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Início

Entre as idades de 28 e 39, por onze anos, Sigmund Freud utilizou regularmente a cocaínaUm alcalóide obtido das folhas de coca (Erythroxylon coca) ou sintetizado a partir da ecgonina ou de seus derivados. O hidrocloreto de cocaína era comumente usado como anestésico local em odonto­logia, oftalmologia e cirurgias de ouvido, nariz e garganta, dada a sua forte ação vasoconstritora que ajuda a reduzir as hemorragias locais.A cocaína é um poderoso estimulante do sistema nervoso central, usado sem indicação terapêutica para produzir euforia ou “ligação”; o uso repetido produz dependência. A cocaína ou “coca” é geralmente vendida como cristais brancos e translúcidos, ou em pó (“farinha” ou “pó”), freqüentemente adulterada com açúcares ou anestésicos locais. O pó é aspirado (“cheirado” ou “cafungado”) e produz efeitos imediatos (entre 1 a 3 minutos de latência) que duram em torno de 30 minutos.A cocaína pode ser ingerida oralmente, geralmente com álcool; os usuários de opióides e cocaína combinados geralmente os injetam por via intravenosa. Alguns elementos alcalinos (freebase) são utilizados para aumentar a potência da cocaína pela extração do alcalóide puro através da inalação dos vapores em cigarros ou narguilé (cachimbo de água). Uma solução aquosa de sal de cocaína é misturada com um álcali (como bicarbonato de sódio) e o extrato é obtido através de um solvente orgânico como o éter ou o hexano. O procedimento é peri­goso uma vez que a mistura é explosiva e altamente inflamável. Um procedimento mais simplificado que evita o uso de solventes orgânicos consiste em aquecer o sal de cocaína com bicarbonato de sódio; isto produz o crack.O crack ou “pedra” é uma cocaína alcaloidal (básica), um composto amorfo que pode conter cristais de cloreto de sódio. É um composto de coloração bege. Crack refere-se ao som de estalido provo­cado quando o composto é aquecido. Um efeito intenso ocorre de 4 a 6 segundos após a inalação do crack. Um sentimento de exaltação e de desaparecimento de ansiedade é vivenciado, junto com um exagerado sentimento de confiança e auto-estima. Há também uma perturbação do juízo crítico e o usuário tende a cometer atos irresponsáveis, ilegais ou perigosos, sem se preocupar com as conseqüências.A fala fica acelerada e pode se tornar desconexa e incoerente. Os efeitos agradáveis terminam em torno de 5 a 7 minutos, depois do que o humor rapidamente muda para depressão e o consumidor é compelido a repetir o processo de forma a recuperar a euforia do ápice. A superdose parece ser mais freqüente com o crack que com outras formas de cocaína.A interrupção do uso contínuo de cocaína é geralmente seguida por uma crise que pode ser vista como uma síndrome de abstinência, na qual a exaltação dá lugar à apreensão, depressão profunda, sono­lência e inércia.Podem ocorrer reações tóxicas agudas tanto no consumidor de cocaína principiante quanto no inveterado. Essas reações incluem delirium semelhante ao pânico, hiperpirexia, hipertensão (algumas vezes com hemorragia subdural ou subaracnóide), arritmias cardí­acas, infarto do miocárdio, colapso cardiovascular, convulsões, estado de mal epiléptico e morte. Outras seqüelas neuropsiquiátricas incluem uma síndrome psicótica com delírios paranóides, alucinações visuais e auditivas e idéias de auto-referência. “Luzes na neve” (snow lights) é o termo usado para descrever alucinações ou ilusões que lembram o brilho do sol nos cristais de neve. Foram descritos efeitos terato­gênicos, incluindo anormalidades do trato urinário e deformidade dos membros. Os transtornos por uso de cocaína estão entre os trans­tornos por uso de substâncias psicoativas incluídas na CID-10 (classificadas em F14). em sua forma de alcalóide, em pó. Como jovem neurologista, essa foi sua primeira tentativa experimental fora da prática médica tradicional. Ele estava buscando o reconhecimento público capaz de gerar a clientela que lhe traria fama e recursos financeiros permitindo, assim, que se casasse com sua noiva, de quem estava separado havia dois anos. Durante esse período, Freud publicou três artigos importantes e fez uma apresentação para a Sociedade Psiquiátrica de Viena sobre os usos terapêuticos da cocaína. Embora esse experimento não tenha atingido suas expectativas, e seus artigos sobre a cocaína nunca tivessem aparecido em seus escritos publicados, esses estudos fizeram de Freud, na verdade, um fundador da psicofarmacologia e, provavelmente, influenciaram seu trabalho com os sonhos e o inconsciente.

Introdução

No início de sua carreira, Freud escreveu três artigos científicos sobre a cocaína. Quando eles foram "descobertos" e tornados públicos, em 1963 e, novamente, em 1974, ampliaram a compreensão do relacionamento de Freud com a drogaUm termo de uso variado. Em medicina, refere-se a qualquer substância com o potencial de prevenir ou curar doenças ou aumentar o bem estar físico ou mental; em farmacologia, refere-se a qualquer agente químico que altera os processos bioquímicos e fisiológicos de tecidos ou organismos. Portanto, droga é uma substância que é, ou pode ser, incluída numa farmacopéia. Na linguagem comum, o termo se refere especificamente a drogas psicoativas e em geral ainda mais especificamente às drogas ilícitas, as quais têm um uso não médico além de qualquer uso médico. As classificações profissionais (por exemplo: “álcool e outras drogas”) normalmente procuram indicar que a cafeína, o tabaco, o álcool e outras substâncias de uso habi­tual não médico sejam também enquadradas como drogas, na medida em que elas são consumidas, pelo menos em parte, por seus efeitos psicoativos. que, até aquele momento "focalizava dois aspectos do envolvimento de Freud com a cocaína: primeiro, a questão da prioridade na descoberta da anestesia local e, segundo, a defesa ‘equivocada’ que Freud fez da droga como uma ... panacéia ..."

Entretanto, a importância de Freud na história da psicofarmacologia não está somente na sua elegante revisão da literatura existente e nasVeja teor alcoólico no sangue. suas sugestões para terapia, como apresenta em seu artigo "Sobre a coca". O mais significativo de todos é o seu breve artigo, publicado em janeiro de 1885, "Uma contribuição para o conhecimento do efeito da cocaína", um estudo que confirma o papel de Freud como um dos fundadores da psicofarmacologia moderna.

