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Educação: Prevenir ou Formar?
A minha liberdade, em qualquer acepção genuína, não reside na minha capacidade de viver como "sujeito puro" mas, antes, na minha capacidade de viver no relacionamento dialético.
Rollo May
Não suportamos o que vivemos!
Não temos, ou perdemos, o entusiasmo para mudar a realidade!
Não temos intenções, nem projetos, tampouco desejos!
Não sabemos o que fazer com uma vida cujo único sentido é ganhar dinheiro para desfrutar das sensações compradas no dia-a-dia ou da moda.
Então, o que pretendemos aqui, nesta manhã?
Da minha parte, tomarei a questão das drogas como uma representação, uma tentativa de compreensão do ambiente que nos envolve.
Considero que desde o principio dos tempos, desde a Grécia, para não ir tão longe, a droga se apresenta. Está inserida na cultura. Tal como hoje? Não, certamente não.
Qual o lugar, ou lugares, que ocupa? Buscar essa resposta, como quem busca o corrupto ou onde se esconde o narcotraficante, tentando apenas aprisioná-los, não será minha intenção. Buscarei, como quem busca no menino que não consegue concentrar-se nas aulas ou relacionar-se com os amigos, aquilo que tem a dizer. Partirei do pressuposto de que tem algo a dizer, que ainda não sei.
O que o uso de drogas na sociedade atual tem a dizer?
Para isso tomarei a Educação como lugar de convergência de três aspectos que julgo fundamental para a minha reflexão desta manhã. São eles: a moral, o homem atual e a condição mental desse homem.
A escola, a relação Professor-Aluno, tal como a concebo, deixarei para o fim já que é para lá que afluem os outros aspectos.
Começarei pela moral. A condição moral.
A CONDIÇÃO MORAL: A MORTE DO ÉTICO
Temos hoje novos problemas ou temos problemas que as gerações passadas já conheciam? Ou será que temos os mesmos problemas das gerações que nos antecederam, porem com formas diferentes? A droga ocupa hoje o mesmo lugar que ocupava ontem na sociedade?
Nossa agenda moral está recheada de itens que escritores do passado mal ou sequer tocaram porque, tais problemas, em sua época não eram articulados como parte da experiência humana. Por exemplo: as relações entre os casais, a parceria sexual, a vida em família e, entre tantos, a droga tal como a vivemos hoje.
Diante de todas essas questões já se afirma a "morte do ético" 1, ou seja, a substituição da ética pela estética, ou melhor, do interno pelo externo, do invisível pelo visível. Autores como Gilles Lipovetsky, afirmam que entramos "finalmente" na era do «depois do dever", época do pós-tratado dos deveres. Tais pensamentos o referido autor afirma em seus livros cujos nomes são sugestivos: «O crepúsculo do dever», «A era do vazio" e o «Império do efêmero».
Atualmente perdeu-se a idéia de auto-sacrificio, a estrela polar parou de brilhar; as pessoas não se lançam na busca e na manutenção de ideais morais; a política abandonou a utopia; os idealistas morreram de over dose, como na frase feliz de Cazuza; nosso tempo é reino do individualismo, de busca de boa vida. O único limite imposto é a tolerância; tolerância sobre a diferença porém, já tangenciando a indiferença. Trata-se de uma moral minimalista, como afirma Jurandir Freire Costa em seu livro «A ética e o espelho da Cultura» 2.
A problemática se apresenta fortemente. Podemos ter diante dela uma postura de imposição de valores visando a supressão daqueles que nos causam o incômodo da ambigüidade ou pensarmos que este incômodo merece ser considerado, estudado.
Nosso tempo se nos apresenta como o que não permite a existência de metáforas. E o tempo de trazer à luz as idéias sem os mantos que impediam a visibilidade. Não suportamos o invisível — se de um lado isto pode ser um prejuízo, por outro podemos algumas vantagens.
Em decorrência, não precisamos nos propor a abandonar conceitos morais vindos do passado, mas sim refletir sobre a maneira como eram tratados, ou não tratados. Podemos pensar no desenvolvimento moral sem que o principio fundamental seja alterado. Muitos motivos que geraram
1- BAUMAN. Z. "Ética Pós-Moderna". Paulus. 1997.
