a cânabis em geral, em muitos países. O haxixe, inicialmente um termo utilizado para a cânabis nas áreas do Mediterrâneo oriental, é hoje utilizada para a resina da cânabis.A cânabis contém pelo menos 60 canabinóides, muitos dos quais biologicamente ativos. O componente mais ativo é o delta 9-tetrahidro­canabinol (THC), o qual pode ser detectado na urina várias semanas após seu uso (geralmente após ter sido fumado), bem como seus metabólitos.A intoxicação pela cânabis produz sensação de euforia, leveza dos membros e geralmente retração social. Prejudica a capacidade para dirigir veículos bem como para executar outras atividades complexas que requerem habilidade; prejudica a memória imediata, o nível de atenção, o tempo de reação, a capacidade de aprendizado, a coordenação motora, a percepção de profundidade, a visão peri­férica, a percepção do tempo (a pessoa geralmente tem a sensação de passagem mais lenta do tempo) e a detecção de sinais. Outros sinais de intoxicação podem incluir ansiedade excessiva, desconfiança ou idéias paranóides em alguns e euforia ou apatia em outros, juízo crítico prejudicado, irritação conjuntival, aumento de apetite, boca seca e taquicardia. A cânabis às vezes é consumida com álcool, o que aumenta os efeitos psicomotores.Há registros de que, em casos de esquizofrenia, o uso da cânabis pode precipitar recaídas. Estados de ansiedade e de pânico agudos, e estados delirantes foram também relatados na intoxicação por cânabis; estes geralmente regridem em alguns dias. Os canabinóides são às vezes usados terapeuticamente para glaucoma e para as náuseas em tratamentos quimioterápicos do câncer.Os transtornos por uso de canabinóides estão incluídos nos transtornos por uso de substância psicoativa na CID-10 (classifi­cados em F12)Sinonímia: ceruma; diamba; erva; fumo; liamba; maconha; suruma; marihuana; marijuana.Veja também:síndrome nolitiva. nos estudos de Gerald Caplan e seu livro Princípios de Psiquiatria Preventiva (editado no Brasil, em 1980), onde havia a idéia de que os problemas de saúde e os problemas sociais seriam diminuídos ou até mesmo superados por intermédio da participação, da auto-ajuda e de oportunidades sociais. Aquele autor defendia a crença de que as doenças mentais podem ser prevenidas, se detectadas precocemente, e ressaltava que, se estas significam desvio e marginalidade, poder-se-ia, assim, prevenir e erradicar os males da sociedade por essa prevenção. Passa-se, enquanto objetivo maior, à identificação de pessoas potencialmente doentes, indo às ruas, às casas, para identificar aqueles que, por seu estilo de vida e hábitos, pudessem ser "suspeitos" de desenvolver doença mental e devessem ser conduzidos ao tratamento especializado. Essa forma de atenção à saúde mental foi adotada não só nos Estados Unidos, mas tornou-se referência para a América Latina, através da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Organização Mundial de Saúde (OMS), nas décadas de 70 e 80.

AUTOR

Sérgio Luiz Ribeiro

Psicólogo pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Assis-SP.
Especialista em Psicologia ClínicaClínica médica, no Brasil, também conhecida como Medicina Interna e Clínica geral, é a especialidade médica que trata de pacientes adultos, atuando principalmente em ambiente hospitalar. Inclui o estudo das doenças de adultos, não cirúrgicas, não obstétricas e não ginecológicas, sendo a especialidade médica a partir da qual se diferenciaram todas as outras como Cardiologia e Pneumologia.No Brasil, o especialista em Clínica médica deve cumprir, além do curso de Medicina, dois anos de Residência médica.Em Portugal, trata-se de um termo actualmente a cair em desuso. Em sua substituição, surgiu a Especialidade de Medicina Geral e Familiar, mais abrangente e de natureza diferente.

  1. Clínica
  2. Angiologia
  3. Cardiologia
  4. Dermatologia
  5. Endocrinologia
  6. Gastroenterologia
  7. Geriatria
  8. Hematologia
  9. Infectologia
  10. Nefrologia
  11. Neurologia
  12. Pediatria
  13. Pneumologia
  14. Psiquiatria
  15. Reumatologia
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Psicólogo do CAPS Espaço Vivo de Botucatu-SP. (de 1999 até 2002).
Psicólogo do Ambulatório Regional de Saúde Mental de Bauru-SP.
Professor do Curso de Psicologia da Universidade Paulista - UNIP de Bauru-SP.
mestrando em Psicologia e Sociedade pela Unesp de Assis-SP.

Fonte : REVISTA PSICOLOGIA Ciência e Profissão - ANO 2004 VOLUME 24 NUMERO 3 - ISSN 1414-9893

http://scielo.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_serial&lng=pt&pid=1414-9893&nrm=is


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