O primeiro ponto de importância é que Freud, depois de defrontar-se com uma droga com propriedades psicofarmacológicas singulares, não se satisfez com a mera revisão da experimentação humana e animal que havia sido feita até aquele momento. Ao invés disso, ele imediatamente partiu para a demonstração das propriedades psicofarmacológicas da substânciaVeja droga psicoativa.. De fato, alguns anos antes, a droga havia sido estudada. Em 1880, von Anrep havia pesquisado a farmacologia da cocaína em experiências com animais. Freud, porém, trabalhou com uma substância purificada e fez registros cuidadosos de suas experiências - em si próprio. Ele utilizou os instrumentos de avaliação mais sofisticados disponíveis na época para poder obter os registros psicofisiológicos mais precisos possíveis e, então, correlacionou esses resultados, simultaneamente, com mudanças de humor e percepção, cuidadosamente descritas durante o período de ação da droga. Essas experiências estabeleceram a dosagem apropriada e o tempo de ação da substância - um relacionamento crucial na experimentação humana.

Uma comparação com relatórios de qualquer das experiências modernas com drogasUm termo de uso variado. Em medicina, refere-se a qualquer substância com o potencial de prevenir ou curar doenças ou aumentar o bem estar físico ou mental; em farmacologia, refere-se a qualquer agente químico que altera os processos bioquímicos e fisiológicos de tecidos ou organismos. Portanto, droga é uma substância que é, ou pode ser, incluída numa farmacopéia. Na linguagem comum, o termo se refere especificamente a drogas psicoativas e em geral ainda mais especificamente às drogas ilícitas, as quais têm um uso não médico além de qualquer uso médico. As classificações profissionais (por exemplo: “álcool e outras drogas”) normalmente procuram indicar que a cafeína, o tabaco, o álcool e outras substâncias de uso habi­tual não médico sejam também enquadradas como drogas, na medida em que elas são consumidas, pelo menos em parte, por seus efeitos psicoativos. psicoativas, incluindo aquelas realizadas com LSDVeja alucinógeno., mescalinaUma substância alucinogênica que se encontra no cacto peyote, no sudoeste dos Estados Unidos da América e no norte do México.Veja também:alucinógeno; planta alucinógena. e outros compostos psicodélicos, mostra que o artigo de Freud estabeleceu uma tradição no estudo de substâncias com propriedades psicoativas.

A noiva de Freud.

Freud vinha de uma família de recursos modestos. Ele terminou seu curso de Medicina em 1881 e, no ano seguinte, assumiu um cargo no Hospital Geral de Viena e tornou-se noivo de sua futura esposa, Martha Bernays.

Durante [esses] anos de hospital, Freud estava totalmente envolvido no esforço de fazer seu nome, descobrindo algo importante na medicina clínicaClínica médica, no Brasil, também conhecida como Medicina Interna e Clínica geral, é a especialidade médica que trata de pacientes adultos, atuando principalmente em ambiente hospitalar. Inclui o estudo das doenças de adultos, não cirúrgicas, não obstétricas e não ginecológicas, sendo a especialidade médica a partir da qual se diferenciaram todas as outras como Cardiologia e Pneumologia.No Brasil, o especialista em Clínica médica deve cumprir, além do curso de Medicina, dois anos de Residência médica.Em Portugal, trata-se de um termo actualmente a cair em desuso. Em sua substituição, surgiu a Especialidade de Medicina Geral e Familiar, mais abrangente e de natureza diferente.

  1. Clínica
  2. Angiologia
  3. Cardiologia
  4. Dermatologia
  5. Endocrinologia
  6. Gastroenterologia
  7. Geriatria
  8. Hematologia
  9. Infectologia
  10. Nefrologia
  11. Neurologia
  12. Pediatria
  13. Pneumologia
  14. Psiquiatria
  15. Reumatologia
ou na patologia. Sua motivação não era, como poderia supor-se, pura ambição profissional mas, sim, muito mais, a esperança de um sucesso que lhe rendesse uma boa clientela particular para justificar seu casamento um ou, possivelmente, dois anos mais cedo do que ele ousaria esperar caso o curso dos acontecimentos fosse normal.

Freud estava intensamente apaixonado, como se percebe pelos seguintes trechos de cartas à sua noiva:

"... ter você completamente é a única exigência que eu faço para a vida..."

"... a busca de dinheiro, posição e reputação, isso tudo quase não permite que eu lhe dedique uma ou duas linhas apaixonadas..."

"Eu gostaria de ter conseguido algo realmente bom antes de nos encontrarmos novamente."

"Minha querida namorada, você está mesmo certa. De agora em diante, eu também vou escrever somente sobre a viagem [para encontrá-la] ... Eu devo estar viajando sob efeito de coca a fim de controlar a minha terrível impaciência."

"Eu também te amo, mais ainda do que durante os nossos melhores dias aqui..."

A cocaína no século 19.

Foi somente em 1860 que Albert Nieman, um estudante de graduação em farmacologia em Gottingen, isolou a base alcalóide que viria a ser conhecida como cocaína. Seu uso foi imediatamente controlado na Europa mas não nos Estados Unidos, onde cresceu a proporções epidêmicas no final do século 19.

Em 1884, a companhia farmacêutica Merck produziu 3.179 libras de cocaína (aproximadamente 1.442 kg). Em 1886, a Merck produziu 158.352 libras de cocaína (aproximadamente 71.733 kg).

Arthur K. Donoghue cita três razões pelas quais a cocaína era interessante para a profissão médica naquele tempo:

1) Albert Nieman isolou o alcalóide concentrado de cocaína em 1860;
2) A agulha hipodérmica foi inventada em 1853; e
3) Médicos buscavam desesperadamente soluções para problemas clínicos já que eles não podiam fazer muito além de aliviar a dor com morfinaVeja opióide. e isto estava sendo reconhecido como causa de severas conseqüências.

Freud pode ter estado sozinho na Europa ao defender as virtudes da cocaína, mas ele tinha muitos colegas com a mesma convicção nos Estados Unidos.