2- COSTA. J. F. "A Ética e o Espelho da Cultura". Rocco. 1994. O referido livro é um dos indicados na referência bibliográfica oferecida pelo MEC nos PCNs.
construções morais não precisam ser suprimidas, mas o modo moral de trata-los precisa ser reconsiderado.
A Moralidade não é traço natural, é uma construção permanente.
Sendo assim, se pensamos que a moralidade é uma construção
humana, não um dado genético, isto nos põe a pensar qual sua origem e de que maneira foi construída. De outro modo, conhecer sua história é reconhecer os motivos que a originaram.
Não farei aqui a linha do tempo da moral, mas apontarei para duas de suas fontes, uma sucedendo a outra no surgimento da modernidade.
A presença da Igreja na organização social reconhece a família como centro, célula mater da sociedade. A imagem da Sagrada Família oferece os elementos de identificação dos valores fundamentais ao agrupamento social. A sociedade deixa de ser um amontoado de pessoas (que bem sabemos, tinham outras formas de organização) para ser uma grande família: cada membro passa a reconhecer no outro um irmão, tendo Deus como pai.
Os valores difundidos a partir daí permeiam as relações sociais.
O controle moral tem na família sua grande âncora. E nela, e a partir dela, que surgem as formas de supervisão e controle social.
A tradição, elo de ligação entre as pessoas, próprio desse tempo, oferece a possibilidade da continuidade, bem como da estabilidade. De outro modo, estabelece o certo e o errado. As pessoas são conhecidas pelo nome de família; cada membro tem a missão da continuidade e do zelo das tradições.
Embora fosse assim a organização, ou pelo menos os esforços sempre foram na direção dessa meta, nem tudo acontecia no campo familiar ou determinado por ele.
O terreno dos negócios implicava um modo de relações que muitas vezes se opunha aos valores morais da família, sustentado pela Igreja.
Assim, com o aumento da população e conseqüente aumento dos negócios, a rede de relações passa a se alterar em qualidade. Os conceitos morais passam a ser tratados de outro modo: agora não mais no modelo cristão, mas naquilo que pudesse servir aos interesses desse mercado em expansão.
Entretanto vive-se ai uma ambigüidade. Os critérios para os negócios muitas vezes se opunham aos que vigoravam na família. Eficiência e aproveitabilidade, próprios do negócio, chocavam-se com partilha e cuidados com o outro, manto da família. Desta forma, a pessoa que toma decisão estava lançada em uma posição desesperadamente ambivalente. 3
3- BAUMAN. ª "Ética Pós-Moderna". Paulus. 1997
A saída para esse impasse, para esse conflito que impedia a ampliação dos negócios foi o afrouxamento moral. Dai, sem esse manto amparador, o individuo vê-se desprotegido e começa a preocupar-se consigo mesmo, já que se percebia sozinho. Começava ai o reconhecimento de uma solidão interna, de um desamparo sentido pela perda de referências. O novo modo propõe uma corrida: a corrida do ouro.
Este novo tempo é marcado por uma idéia de virtude onde a obediência à razão contra o império caótico das paixões, ocupa a boca de cena. A virtude é dever e obrigação em face de normas e valores universais, a liberdade é o poder humano de enfrentar com suas próprias forças a contingência e adversidade. E essa força chama-se Fortuna, como afirma Marilena Chauí. 4
Esta posição coloca um acento firme sobre a razão e relega ao segundo escalão as paixões. É a marca do modernismo. Modernismo que vai esfacelando o brilho da vida. Afirma-se assim o fim da separação entre o público e o privado, elevando-se o privado em prejuízo do público. Faz-se o elogio da intimidade e critica-se os pequenos poderes na família, na escola e nas organizações burocráticas; prevalece a sensação do efêmero, do acidental, do volátil, num mundo onde "tudo o que é sólido derrete no ar". Cidades são descritas e pensadas como "empório de estilos", "teatro pluralista", onde não mais têm validade os valores pré-modernistas da funcionalidade, do planejamento e da permanência.
