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Maconha e melancolia
Uma importante reflexão de Manoel T. Berlinck sobre o uso social da maconha, extensão do seu artigo "Ipanema e a clínica Psicanalítica", aparecido na Revista Latino-americana de Psicopatologia Fundamental.
Esta associação, entre maconha e melancolia é muito interessante e precisa ser explorada com cuidado e delicadeza.
No caso descrito pelo antropólogo Eduardo Galvão, entretanto, (que não tem nada a ver com Frei Galvão, santo brasileiro a respeito do qual já escreveu Durval Mazzei Nogueira Filho, num artigo luminoso publicado na Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental) a Panema é um estado causado por severas proibições. As transgressões a essas proibições são Panema. Por exemplo, comer peixe limpo e preparado por mulher grávida é Panema.
Ipanema seria, então, um estado sem pecado, sem proibições, como bem observou Chico Buarque ("Não há pecado do lado de baixo do Equador"). Mas, também, sem mania, acrescento. Pois a mania é a impossibilidade de reconhecer o estado de melancolia que nos afeta.
Quanto à maconha, penso que seu efeito é oposto ao da cocaína ou da anfetamina, que são drogas maníacas. Neste sentido, é possível dizer que a maconha coloca o sujeito num estado melancólico.
Penso, porém, que a maconha estimula um estado esquizo, uma certa fragmentação do ego sem ser acompanhado, necessariamente, pela paranóia, que freqüentemente acompanha esses estados de fragmentação. A maconha aumenta a sensibilidade, reduz o contato com o chamado "superego" e possibilita viagem "livre-associativa".
Li, uma vez, num livro chamado Pato lógico, de M.D. Magno, a seguinte observação, que vai aqui parafraseada: o tratamento (psicanalítico) do alcoolismo só começa quando o psicanalista perguntar ao paciente: "a quem você está dando de beber?"
Não tenho dados epidemiológicos sobre o consumo dessas drogas. Mas, minha hipótese é que a maconha é consumida predominantemente pela população pobre de regiões "atrasadas", de cidades relativamente pequenas, como o Norte e o Nordeste e a cocaína e anfetamina são consumidas pela população das grandes metrópoles. Mas, para contradizer minha hipótese, há o guaraná, droga estimulante, maníaca, costumeiramente consumida na região Amazônica. Há quem diga, também, que a maconha é droga geral e irrestrita no Brasil.
Em 1962-64 trabalhei com um antropólogo norte-americano da Califórnia, que realizava uma pesquisa sobre hábitos de consumo de bebidas alcoólicas. Vindo dos EUA, ele me dizia que o brasileiro bebia muito pouco. Mas, que não nos iludíssemos. Em 20 anos, os brasileiros seriam tão consumidores de bebidas alcoólicas como os norte-americanos. O álcool é droga melancólica. Você viu o ma-ra-vi-lho-so filme sobre Vinicius de Moraes? Saí do cinema liquidado, principalmente porque acompanhei Vinicius durante um certo período de minha vida. E vi o filme desde uma outra posição. Vinicius (como Tom Jobim, [...] e outros) era muito, mas muito melancólico. Era, também, muito maníaco. Vinicius tinha duas manias, nesta ordem: whisky e mulher. Sem essas duas drogas, Vinicius ficava catatônico.
O que não víamos, na época, eram as outras drogas - maconha, cocaína, anfetamina. Hoje, é possível adquirir qualquer droga, a preços módicos, via Internet. Elas são entregues no local solicitado. Todos vocês - como eu - recebem, quase que diariamente, ofertas de drogas via Internet, em oferta. Recebo mais ofertas disso do que de bebidas alcoólicas. A venda de drogas pela Internet é um problema grave para o tráfico em favelas. O traficante favelado vai ter que se plugar. Ou cair fora. Há, aí, um problema de logística que quero ver traficante resolver.
O Brasil mudou! Está muito mais complexamente drogado!
O mais eficiente mecanismo sócio-cultural antidrogas, no Brasil, não é a polícia. São as Igrejas Evangélicas. Elas restauram a auto-estima e organizam o ego da população pobre e da pequena classe média.
Asseguram uma estabilidade familiar, permitem o emprego estável e o reconhecimento institucional como recurso estruturante. Além disso, permitem e até estimulam o erotismo.