Influência das experiências norte-americanas.

Freud citou freqüentemente fontes norte-americanas, como em seu artigo "Contribuições ao conhecimento e o efeito da cocaína": "A Detroit Therapeutic Gazette publicou, em anos recentes, uma série completa de reportagens sobre abstinênciaA abstenção do uso de droga ou (particularmente) de bebidas alcoólicas, por questão de princípio ou por outras razões.Quem pratica a abstinência de álcool é chamado de “abstêmio” ou “abstêmio total”. A expressão “atualmente abstinente”, freqüentementeempregada em inquéritos populacionais, geralmente define uma pessoa que não ingeriu bebidas alcoólicas nos últimos 12 meses; esta definição não coincide necessariamente com a descrição que o próprio indivíduo faz de si como um abstêmio.O termo “abstinência” não deve ser confundido com “síndrome de abstinência” ( Deve-se, no entanto, diferenciar “abstêmio” (pessoa que não bebe ou não usa drogas) de “abstinente” (pessoa que presentemente não está bebendo, que não está usando drogas).Veja também: sobriedade; temperança. de morfina e ópio que foram superadas com a ajuda da cocaína..." Havia mais de dezesseis artigos relacionados ao tema.

Um efeito colateral do episódio da cocaína na vida de Freud talvez tenha sido a sua subseqüente amargura com a América do Norte. Ele confiava bastante no apoio das autoridades norte-americanas quanto à sua afirmação de que a droga era inofensiva. A experiência e o tempo mostraram-lhe seu equívoco. O seu primeiro encontro com a América do Norte havia sido uma decepção. Embora os EUA tenham sido o país mais receptivo à psicanálise a partir das palestras de Jung e Freud na Clark University este, mesmo no fim de sua vida, poucas vezes deixou de encontrar falhas e emitir julgamentos, argumentando a favor de posicionar a análise contra a psiquiatriaPsiquiatria é uma especialidade da Medicina que lida com a prevenção, atendimento, diagnóstico, tratamento e reabilitação das doenças mentais em humanos, sejam elas de cunho orgânico ou funcional, tais como depressão, doença bipolar, esquizofrenia e transtornos de ansiedade.A meta principal é o alívio do sofrimento psíquico e o bem-estar psíquico. Para isso, é necessária uma avaliação completa do doente, com perspectivas biológica, psicológica, sociológica e outras áreas afins.Uma doença ou problema psíquico pode ser tratado através de medicamentos ou várias formas de psicoterapia.A avaliação psiquiátrica envolve o exame do estado mental e a história clínica. Testes psicológicos, neurológicos e exames de imagem podem ser utilizados na avaliação, assim como exames físicos. Os procedimentos diagnósticos variam mas os critérios oficiais estão descritos em manuais como a CID-10 da Organização Mundial de Saúde e o DSM-IV da American Psychiatric Association. americana e a medicina.

Uso pessoal.

Por muitos anos, Freud sofreu de depressões periódicas e de fadigaA palavra fadiga é usada cotidianamente para descrever uma série de males, que vão desde um estado genérico de letargia até uma sensação específica de calor nos músculos provocada pelo trabalho intenso.Fisiologicamente,"fadiga"descreve a incapacidade de continuar funcionando ao nível normal da capacidade pessoal devido a uma percepção ampliada do esforço.Fadiga é onipresente na vida cotidiana, mas geralmente torna-se particularmente perceptível durante exercícios pesados.A fadiga possui duas formas; uma se manifesta como uma incapacidade muscular local para desenvolver um trabalho e a outra se manifesta como uma sensação abrangente de falta de energia, corporal ou sistêmica.Devido a estas duas facetas divergentes de sintomas de fadiga, tem sido proposto que as causas da fadiga sejam encaradas sob perspectivas"central"e"periférica". ou apatia, sintomas

neuróticos que, mais tarde, tomaram a forma de ataques de ansiedadeAnsiedade, ânsia ou nervosismo é uma característica biológica do ser humano, que antecede momentos de perigo real ou imaginário, marcada por sensações corporais desagradáveis, tais como uma sensação de vazio no estômago, coração batendo rápido, medo intenso, aperto no tórax, transpiração etc. antes que fossem dissipados por sua própria análise.

Em minha última depressão severa, eu usei coca novamente e uma pequena dose elevou-me às alturas de uma forma maravilhosa. Agora mesmo, estou envolvido em pesquisar a literatura para uma canção de louvor a esta substância mágica.

Um pouco de cocaína, para soltar a minha língua [para visitar Charcot]. Fomos para lá numa carruagem... R. estava terrivelmente nervoso, eu estava bem calmo com a ajuda de uma pequena dose de cocaína... Essas foram as minhas conquistas (ou melhor, as conquistas da cocaína), que me deixaram muito satisfeito.

Os primeiros anos de Freud como jovem médico no Hospital Geral de Viena foram tempos muito difíceis para ele. Ele buscava reconhecimento, não tinha dinheiro e estava separado de sua noiva:

Nessa situação, cansaço, humor deprimido, ansiedade, preocupações e indigestão repetiam-se, diminuindo sua felicidade e sua eficiência no trabalho. Alguns desses estados podem ter-lhe parecido, de alguma forma, conectados à sua situação frustrante e inquietante... mas todos eles enfraqueceram seu poder de concentração e auto-controle... A cocaína, para ele, era um remédio quase perfeito contra seus acessos neurastênicos.

Naquela época, eu estava fazendo uso freqüente da cocaína, para reduzir desagradável congestão nasal e eu havia ouvido, alguns dias antes, que uma de minhas pacientes, que tinha seguido meu exemplo, desenvolveu uma extensa necrose da mucosa nasal. Eu fui o primeiro a recomendar o uso da cocaína, [entretanto] essa orientação fez com que eu me censurasse severamente. O mal uso dessa droga apressou a morte de um caro amigo meu.