A filósofa descreve esse tempo: "Os objetos são descartáveis, as relações pessoais e sociais têm a rapidez vertiginosa do fast food, o mercado da moda é dominante e a moda, regida pelas leis de um mercado extremamente veloz quanto à produção e ao consumo. Tempo e espaço foram de tal modo comprimidos pelos satélites de telecomunicações e pelos meios eletrônicos, assim como pelos novos transportes, que o tempo tornou-se sinônimo de velocidade e o espaço, sinônimo da passagem vertiginosa de imagens e sinais." 5
Este cenário marca a crescente pluralidade de contextos e individualidades.
Desnudamento em praça pública talvez seja uma imagem própria para ilustrar a condição que se encontraram homens e mulheres depois da queda do manto aparador, roubado pelo novo cenário.
Em contrapartida, o manto moral oferecido pela família não deixava supor o abismo ali escondido. Desespero. Angústia. A saída era pensar que a razão pudesse ser a ponte sobre essa falha natural. O vigor e a perenidade da família deixava a cena.
4- CHAUI. M. "Público. Privado. Despotismo" In: NOVAES. A. "Ética". Companhia das Letras. 1992. 5- Ibidem.
Cria-se assim a idéia de que o vazio deixado pela onipresença do aroma familiar poderia ser substituído por algo criado pelos homens6: um conjunto de regras racionalmente organizadas que visassem um arranjo racional da convivência humana7 — as técnicas serão capazes de tudo.
Lembremo-nos de Dale Carnegie e seus seguidores. Como fórmula de sucesso, fazer amigos e influenciar pessoas pouco tem a ver com cuidado e economia prudente. Os profetas do pensamento positivo zombaram do velho provérbio que diz que só o trabalho árduo é a chave que abrirá a porta aos nossos desejos. Exaltavam o amor pelo dinheiro, oficialmente condenado até mesmo pelos mais rudes materialistas da Era do Ouro, como incentivo útil.
Este e outros modos encontravam respaldo na necessidade que todo tomador de decisão tem: capacidade de avaliação para assegurar a melhor decisão.
Assim a avaliação levou à idéia de que o útil nem sempre é, e não precisa ser, bom. E, ainda, que o belo pode ser diferente do verdadeiro.
Essas idéias favoreceram a constituição de um ambiente propicio ao negócio, mas desestabilizador da família e do indivíduo.
Nesse contexto e seguindo o desenvolvimento aí proposto, encontramos uma rigorosa divisão do trabalho em habilidades e funções. A atividade produtiva envolve muitas pessoas, cada uma desenvolve uma pequena parte do global (Fordismo). Disso decorre o desenvolvimento das especialidades. Encontramos nesse tempo a departamentalização de diversos segmentos da atividade produtiva e intelectual.
O trabalho de cada um está dividido em muitas tarefas pequenas, cada uma realizada em diversos lugares, entre diversas pessoas, em diversos tempos. Com isso passa-se a ter diversos papéis. Nenhum deles abrange o individuo. Não há nada de pessoal nos papéis, apenas tarefas parciais de um todo que muitas vezes não se pode se quer imaginar.
A relação do indivíduo com o papel, bem como com o todo, é uma em que sua idiossincrasia, sua particularidade não está impressa. E o papel que está na relação com a tarefa. A pessoa é preparada para o desempenho daquela tarefa, de modo que substituir a pessoa não é substituir o papel. Aquilo que um faz, qualquer um que seja treinado pode faze-lo. Temos então: pecado sem pecadores, crime sem criminosos, culpa sem culpados. Uma responsabilidade flutuante.
Seres soltos, desvinculados de uma tradição e lançados numa moral racional que visa organizá-los para uma sociedade produtiva e de negócios. Seres soltos e «livres» em uma sociedade que prefere acreditar nos papéis que cria mais do que nos seres que nela habitam.
6- BAUMAN. Z. "Ética Pós-Moderno". Paulus. 1997.
7- Ibidem.
Resultado desse processo: angústia derivada do vazio verificado.
Uma saída é a tentativa de reconhecer os diversos modos de ser solto-no-mundo".
Com isso encontramos o pluralismo de normas — e nosso tempo é marcado pelo pluralismo - e o que resulta é a ambigüidade. Uma ambigüidade moral fortemente sentida. Encontramos pessoas se manifestando contra o aborto e a favor da pena de morte; manifestando publicamente sua posição contra o racismo, mas não corrigindo suas expressões verbais que discriminam raças e credos.