O combate à toxicomania só é eficaz através de mudança de grupo de pertinência. Não há psicoterapia, nem remédio, nem AAAs, que tirem nequinho do alcoolismo. Ele só deixa a bebida se mudar de grupo. As Igrejas Evangélicas oferecem essa oportunidade para os alcoolistas e outros drogaditos.
Você já foi ao infernal subúrbio de Sampa, ou do Rio (a chamada ZN)? Lá só tem uma alternativa: a birosca, o botequim miserável onde rola cachaça e cerveja. Junte isso com altíssimas taxas de desemprego, falta de perspectivas e baixíssima auto-estima. Resultado? Melancolia e drogadição.
Neste sentido, há uma forte dimensão política no movimento evangélico no Brasil. Não é por acaso que se criou um partido político controlado pelo bispo [...]. Não é por acaso que o Garotinho e a Rosinha têm forte base política no Rio e em outros estados da União, onde o fundamentalismo evangélico cresce.
Acredito que, nos anos vindouros, a grande polarização política no Brasil e na América Latina será entre o populismo lulista e o fundamentalismo evangélico. A social-democracia tucana só terá chance se oferecer ao povão àquilo que, até agora, não conseguiu oferecer. A social-democracia tucana é eminentemente elitista. Oferece um estado de bem-estar resultante de gestão eficiente, reconhecimento de certos privilégios que são completamente estranhos ao povão como, por exemplo, ciência e tecnologia, alta cultura, educação superior etc. O povão não sabe o que é isso. O povão quer comer, quer sair da bebedeira, quer emprego, quer auto-estima. A Lula é tão forte (acredito que será re-eleito com boa vantagem, especialmente se o seu concorrente for o Alkimin) porque ele é o retrato do bem-sucedido, aos olhos do povão. E ele sabe disso. Ele aposta no voto dos pobres, ele fala pros pobres. Ele está cagando e andando para a população da Zona Sul, como ele mesmo disse, num discurso da semana passada. Ele toma umas e outras. Mas nada grave (por enquanto, pelo menos). O povão não sabe o que é taxa de juros, o que é FMI. O povão quer comida, emprego e, principalmente, auto-estima. Essa sensação de ser esquecido, marginal, ignorado, abandonado é muito dura. E os tucanos, pobres tucanos, não sabem como lidar com isso. Acreditam na eficiência administrativa. Mas isso é pouco.
Então, o horizonte é o de uma polarização entre populismo esquerdista - Lula, Chaves, Kishner, o cocaleiro boliviano, o uruguaio - e o fundamentalismo evangélico. A social-democracia tucana, com sua arrogância elitista, vai ocupar um terceiro lugar, que, se bem administrado, poderá, até, lhe proporcionar o poder. Assim é a democracia.
Manoel Berlinck
Enquanto que a cocaína cria realmente uma espécie de mania artificial, parece-me que o álcool não origina mania nem melancolia, mas apenas permite que as emoções se manifestem, livres do peso que o autocontrole nos exige. O bêbado chora quando fica triste, e canta, grita e abraça todo mundo quando fica alegre. Sendo o álcool ansiolítico, funciona inibindo o autocontrole e a repressão sem bloquear o afeto.
Já a maconha parece produzir um real desligamento, não apenas afetivo mas também perceptivo e cognitivo, e o que pode parecer melancolia talvez seja apenas indiferença contemplativa. Na antiga Índia, a utilização do bhang (preparado de Cannabis, como a maconha ou o haxixe), com o propósito de facilitar a introspecção e a meditação, era bem aceita pela casta dos Brahmins ou brâmanes. Esta casta, uma aristocracia moral e espiritual, não via com bons olhos o uso do álcool, considerado como liberador das paixões e dos instintos inferiores. Já com os guerreiros ou Kshatriyas, que representavam a autoridade e o poder temporal, ocorria o oposto. De maneira semelhante à atitude das sociedades ocidentais, eles desprezavam o bhang e faziam uso do daru, uma bebida de alto teor alcoólico. Essa atitude dos brâmanes era semelhante à dos muçulmanos. Nas sociedades competitivas, não admira que o problema esteja nos estimulantes como a cocaína e as anfetaminas, que são as drogas que se usam em cavalos de corrida e em disputas esportivas. A cafeína estimula apenas a cognição, sem euforia. O álcool não estimula nem dá coragem diretamente, mas tira o medo e a ansiedade. Não é à toa que o tema constante de Vinícius era o não ter medo da paixão:
Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu Porque a vida só se dá
Pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu, ai
Quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada, não
Não há mal pior
Do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa
É melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir?