Sabemos, através da "Interpretação dos sonhos", que Freud ainda estava usando a droga em 1895 , um uso de onze anos entre as idades de 28 e 39 anos, entretanto não há nenhuma indicação de que ele era dependente ou que a usava compulsivamente. Como faz notar um autor:

O desejo de erguer-se acima e além foi canalizado, por Freud, para a ciência. Reconhecimento profissional imediato era o tipo de libertação que ele buscava. Ele não esperava o Nirvana diretamente através do seu próprio uso de cocaína e é por isso que ele não corria o risco da dependência(F1x.2)Em termos gerais, o estado de necessidade ou dependência de alguma coisa ou alguém para apoio, funcionamento ou sobrevivência. Quando aplicado ao álcool e outras drogas, o termo implica a neces­sidade de repetidas doses da droga para sentir-se bem ou para evitar sensações ruins. No DSM-IIIR, a dependência é definida como “um conjunto de sintomas cognitivos, comportamentais e psicológicos que indicam que uma pessoa tem o controle do uso da substância psico­ativa prejudicado e persiste nesse uso a despeito de conseqüências adversas”. Equivale aproximadamente à síndrome de dependência da CID-10. No contexto da CID-10, o termo dependência refere-se de maneira geral a qualquer dos elementos da síndrome. O termo é freqüentemente usado como equivalente de adicção e de alcoo­lismo.Em 1964 uma Comissão de Peritos da OMS introduziu “depen­dência” em substituição a adicção e hábito10. O termo pode ser usado de maneira genérica em relação a todas as drogas psicoativas (depen­dência de drogas, dependência química, dependência do uso de subs­tância), ou referir-se especificamente a uma droga em particular ou a uma classe de drogas (p.ex., dependência de álcool, dependência de opióide). Embora a CID-10 descreva dependência em termos aplicá­veis a todas as classes de drogas, há diferenças entre os sintomas de dependência característicos das diferentes drogas.De forma não qualificada, dependência refere-se a ambos os elementos físicos e psicológicos. A dependência psicológica ou psíquica refere-se à vivência de controle prejudicado sobre o beber ou o uso da droga (veja craving, compulsão), ao passo que a depen­dência fisiológica ou física refere-se à tolerância e aos sintomas de abstinência (veja também neuro-adaptação). Em discussões de orien­tação biológica, dependência é freqüentemente usada com referência à dependência física apenas.Ainda no contexto psicofarmacológico, emprega-se também dependência ou dependência física num sentido mais limitado para referir-se exclusivamente ao desenvolvimento de sintomas de absti­nência que seguem uma interrupção do uso de droga. Neste sentido restrito, a dependência cruzada é vista como complementar a tole­rância cruzada, e ambas definições referem-se somente à sintomato­logia física (neuroadaptação)..

E novamente:

O fator arquetípico que influencia a compulsãoQuando aplicado ao uso de substâncias psicoativas, o termo se refere a uma necessidade poderosa de consumir a substância (ou substâncias) em questão, necessidade esta atribuída mais a senti­mentos internos do que a influências externas. O usuário da substância pode identificar a necessidade como prejudicial ao seu bem-estar e pode ter uma intenção consciente de se refrear. Esses sentimentos são menos característicos da dependência do álcool e de drogas do que do transtorno obsessivo-compulsivo.Veja também:controle prejudicado; craving; necessidade impe­riosa. pela droga ("cravingNecessidade imperiosa de uma substância psicoativa ou de seus efeitos intoxicantes. Craving é um termo popular usado para o mecanismo que se supõe estar na base do controle prejudicado: alguns acreditam que esse desejo aumente, pelo menos parcialmente, como resultado de associações condicionadas que evocam respostas de abstinência condicionada. O craving pode também ser induzida pela evocação de algum estado psicológico semelhante à síndrome de abstinência do álcool ou drogas.9Veja também:abstinência condicionada, compulsão; controle prejudicado; síndrome de dependência.[No Brasil, mais recentemente, em certos círculos acadêmicos, passou-se a usar “fissura”, gíria bastante comum entre usuários de drogas, para designar o craving.]"), que concede tamanha intensidade ao desejo e convicção à crença, nunca venceu Freud completamente. A ciência significava muito mais para ele. A razão e um respeito pelos fatos faziam-no ficar sóbrio.

Aplicações terapêuticas

"Freud ainda considerava o campo da cocaína, por assim dizer, sua propriedade particular" e estava fazendo experiências com ela em diversas aplicações terapêuticas:

Eu, agora, encomendei um bocado dela e, por razões óbvias, vou experimentá-la em casos de doenças Doença (do latim dolentia, padecimento) é uma condição anormal de um organismo que interfere nas funções corporais e está associada a sintomas específicos. Pode ser causada por fatores externos, como outros organismos (infecção), ou por desfunções ou malfunções internas, como as doenças autoimunes. A patologia é a ciência que estuda as doenças e procura entendê-las.Resulta da consciência da perda da homeostasia de um organismo vivo, total ou parcial, estado este que pode cursar devido a infecção, inflamação, isquémias, modificações genéticas, sequelas de trauma, hemorragias, neoplasias ou disfunções orgânicas. Distingue-se da enfermidade, que é a alteração danosa do organismo.O dano patológico pode ser estrutural ou funcional. O médico faz a História clínica e examina o paciente a procura de sinal (médico) e sintomas que definem a síndrome da doença, solicita os exame complementar conforme suas hipótese diagnóstica, visando chegar a um diagnóstico.O passo seguinte é indicar um tratamento. do coração e, depois, em exaustão nervosa, particularmente na condição horrível que se segue à abstinência de morfina...

Ele esperava curar diabetesDiabetes mellitus é uma doença metabólica caracterizada por um aumento anormal da glicose ou açúcar no sangue. A glicose é a principal fonte de energia do organismo, mas quando em excesso, pode trazer várias complicações à saúde.Quando não tratada adequadamente, causa doenças tais como infarto do coração, derrame cerebral, insuficiência renal, problemas visuais e lesões de difícil cicatrização, dentre outras complicações.Embora ainda não haja uma cura definitiva para o Diabetes, há vários tratamentos disponíveis que, quando seguidos de forma regular, proporcionam saúde e qualidade de vida para o paciente portador.Atualmente, a Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 240 milhões de pessoas sejam diabéticas em todo o mundo, o que significa que 6% da população tem diabetes.Segundo uma projeção internacional, a população de doentes diabéticos a nível mundial vai aumentar até 2025 em mais de 50%, para 380 milhões de pessoas a sofrerem desta doença crônica. com cocaína e experimentou cocaína em muitos amigos, colegas e pacientes.