Ansiamos por um guia que nos oriente quanto ao caminho a seguir e encontramos autoridades contestadas; não confiamos em nenhuma autoridade, pelo menos, não confiamos em nenhuma plenamente, e em nenhuma por longo tempo: não podemos deixar de suspeitar de qualquer pretensão de infalibilidade. Insistimos em eleger o super-homem, mas esquecemos que ele é parte da fantasia de supressão das dificuldades. Esquecemos que não conseguimos administrar, de forma infalível, nossos problemas e diferenças domésticas, mas insistimos no Super-homem.
O HOMEM OBJETO
Até agora procurei abordar as mudanças ocorridas no nível do coletivo. Buscarei agora tocar as conseqüências dessas no nível do individuo.
Sabemos que a passagem da modernidade implicou diversas alterações no modo de vida de cada pessoa e que para essas alterações podemos indicar implicações sensíveis.
A partir da necessidade da organização social em torno do projeto capitalista o que se pôde observar foi à intensa produção de papéis que buscavam dar conta das inúmeras atividades geradas por esta forma de organização.
Se por um lado víamos, na modernidade, a tradição oferecendo o caminho seguro por meio de ideais, agora, com as novas propostas o que se observa é justamente a ausência destes ideais.
Não encontramos mais homens e mulheres preocupados com ideais morais que guiem suas vidas. A palavra de ordem é economia. A linguagem comum, na era da globalização, é o «economês".
Assim, posso dizer que a atualidade criou papéis, que os homens criaram papéis. A criação do homem atual são os papéis que inventou para desenvolver sua sociedade.
De forma oposta, até a modernidade, presenciávamos os homens recriando-se a si mesmos e recriando uns aos outros com a finalidade de obter o melhor de si e da sociedade.
Assim, nessa passagem, algo da ordem do sujeito e do desejo se transforma radicalmente. Ele não consegue acreditar que pode, com seu desejo, transformar a si mesmo e ao mundo, de maneira a poder reinventar-se e à ordem social.
Se na primeira metade do último século encontrávamos os jovens lutando pela transformação social, pela mudança política, acreditando que poderiam tomar o poder a fim de oferecer à sociedade oportunidades de participação social, o que vemos a partir da década de 90 são jovens mobilizados sem saber exatamente porquê e para quê. Pintaram suas caras a fim de esconder sua real identidade; por uma causa que não parecia ter a cara de cada um.
A modernidade foi marcada por pensadores que não se cansaram de afirmar as possibilidades de transformação encontradas na mobilização do desejo, entre eles Marx, Freud, Nietzsche e Schopenhauer. A força da massa, do proletariado com Marx, encontrava na união o impulso de que precisavam para buscar as mudanças. Isto morreu. Morreu com uma espécie de conservadorismo, uma busca pela imobilidade moral.
Se Marx foi o emblema das mudanças sociais, Freud o foi na reinvenção individual. O reconhecimento do desejo, força motriz da revolução individual, indicada pela Psicanálise, tornou-se o catalisador possível das transformações.
A Psicanálise nasce em meio a uma moralidade que encontrava na sexualidade o busílis [o ponto principal da dificuldade em resolver uma coisa] de todos os problemas para a sociedade vitoriana.
Freud desenvolve seu pensamento em torno da idéia de uma sexualidade reprimida no próprio sujeito. Descobre que a possibilidade de reversão deste quadro era justamente pela fala do paciente. Era pela possibilidade do reconhecimento, por meio da expressão do desejo reprimido.
Embora Freud tenha tratado de outros pacientes com outras patologias, elas não expressavam as preocupações da sociedade dos primórdios do século XX.
Em meio a uma turbulenta mudança moral, onde o homem se percebe sem apoio, sem referencias, não se reconhecendo no olhar do outro; tomado pela anomia [ausência de regras de organização ] que conseqüentemente o desorganiza, pela falta de governantes em quem possa depositar a expectativa de representabilidade e outras perdas profundas, a patologia que aflora só pode ser a depressão.
Considerada hoje como a quarta doença que mais gera incapacitação para o trabalho, em 2020, ela deverá ocupar o segundo posto, perdendo para as doenças cardio-vasculares.