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração
Esse não vai ter perdão
Você que lê e não sabe
Você que reza e não crê
Você que entra e não cabe
Você vai ter que viver
Na tonga da mironga do kabuletê
Você que fuma e não traga
E que não paga pra ver
Vou lhe rogar uma praga
Eu vou é mandar você
Pra tonga da mironga do kabuletê
Cláudio Lyra Bastos
Cláudio, A maconha chegou ao Brasil no século XVI com os primeiros negreiros e os primeiros escravos africanos. A escravidão já era praticada na África há muitos séculos e os escravagistas de lá haviam aprendido que as pessoas só aceitam ser escravos devidamente maconhados. Devidamente maconhados, as pessoas tendem a aceitar qualquer indignidade. Olhe à sua volta, repare. Desde então, no Brasil nunca mais faltou maconha nas senzalas nem nas cadeias. Quando falta, tem revolta na certa. Ainda que, pelo menos até agora, nunca tivesse constado formalmente da pauta de negociações com os "homi". Para mim e nestas circunstâncias, o adjetivo desmotivador é eufemístico. Julgo melhor desumanizador, brutificador ou algo assim.
Luis Salvador
É verdade, mestre. Mas o mesmo efeito de dissociação e indiferença pode ser usado para diversos fins, dependendo do contexto e das circunstâncias. Para um brâmane poderia servir para desligar o espírito das coisas mundanas e elevar a alma; para um hashishin, serviria para diminuir o apego à vida e auxiliá-lo a cumprir a sua missão; para um preso ou um escravo, ajudaria a esquecer o seu infortúnio. Cláudio Lyra Bastos
É, Cláudio, é um ponto de vista. Mas presume a suposição de que estaria sendo usada intencionalmente para isto ou aquilo. Não é?
Luis Salvador
O álcool, as anfetaminas, etc. podem desencadear manias sintomáticas ou secundárias com características próximas das manias ditas periódicas ou bipolares. Na embriagues simples, afora a excitação intelectual e motora, a loquacidade e a perda do controle de si, nota-se uma sensação de tristeza ou euforia. E na embriagues mais grave, a exaltação do humor é cada vez maior. Por outro lado, ninguém se droga para mergulhar na melancolia.
Na POLB de Maio 2005, apresentei a tradução de um trabalho de Erick Jean-Daniel SINGAYNY, intitulado « O toxicômano teria perdido a dimensão do sagrado? Envio somente uma passagem que relata, de maneira admirável, a experiência do toxicômano: «A droga viria modificar os estados da consciência, abrir a porta aos espaços psíquicos vividos como dilatados, ao mergulho transpessoal («estados não ordinários da consciência» segundo Grof, 1996) geralmente incontrolados e perigosos. O doente toxicômano é então atingido na sua própria sagração, ele é de « maneira anormal encadeado no fundo dele mesmo» (Palem, 1997). O que ele encontrou nisso, quando o acolhemos, é bastante contraditório porque o tratamento que lhe propomos, mesmo que seja o mais « acolhedor», só faz «cortar» à parte da « razão» que é a dele na medida em que seu mal é uma «contradição» (Hegel) no meio da razão.
Um poeta do Século XIX, Gérard de Nerval, mostrou-nos esta extraordinária contradição: « Eu vou tentar transcrever as impressões de uma longa doença que se desenrolou inteiramente nos mistérios de meu espírito ; e eu não sei porque me sirvo deste termo doença, porque nunca, no que me diz respeito, sinto-me tão bem. Às vezes, eu pensava que a minha força e a minha atividade duplicavam; parecia-me tudo saber, tudo compreender; a imaginação trazia-me delícias infinitas. Ao recobrar o que os homens chamam razão, devo lastimar tê-la perdida?» (p.695). E mais adiante: « A partir do momento em que este ponto me deu a certeza de que eu estava submisso às provas da iniciação sagrada, uma força invisível entrou no meu espírito».
Eliezer de Hollanda Cordeiro
Psiquiatra e Psicanalista brasileiro, residente na França
Obtido em: Psichiatry on line brazil - Fevereiro 2006 vol 11 nº2
http://www.polbr.med.br/ano06/lbp0206.php#2
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