Freud insistia que a dependência ou o abusoabuso (de drogas, de álcool, de substâncias, de produtos químicos ou de substâncias psicoativas)Um grupo de termos muito utilizado embora com significados variáveis. Na 3a. edição revista do Manual Diagnóstico e Estatístico da Associação Psiquiátrica Norte-Americana (DSM-III-R), “abuso de subs­tância psicoativa” é definido como “padrão desajustado de uso indicado pela continuação desse uso apesar do reconhecimento da existência de um problema social, ocupacional, psicológico ou físico, persistente ou recorrente, que é causado ou exacerbado pelo uso recorrente em situações nas quais ele é fisicamente arriscado”. Trata-se de uma categoria residual, ao qual é preferível o diagnóstico de dependência, quando for o caso. O termo “abuso” é algumas vezes utilizado de forma desaprovativa para designar qualquer tipo de uso, particularmente o de drogas ilícitas. Devido à sua ambigüidade, o termo não é usado na 10a. revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10) (exceto no caso de substâncias que não produzem dependência; veja mais adiante); uso nocivo e uso arriscado são os termos equivalentes na terminologia da OMS, embora eles geralmente digam respeito apenas aos efeitos físicos e não às conseqüências sociais. O emprego de “abuso” também é desestimulado pelo Escritório de Prevenção do Abuso de Substâncias dos EUA, embora expressões como “abuso de substâncias” sigam sendo amplamente utilizadas na América do Norte, para se referir, de modo geral, aos problemas do uso de substâncias psicoativas.Em outros contextos, o abuso já indicou padrões de uso não-médico ou não aprovado, independentemente das conseqüências. Assim, a definição publicada em l969 pela Comissão de Peritos da OMS em Dependência de Drogas foi “uso excessivo de droga, persis­tente ou esporádico, inconsistente ou sem relação com a prática médica aceitável” (veja uso indevido de álcool ou droga). da cocaína nunca fora reconhecido como um fenômeno em si, mas, em vez disso, que ocorria entre pessoas que haviam sido, anteriormente, dependentes da morfina e que se fosse usada por um longo período, mas moderadamente, não seria prejudicial ao corpo. Freud concluiu que a cocaína não tinha ação direta no sistema neuromuscular, podendo, porém, atuar sobre ele, em certas circunstâncias, quando melhorava o bem-estar geral.

Os artigos sobre a cocaína.

Freud escreveu três artigos básicos sobre a cocaína e fez uma conferência para a Sociedade Psiquiátrica de Viena. Ele também mencionou o seu uso e sua experimentação com a cocaína em análises posteriores de sonhos, como no "Sonho da Injeção de Irma" (1895) e o "Sonho da Monografia de Botânica" (1898), ambos mencionados em seu volume maior, "A Interpretação dos Sonhos" (1900).

O primeiro artigo de Freud, "Sobre a coca" , publicado em 1884, era uma exposição longa da planta coca, sua história e seus usos, migração para a Europa, efeito em animais, efeito no corpo humano e, finalmente, os usos terapêuticos da cocaína, com capítulos sobre:

1. Coca como estimulanteCom referência ao sistema nervoso central, qualquer agente que ative, acentue ou aumente a atividade neural; também chamado de psicoestimulante. Compreende as anfetaminas, a cocaína, a cafeína e outras xantinas, a nicotina, e os supressores do apetite sintéticos tais como a fenmetrazina e o metilfenidato. Outras drogas têm ações estimulantes, que, entretanto, não são seus efeitos primários mas que podem se manifestar em altas doses ou após o uso crônico; estas incluem os antidepressivos, os anticolinérgicos, e certos opióides.Os estimulantes podem dar origem a sintomas sugestivos de into­xicação, incluindo taquicardia, dilatação pupilar, aumento da pressão sanguínea, hiperreflexia, sudorese, calafrios, náusea e vômitos, e um comportamento anormal como beligerância, grandiosidade, hipervi­gilância, agitação e perturbação do juízo crítico. O uso crônico em geral leva a alterações de personalidade e do comportamento tais como impulsividade, agressividade, irritabilidade e desconfiança. Pode ocorrer uma psicose delirante plena. A interrupção da ingestão após períodos de consumo prolongado ou elevado pode produzir uma síndrome de abstinência, com humor deprimido, fadiga, alterações do sono e aumento de sonhos.Na CID-10, os transtornos mentais e comportamentais decor­rentes do uso de estimulantes são subdivididos em: devidos ao uso de cocaína (F14) e devidos ao uso de outros estimulantes, inclusive a cafeína (F15), entre os quais destacam-se a psicose anfetamínica e a psicose devida à cocaína.Veja também:transtorno psicótico induzido por álcool ou droga..

2. O uso da coca para doenças digestivas do estômago.

3. Coca na caquexiaCaquexia é a perda de peso, atrofia muscular, fadiga, fraqueza e perda de apetite por alguém que não está tentando perder peso, ou seja, uma desnutrição aguda.Pode ser um sinal médico de diversos distúrbios; quando um paciente apresenta caquexia, o médico geralmente considera a possibilidade de câncer, e algumas doenças infecciosas (como tuberculose, AIDS-SIDA, Leishmaniose Visceral e alguns distúrbios autoimunes)..