As estimativas apontam para cerca de 110 milhões de pessoas sofrendo de depressão no mundo. Durante a vida, 8 a 12% dos homens e 20 a 26% das mulheres vão enfrentar, pelo menos, uma fase de depressão. E 50 a 80% dessa população vão ter mais uma crise. 8
O que efetivamente aconteceu com o individuo?
Se na modernidade a crença na força do desejo era a mola propulsora da transformação individual; se a "solução" para o mal-estar do sujeito era a sua mobilização, por meio do desejo, visando a transformação; hoje o que encontramos é uma espécie de amoldamento do sujeito às demandas culturais. Aquilo que lhe é requerido como insígnia de pertinência torna-se um campo magnético, um campo de atração.
O campo magnético que amolda o ser, donde a identidade advém, são os grupos de representação que se proliferaram nos últimos anos. A identidade do sujeito não está determinada de dentro para fora; não se expõe frente à diversidade cultural. Ela é resultado da estetização do eu. O sujeito atraído pelas insígnias passa a portá-las como modo de pertinência social e de «reconhecimento de si». Um reconhecimento que não passa por si mesmo, mas sim por aquilo que nele deve ser reconhecido para ser identificada sua participação nos grupos.
Daí podermos concordar com a expressão de C. Lasch que afirma estarmos numa «cultura do narcisismo» 9. Nessa cultura o eu do sujeito é tomado por ela, bem como o próprio sujeito toma seu eu como objeto de investimento. Assim o sujeito não passa mais a se chamar sujeito, ou seja, reconhecer em si mesmo a força necessária à transformação, mas reconhece apenas a cultura como fonte dessa força. O sujeito passa a se oferecer ao deleite e desfrute dessa cultura.
A fonte da necessidade está dada pela cultura, ou mais exatamente, por aquilo que foi convencionado por ela em função das suas necessidades.
Há ainda uma outra curiosidade em toda essa mudança. Se a paixão sempre foi objeto de correção da educação moral e tida como o elemento caótico da vida em sociedade, o que vemos agora é a paixão tomando a posição oposta. Justamente porque o mercado é o centro ordenador da nova realidade e ele se alimenta das paixões, enquanto sinônimo de interesse e utilidade, elas passam a ocupar lugar de destaque na nova
8- Dados obtidos na FSP.
9- LASCH. C. "A Cultura do Narcisismo". Imago. 1983.
Narcisismo termo utilizado por Freud para designar um dos modos de relação do sujeito com o objeto. No caso específico do narcisismo. não se trata de um outro que é tomado como objeto. mas sim, o próprio eu do indivíduo. A felicidade da expressão freudiana está no fato de que. embora este modo de relacionamento ocupe posição na estruturação psíquica. ou seja. encontramos este modo de relacionamento e investimento nos humanos. ela obedece a uma intensidade que determinará quanto o sujeito está disposto a um relacionamento com um outro que não seja ele mesmo.
Por narcisismo não se entende, como popularmente se costuma pensar. uma forma exibicionista e egoísta. mas. ao contrário. temerária, porque não se dispõe ao relacionamento com o desconhecido. somente com aquilo que lhe oferece um equilíbrio interno. Tal equilíbrio está dado pela alta ou baixa capacidade de conviver com uma imagem de si que não corresponda ao ideal.
organização. Entretanto há uma diferença: se antes estas mesmas paixões estavam submetidas à razão do sujeito (pelo menos era assim que pretendia a ética desde o tempo de Aristóteles), hoje elas se submetem à razão do mercado, elas tornam-se elementos a serem "educados" pelas necessidades do mercado e não do sujeito. Alias, as necessidades não são mais do sujeito, mas sim do mercado. Mais uma vez o sujeito se torna objeto.
Alguns anos atrás sugeri a seguinte pergunta no texto «Aquilo que herdaste de teus pais»:
«Pensemos: Qual a diferença em se ter uma TV de 14 polegadas ou uma de 16? Do ponto de vista do tamanho e da imagem que você verá, nenhuma. Mas do ponto de vista daquilo que ela representa no seu patrimônio, há muita diferença. Isso é mídia, consumismo. O valor do meu ser fica determinado pelo tamanho da TV, a marca do automóvel, a roupa que uso, etc.» 10
Temos então que o desejo sucumbe frente à exaltação dos emblemas narcísicos do eu, na demanda de autocentramento e de espetáculo.
A proposta de autocentramento coloca a racionalidade no lugar dos sentimentos. O eu, sede administrativa da existência, faz pender sua balança para o prato onde se assenta a lógica da racionalidade imposta pela economia. A tradição familiar, os valores talhados no ambiente doméstico, banhados por um forte sentimento de pertinência, sedem a racionalidade econômica. A razão, exame e planejamento de uma moralidade que atendesse às necessidades da sociedade, ocupa o espaço central.
É bom que nos lembremos: a lógica fornece ao sujeito uma ilusão da certeza que apazigua suas dúvidas. As incertezas ficam em um certo estado de suspensão. Há uma "lógica" comum nas famílias atuais:
substituir a falta de pai e mãe por brinquedos e presentes. Isto apazigua as incertezas de crianças e adolescentes?
A economia globalizada, a Internet e outras invenções da Pós-Modernidade, sem dúvida alguma, oferecem muitas possibilidades de escolha, mas muitas impossibilidades de existência.
O lugar destinado à individualidade, as experiências do sujeito consigo mesmo, não têm espaço. Elas, aliás, consomem muito tempo na era do «fast food».
Quando a vida reserva o inevitável momento de olhar para si, de abrir-se à reflexão geralmente oferecido pelas crises de pânico ou de depressão — esse encontro mostra ao sujeito um eu objeto, esvaziado de significação. Tal como qualquer objeto: à espera de uma significação que lhe seja atribuída. Eis o vazio.
10- KLAIN. W. "Aquilo que Herdaste de teus pais". 1997.
O VAZIO
E preciso, então, começar do vazio. Encontrar no vazio o que é essencial; o que em mim é essencial? Eu mesmo? Meu eu? Não. Meu corpo. Um corpo que pulsa. Um corpo que clama por sentidos. E, entre o vazio e o sentido porvir: a angústia.
A angústia verdadeira não tem par: define-se na solidão. O outro não me diz nada. Ninguém me diz nada. Fico com o nada, mergulho no vazio e sinto na angústia. É preciso entrar na angústia, senti-la. Quantos dela fogem? Quanto dela fujo? Escapo de mim. Abandono-me. Entrego-me ao outro, aos outros.
E os outros, o que me dizem? Dizem quem sou. Mas não sou o que dizem. Afasto-me da angústia. Afasto-me do vazio. Prefiro as cidades, seus sons, suas luzes.
Como não me digo; como não me sinto; como não escuto o silêncio da angústia, salto para o outro: tornar-me-ei o que me dizem que sou.
Espinosa disse, mas não escutei: Falsos prazeres, verdadeiro sofrimento: da esperança frustrada nasce uma tristeza extrema.
Não há esperança que não seja impotência d'alma e promessa de tristeza. Tristeza: ingresso para o vazio, convite para a angústia. Aceito?
Falo de esperança quando não falo de construção proposta pela angústia. Todo alicerce é um buraco na terra. Meio único para o crescimento do edifício: Ou ouço-me ou construo-me sobre a areia.
O que queremos fazer nesse encontro? Resgatar a força da vida no seio da juventude ou esconder os objetos para que não tropecem?
A Educação
Tiramos os objetos e construímos uma esperança ou vivemos a cada dia um projeto de Educação calcado na relação com o jovem onde cada um neste par - aluno e professor — resgatem suas respectivas forças, extraindo-as das profundezas de seus vazios?
Reconhecemos a força do desejo de mudar a realidade, suportando o tempo do amadurecimento, ou faremos uma prótese, ou usaremos uma técnica, para substituir a paixão, o coração?
Sabemos que o professor pode superar as condições ofertadas pela instituição ou pelo programa da disciplina. Isto é realmente a boa educação. E no vinculo Professor-Aluno que reside o segredo de tudo o que buscamos.
Entretanto, quantas vezes deslocamos a força desse vinculo para os métodos e técnicas, como se neles ela habitasse.
Quanto ao professor, suas palavras abrem um campo de possibilidades indefinidas e infinitas, se não forem abortivas, se não desconsiderarem a força do aprendiz.
É preciso que saibamos, de uma vez, que a educação essencial passa pelo ensino, mas realiza-se apesar dele e sem ele.