4. Coca no tratamento da dependência de morfina e de álcoolNa terminologia química, os álcoois constituem um nume­roso grupo de compostos orgânicos derivados de hidrocarbonetos que contém um ou mais grupos hidroxila (-OH). O etanol (ou álcool etílico, C2H5OH) é um dos membros dessa classe de compostos, e é o principal ingrediente psicoativo das bebidas alcoólicas. Por extensão, o termo “álcool” também é usado para referir-se a bebidas alcoólicas.O etanol resulta da fermentação de açúcar produzida por lêvedos. Em condições normais, as bebidas produzidas por fermentação têm uma concentração de álcool que não ultrapassa 14%. Na produção de álcoois por destilação, ferve-se uma mistura fermentada e o etanol que se evapora é recolhido como um condensado quase puro. Além do seu uso para consumo humano, o etanol é também usado como combustível, como solvente e na manufatura química (veja álcool impróprio para o consumo humano).O álcool absoluto (etanol anidro) é o etanol contendo não mais do que 1% de água por massa. Nas estatísticas sobre produção ou consumo de álcool, o álcool absoluto refere-se ao conteúdo de álcool (como 100% de etanol) das bebidas alcoólicas.Do ponto de vista químico, o metanol (CH3OH), também conhecido como álcool metílico e álcool de madeira (ou de amido), é o mais simples dos álcoois. É usado como um solvente industrial e também como um adulterador para desnaturar o etanol e torná-lo impróprio para o consumo (bebidas metiladas). O metanol é altamente tóxico; dependendo da quantidade consu­mida, pode produzir turvação da visão, cegueira, coma e morte.Outros álcoois impróprios para o consumo, com efeitos poten­cialmente nocivos, são consumidos ocasionalmente, como, p.ex., o isopropanol (álcool isopropílico, freqüente em desinfetantes) e etilenoglicol (usado como anticongelante em automóveis).O álcool é um sedativo/hipnótico com efeitos semelhantes aos dos barbitúricos. Além dos efeitos sociais do uso, a intoxi­cação pelo álcool pode resultar em envenenamento e até morte; o uso excessivo e prolongado pode resultar em dependência ou numa ampla variedade de transtornos mentais orgânicos e físicos.Os transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de álcool (F10) são classificados como transtornos decor­rentes do uso de substância psicoativa na CID-10 (F10-F19).Veja também:cardiopatia alcoólica; cirrose alcoólica; dano cerebral associado ao álcool; delirium; encefalopatia de Wernicke; escorbuto; fígado gorduroso alcólico; gastrite alcoólica; hepatite alcoólica; miopatia relacionada com álcool ou drogas; neuro­patia periférica; pancreatite alcoólica; pelagra; pseudo-síndrome de Cushing; síndrome amnésica induzida por álcool ou droga; síndrome de deficiência de tiamina; síndrome fetal alcoólica..

5. Coca e asmaA asma é uma doença inflamatória crônica das vias áreas, que resulta na redução ou até mesmo obstrução no fluxo de ar. Sua fisiopatologia está relacionada a interação entre fatores genéticos e ambientais que se manifestam como crises de falta de ar devido ao edema da mucosa brônquica, a hiperprodução de muco nas vias aéreas e a contração da musculatura lisa das vias aéreas, com conseqüente diminuição de seu diâmetro (broncoespasmo).As crises são caracterizadas por vários sintomas como: dispnéia, tosse e sibilos, principalmente à noite. O estreitamento das vias aéreas é geralmente reversível porém, em pacientes com asma crônica, a inflamação pode determinar obstrução irreversível ao fluxo aéreo. As características patológicas incluem a presença de células inflamatórias nas vias aéreas, exsudação de plasma, edema, hipertrofia muscular, rolhas de muco e descamação do epitélio. O diagnóstico é principalmente clínico e o tratamento consta de medidas educativas, drogas que melhorem o fluxo aéreo na crise asmática e antiinflamatórios, principalmente a base de corticóides..

6. Coca como afrodisíaco.

7. Aplicação local da coca.

Esse artigo foi amplamente aceito de modo que Freud reimprimiu 500 cópias em fevereiro do ano seguinte, com um adendo, que dizia: "Eu preciso reiterar, de modo ainda mais enfático que antes, a diversidade das reações individuais à cocaína."

Seu segundo artigo, "Uma contribuição ao Conhecimento do Efeito da Cocaína." é o primeiro e último experimento científico de Freud. Nesse artigo, Freud não se ocupa com as reações subjetivas ao uso da cocaína, mas com os efeitos objetivos da droga em quantidades mensuráveis de energia muscular e de tempos de reação. Ele se utiliza de dois dos instrumentos mais precisos que estavam disponíveis na época; o dinamômetro e um neuroamoebímetro. É um artigo mais curto; tem quatro páginas.

Ele conclui que a melhora funcional decorrente do uso da cocaína não é uma conseqüência da ação direta da droga sobre a musculatura, mas o resultado de um aumento do bem-estar geral que melhora a ação motora de modo secundário.

Como observa Robert Byck, M.D., nossa principal fonte:

Em resumo, o artigo de Freud é escrito de maneira lúcida e é pioneiro ao abordar o vínculo crucial entre o efeito fisiológico e o efeito mental, relacionado ao tempo de ação de um estimulante do sistema nervoso central. "Uma Contribuição ao Conhecimento do Efeito da Cocaína" é um dos primeiros exemplos de um artigo científico sobre uma droga psicoativaVeja substância ou droga psicoativa. que aborda claramente estes pontos.

A conferência de Freud para a Sociedade Psiquiátrica de Viena "Sobre o Efeito Geral da Cocaína" foi uma tentativa de interessar seus colegas no uso da cocaína dentro do organismo e em sua capacidade de aumentar a sensação geral de bem-estar. O artigo, na tradução, tem cinco páginas de extensão e enfatiza dois pontos:

A psiquiatria é rica em drogasDrogas que podem reduzir a atividade nervosa super-estimulada, mas é deficiente em agentes que possam aumentar o desempenho do sistema nervoso deprimido.

Eu não hesito em recomendar a administração de cocaína para tais curas de abstinência [da morfina] em injeções subcutâneas... sem nenhum medo de aumentar a dose.

Ele, de fato, menciona:

Acima de tudo, é necessário dizer que o valor da cocaína na prática psiquiátrica ainda está por ser demonstrado e será, provavelmente, conveniente que se faça uma experimentação minuciosa assim que o atual preço, exorbitante, da droga torne-se mais razoável."

O terceiro artigo de Freud, "Observações sobre a Compulsão ("craving") e o Medo da Cocaína." Tem seis páginas na tradução.

Nesse artigo, Freud defende a cocaína contra a acusação de ser perigosa e causar dependência, nas palavras de um psiquiatra alemão "o terceiro flagelo da humanidade", ao lado do álcool e da morfina. Citando as próprias experiências e aquelas de outros autores, ele mantém que a dependência de cocaína ocorre somente com dependentes de morfina que, durante tentativas de retirada, acreditam-se curados, conservam sua dependência de drogas e, meramente, mudam de uma substância para outra, neste caso, da morfina para a cocaína. Em todos os outros casos, não se reconhece a cocaína como causadora de dependência, pode ser abandonada quando se desejar fazê-lo e, depois de uso prolongado, pode causar aversão ao invés de causar desejo ("craving") por ela.

Por outro lado, Freud acha que o uso geral da cocaína está limitado por um elemento de desconfiança.

Uma oportunidade perdida.

Em seu estudo autobiográfico, Freud escreve:

No outono de 1886, fixei-me em Viena como médico e me casei com a jovem que havia ficado me esperando numa cidade distante por mais de quatro anos. Agora, posso retornar um pouco ao passado e explicar qual foi a culpa de minha noiva pelo fato de não me tornar famoso ainda jovem. Um interesse secundário, embora profundo, havia me levado, em 1884, a obter da Merck uma pequena quantidade do então pouco conhecido alcalóide cocaína e estudar sua ação fisiológica. Quando me achava no meio dessa tarefa, surgiu a oportunidade de uma viagem a fim de visitar minha noiva, de quem eu estava afastado havia dois anos. Rapidamente, terminei minha pesquisa sobre a cocaína e me contentei, em meu livro sobre o assunto, em profetizar que logo seriam descobertos outros usos para ela. Sugeri, contudo, a meu amigo Königstein, o oftalmologista, que ele devia investigar a questão de saber até que ponto as propriedades anestésicas da cocaína eram aplicáveis em doenças dos olhos. Quando voltei de minhas férias, verifiquei que não fora ele, mas outro de meus amigos, Carl Koller (agora em Nova Iorque), com o qual eu também tinha falado sobre a cocaína, quem havia feito os experimentos decisivos em olhos de animais e os demonstrara no Congresso Oftalmológico de Heidelberg. Koller, portanto, é considerado, com justiça, o descobridor da anestesia local com cocaína, o que se tornou tão importante em pequenas cirurgias; mas não guardo nenhum rancor da minha noiva pela interrupção das minhas pesquisas.

Um longo tempo foi necessário até que Freud pudesse assimilar a verdade amarga de que o uso que Koller fez dela tenha sido praticamente o único uso de valor e que todo o resto de seu trabalho com cocaína tenha virado cinzas.

A descoberta e a repressão dos artigos de Freud sobre a cocaína.

Parece que pessoas ligadas a Freud não querem trazer esses artigos para o conhecimento geral.

Em referências a seus textos anteriores... [n]os quais ele implica a agulha hipodérmica como a fonte de perigo no emprego da cocaína, ele omitiu qualquer referência ao artigo de 1885 no qual tinha defendido firmemente as injeções perniciosas. Esse último artigo também não foi incluído na lista de textos que, em 1897, teve que preparar ao se inscrever para o título de Professor. Nenhuma cópia dele pode ser encontrada na coleção que mantinha de suas reimpressões. Parece ter sido suprimido completamente.

Em 1960, Arthur K. Donoghue e James Hillman, dois estudantes de Freud e Jung, dos quais o último publicou amplamente sobre psicanálise, notaram que, embora fosse bem sabido que Freud havia feito muitas experiências com cocaína e que havia escrito artigos sobre o assunto, não conseguiam localizar nenhum documento relevante seja em Alemão ou nas traduções para o Inglês dos artigos de Freud. Depois de uma longa busca em muitos arquivos e bibliotecas, eles localizaram os documentos mencionados acima. A curadoria do patrimônio de Freud deu a eles permissão para publicar 1.500 cópias e para oferecê-las à venda por um ano. Esse volume foi publicado em 1963 e, além de algumas livrarias, lojas de artigos para uso de drogas e a comunidade hippie, houve muito pouco interesse e a maior parte dos livros foi destruída ao final do ano.

Em 1974, com a epidemia da cocaína tornando-se aparente por todo o mundo, houve um interesse renovado no trabalho de Freud com a droga e o Dr. Robert Byck, M. D. publicou um volume completo dos artigos de Freud, comentários de outros sobre esses artigos, incluindo os da filha de Freud, Anna, e extensa documentação sobre a história e o uso de cocaína.

Influência na carreira de Freud.

Então, em resumo, pode ser dito que o trabalho de Freud sobre a cocaína foi pioneiro em muitos aspectos; que os erros de julgamento que ele fez e sua defesa da droga foram erros que, desde então, foram cometidos por muitas pessoas que trabalharam com drogas ativas sobre o sistema nervoso central; e que as dificuldades que ele criou para si próprio por causa dessa defesa foram relativamente pequenas quando comparadas à importância da introdução de uma metodologia científica sistemática para o estudo de drogas ativas sobre o sistema nervoso central. Como disse Daniel Freedman em 1969, "eu não tenho certeza do que se quis dizer sobre Freud estar certo ou errado, já que ele, sempre, está as duas coisas."

Nessa pesquisa da cocaína, Freud, primeiro, deixou o caminho consagrado da neurologiaA Neurologia é o estudo do sistema nervoso, sua relações e transtornos. Considerada como parte das chamadas Neurociências (neuroquímica, neurofsiologia, etc), seus conhecimentos são dividos por várias profissões (Médico neurologista, Fisioterapeuta, Psicólogo, Fonoaudiólogo, etc).Foi inicialmente observando indivíduos com patologias neurológicas e posteriormente através de experimentação científica que se começou a compreender a relação entre as diversas partes do sistema nervoso e suas funções específicas. da época para aventurar-se no desconhecido. Esse desconhecido ainda estava concretizado numa substância química, do mesmo modo que ele supunha o fluido seminal como a base orgânica em suas primeiras idéias sobre a teoria da libido. O fracasso de Freud com a cocaína foi uma beata culpa. No erro e na derrota ele se afastou de uma abordagem física, orgânica para o tratamento das dificuldades mentais o que, por fim, levou à descoberta do inconsciente e da psicanálise.

O episódio da cocaína é, portanto, não apenas de interesse para a consideração biográfica de Freud mas, também, conduz diretamente ao desenvolvimento da psicanálise. Pelas duas razões ele merece uma apresentação completa e detalhada, embora este episódio some apenas algumas linhas à história da farmacologia e da medicina.