Saibamos ainda, que os rituais de planejamento e didática chegam, muitas vezes, a iludir tanto executantes quanto o grupo a eles submetidos, chegando a ponto de colocar os alunos no lugar de objeto da educação e não de sujeitos, motores da educação.
Não sejamos onipotentes ao imaginar, e crer, que nossos instrumentos e métodos, apesar de necessários, sucumbem à relação de cultivo da criança que chega à escola.
Não há criança ou jovem que resista à compreensão sensível do professor, que resista ao olhar de reconhecimento de sua individualidade.
Portanto, precisamos ter em mente que a essência da função do professor é o asseguramento das oportunidades, para o aluno, de apropriação do seu sentimento de identidade. E para isso é imprescindível a habilidade no manuseio com a diversidade humana.
Cada homem é uma história. A função do ensino seria, neste modo que penso, uma tomada de consciência pessoal no seu ajustamento com o mundo e com os outros. Assim, como disse acima, a educação não basta; as lições do professor compõem-se com outras influências, impossíveis de enumerar.
Assim a intervenção do professor só pode ser o desvendamento do ser humano, tal como a humanidade o transforma em si mesmo. Pois a humanidade no homem não é algo advindo do exterior sob a forma de uma leitura preparada com antecipação.
O que o professor ensina de melhor, de essencial, tirou da experiência de sua vida. Aprendeu com perigo de vida e tenta transmiti-lo sobre quem tem alguma ascendência. Transmite isso no vínculo que estabelece com o aluno. O ensino formal não ensina a verdade, ensina história ou matemática; entretanto o sentido de qualquer tarefa escolar, qualquer texto oferecido ao aluno é, nisso que estou propondo, implicação em uma certa relação com uma verdade que não está diante do homem e pode ser apontada com o dedo, mas no homem e à sua volta.
A verdade humana, penso é algo que nos engloba e nos orienta, algo de caráter eminentemente individual.
O professor dirigi-se à sala de modo geral, mas seu olhar e sua atenção focalizam a implicação de cada um. Estabelece com cada aluno um vínculo que propicia a confiança no encontro com as próprias verdades, O professor pode através do ensino anunciar a cada um uma
verdade particular e, se é digno de seu trabalho, espera de cada um uma resposta particular, resposta singular e uma realização. Há professores que exercem sua profissão e outros que intervêm como agente duplo. Utilizando para outros fins essa atividade de formação.
A relação com o professor é uma relação essencial comigo próprio. Através do convite de algo exterior, o professor deve oferecer a possibilidade da consciência do meu próprio ser.
No Banquete de Platão, Alcebíades, aluno de Sócrates declara sua relação com seu mestre: `As palavras desse homem enchem-me os olhos de lágrimas e vejo muitas outras pessoas sentirem as mesmas emoções!(...) Ele me obriga a concordar que há coisas que faltam à minha pessoa e que só me importo comigo, mesmo que finja importar-me com a vida dos atenienses!(...) Muitas vezes, mesmo, teria ficado contente se o soubesse desaparecido do número dos vivos. Mas sei muito bem que, se isso acontecesse, meu desgosto seria ainda maior. Não consigo saber como proceder com esse homem diabólico"
Reconheço no vinculo Professor-Aluno, a força necessária para a revelação das reais necessidades. É nesta relação onde pode acontecer a descoberta do desejo, fator necessário ás mudanças.
Para isso, professores e alunos precisam construir um vinculo suficientemente forte para enfrentar uma sociedade que os deseja como consumidores. Consumidores de drogas, de roupas, de carros, e ate consumidores de si mesmos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Concluir será uma pretensão demasiada. Buscarei, porém, indicar algumas questões que estão sugeridas nessa fala.
O momento pelo qual estamos passando nos oferece o abandono de alguns conceitos fundamentais ao equilíbrio humano e social. Parecemos entender que a coexistência de valores oriundos do passado (podemos aqui entender, da família) não seriam adequados às exigências do mercado. Mas, ai reside o desafio.
A preocupação com a alteração do centro de pulsação da vontade, do desejo, do sujeito para a cultura, o que implica na transformação do sujeito em objeto, torna à discussão dos temas morais mais difícil.
Do mesmo modo, simplificar a ação sobre as drogas, num policiamento que impeça o uso, parece-me ser uma ação que desconsidera muito do problema.