Desta perspectiva, podemos, agora, enxergar o "episódio da cocaína" não como um erro juvenil a ser ignorado pelos seus sucessores e excluído do corpo de seus trabalhos. Pelo contrário, é uma marca juvenil de sua grandeza. Ele teve a capacidade de estar envolvido num contexto complexo e poderoso e, ainda assim, realizar seu trabalho rumo a uma solução individual. Ele rejeitou a tentação do atalho e continuou adiante para realizar a mesma ambição espiritual, só que, agora, num nível psicológico.

Vom Scjheéidt sugeriu que o desenvolvimento da psicanálise e da psicologia do ego tenha sido, em parte, o resultado da tentativa de Freud de lidar com o estado diferente de consciência produzido pela cocaína.

Autor
John E. Burns, PhD
Novembro de 2002
johnburn@amcham.com.br


Bibliografia

Bernfeld, Siegfried, "Freud’s Studies on Cocaine", reimpresso de Journal of the American Psychoanalytic Association, No. 4, Vol. I, October, 1953.

Byck, Robert, (Editor com anotações de Anna Freud), "Cocaine Papers by Sigmund Freud", Stonehill, 1974.

Donoghue, Arthur K., "Freud’s Cocaine Papers", Festival of Archetypal Psychology, University of Notre Dame, July 1992, gravado por Sounds True of Boulder, Colorado.

Freud, Sigmund, "The Interpretation of Dreams", "The Dream of Irma’s Injection", July 1895, traduzido do inglês por James Strachey.

Freud, Sigmund, "An Autobiographical Study", by Sigmund Freud, traduzido do inglês por James Strachey, Norton, 1989.

Jones, Ernest, M.D. "The Life and Work of Sigmund Freud", Basic Books, 1977.

Hillman, James, (Editor), "Freud’s Cocaine Papers, Foreword by James Hillman", Dunquin Press, 1963,

Karch, Steven, B, "A Brief History of Cocaine", CRC Press, 1998.

Musto, David F., "The History of Legislative Control Over Opium, Cociane, and their Derivatives", http://www.druglibrary.org/schaffer/History/ophs.htm (Acessado em 9/9/02)

Vom Scjhéidt, J., "Sigmund Freud und das Kokain," Psyche 27: 385-429 (973)


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Comentários

conheciemnto cientifico

Naquela época não se tinha o conhecimento dos efeitos da cocaína como tb da maconhaUm termo genérico usado para denotar os vários preparados da planta de maconha (cânhamo), Cannabis sativa. Isso inclui a folha de maconha ou diamba (com variada sinonímia de gíria), o cânhamo-da-índia ou haxixe (derivado da resina dos extremos floridos da planta) e o óleo de haxixe.Na Convenção Única de Narcóticos e Drogas de 1961, a maconha foi definida como “as extremidades floridas ou frutificadas da planta de cannabis (excluindo as sementes e as folhas sem aquelas extremidades) das quais a resina não foi extraída”, enquanto que a resina da cânabis é “a resina bruta ou purificada, extraída da planta da cannabis”. As definições são baseadas na terminologia tradicional indiana como ganja (= cânabis) e charas (= resina). Um terceiro termo indiano, o bhang se refere às folhas. O óleo de cânabis (óleo de haxixe, cânabis líquida ou haxixe líquido) é um concentrado de cânabis obtido pela extração geralmente através de um óleo vegetal.O termo marijuana é de origem mexicana. Originalmente um termo usado para o tabaco barato (ocasionalmente misturado com cânabis), tornou-se um termo genérico para as folhas de cânabis ou a cânabis em geral, em muitos países. O haxixe, inicialmente um termo utilizado para a cânabis nas áreas do Mediterrâneo oriental, é hoje utilizada para a resina da cânabis.A cânabis contém pelo menos 60 canabinóides, muitos dos quais biologicamente ativos. O componente mais ativo é o delta 9-tetrahidro­canabinol (THC), o qual pode ser detectado na urina várias semanas após seu uso (geralmente após ter sido fumado), bem como seus metabólitos.A intoxicação pela cânabis produz sensação de euforia, leveza dos membros e geralmente retração social. Prejudica a capacidade para dirigir veículos bem como para executar outras atividades complexas que requerem habilidade; prejudica a memória imediata, o nível de atenção, o tempo de reação, a capacidade de aprendizado, a coordenação motora, a percepção de profundidade, a visão peri­férica, a percepção do tempo (a pessoa geralmente tem a sensação de passagem mais lenta do tempo) e a detecção de sinais. Outros sinais de intoxicação podem incluir ansiedade excessiva, desconfiança ou idéias paranóides em alguns e euforia ou apatia em outros, juízo crítico prejudicado, irritação conjuntival, aumento de apetite, boca seca e taquicardia. A cânabis às vezes é consumida com álcool, o que aumenta os efeitos psicomotores.Há registros de que, em casos de esquizofrenia, o uso da cânabis pode precipitar recaídas. Estados de ansiedade e de pânico agudos, e estados delirantes foram também relatados na intoxicação por cânabis; estes geralmente regridem em alguns dias. Os canabinóides são às vezes usados terapeuticamente para glaucoma e para as náuseas em tratamentos quimioterápicos do câncer.Os transtornos por uso de canabinóides estão incluídos nos transtornos por uso de substância psicoativa na CID-10 (classifi­cados em F12)Sinonímia: ceruma; diamba; erva; fumo; liamba; maconha; suruma; marihuana; marijuana.Veja também:síndrome nolitiva..

cocaína

depois deste artigo  , vou voltar a usar coca , até freud usava....hehe

 

vieira

um dos melhores artigos sobre Freud ja publicados, ainda mais se tratando da coca que como todos nos sabemos para quem sabea utilizar tona-se mais plausivel do que destruidora!

alcool

A IMPORTANCIA DO ALCOOL PARA A SOCIEDADE E OS EFEITOS DO ORGANISMO E A CONSEQUENCIA  QUE ELE  PODE  CAUSA NA SOCIEDADE HUMANA.

sabrina

essa  noticia me ajudou   muito com esse trabalhor  de  escola eu tirei nota 10

porisso eu estou deixaano esse recado

 

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...já é ponto pacífico que o melhor tratamento é uma combinação de terapias medicamentosas e psicossociais, aplicadas as duas em doses otimizadas" >> Continuar...


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