O jovem de hoje, afastado das tradições, fora dos rituais, impelido para uma libertação da família onde há uma figura paterna fragilizada se contrapõe a uma mãe vacilante nas suas conquistas de autonomia,
defronta-se com uma sociedade que não lhe abre espaço e não oferece respostas as suas aspirações de realização e autonomia, enfim um jovem que reflete o fracasso do nosso projeto moral. Um jovem que talvez nos diga desse fracasso e talvez por isso só possamos nos aproximar desse jovem para corrigi-lo. Nesse estado só resta ao jovem, compreendo, submergir-se nas perdas que lhe foram inevitáveis, sem a tingir os ganhos que lhe foram acenados. Quais ganhos lhes prometemos? Falsos prazeres. Eis agora o verdadeiro sofrimento: Como afirmei acima, da esperança frustrada nasce uma tristeza extrema.
Quais foram nossas promessas: Boas escolas: as universidades decaem; Trabalho: o mercado de trabalho se reduz; Uma família estável: as relações afetivas se banalizam e se tornam efêmeras. Nesse particular, é interessante observar o uso do verbo ficar para significar, não um estado de permanência, mas, a transitoriedade de um contato afetivo-sexual. Prometemos relações seguras, experiências sensoriais reveladoras: A Aids atemoriza e torna paradoxal a liberdade sexual. Prometemos um Estado organizado para as necessidades da polis: as figuras de autoridade perdem prestigio, o homem público recebe o descrédito por uma promessa que nunca é cumprida e por uma palavra na grande maioria das vezes recebida como mentirosa.
Corrigir os equívocos com rigidez moral, não me parece inteligente.
A rigidez moral, ou seja, atribuir ao conceito a impossibilidade de envergamento, de flexibilidade, é um deslocamento do eixo do sujeito para o objeto. E o indicativo de que este modelo de pensar a condição humana da atualidade "está dando certo". Os conceitos são aquilo que quisermos que sejam, são mantidos pelo desejo humano — animais não têm conceitos morais, coisas não têm valores em si.
Sartre nos diz em Náusea: «A realidade é aquela pela qual o valor chega ao mundo. » E Nietzsche em «Para a Genealogia da Moral» : «Precisamos de uma crítica dos valores morais, devemos começar por colocar em questão o valor mesmo desses valores. Isto supõe o conhecimento das condições e circunstâncias de seu nascimento, de seu desenvolvimento, de sua modificação (a moral como conseqüência, sintoma, máscara, doença, mal-entendido, mas também como causa, remédio, estímulo, empecilho ou veneno), enfim, um conhecimento tal como nunca existiu até o presente e como nem mesmo se desejou. »
A moral não é uma exigência de fora para dentro, mas sim, de dentro para fora. Ela nada mais é que a manifestação dos desejos individuais tornados normas equacionadas racionalmente visando a regulação das relações no coletivo.
Uma sociedade que olha para seus pares como consumidores, passíveis de manipulação das suas vontades, e não como sujeitos que se manifestam segundo suas individualidades, transforma educação num treinamento para a vida, num shopping Center. Lembrá-los que têm o controle das suas vidas é restringir a noção de controle somente ao que se pode fazer com o volume do rádio ou a quantidade de água que sai pelo chuveiro.
Assim, posso pensar que não há outro lugar mais favorável para a recuperação desses valores e, conseqüentemente, para a reflexão sobre as drogas, que a Escola. Penso ser fundamental dirigir investimentos, tanto financeiros como emocionais, para a carreira docente. E preciso reconhecer que quem estará com o jovem é alguém submetido às mesmas condições sociais, que também se sente desamparado, mas que afortunadamente guarda em seu intimo uma sensação de proteção que lhe foi oferecida pela experiência com o próprio desejo, mas que nem por isso está imune às ações dessa objetalização da vida.
Por fim, considero importantes todas as iniciativas que abordem a vida humana, em quaisquer de suas faces, desde que estejam acompanhadas da preocupação em se reverter o quadro onde o homem perde o contato com seu desejo e torna-se objeto da cultura que ele mesmo constrói sem se perceber como co-autor.
Professor Wilson Klain Psicanalista e Supervisor Clínico, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae
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