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O toxicômano teria perdido a dimensão do sagrado? I
Enviado por Daniel em dom, 12/23/2007 - 00:05.
RESUMO: Em nossa sociedade moderna, o doente toxicômano é frequentemente dividido pelo dualismo obsessivo de nosso sistema de pensamento e de tratamento (dualidade psicossomática) que pretende confiscar-lhe o gozo da « falta de juízo ». Diante deste discurso, as sociedades tradicionais propõem uma outra concepção mais totalizante do sujeito-sofredor. Corpo, espírito e espiritualidade constituem um todo.
Através a apresentação sumária de um dispositivo original de tratamento da toxicomania baseado em uma aliança entre a medicina moderna e a medicina tradicional dos curandeiros amerindianos da região do Altiplano peruano, o autor se interroga sobre o caráter « sagrado » ou transcendente da conduta toxicomaníaca e tenta dezenhar os contornos de uma prática institucional e clínica que leve em conta esta dimensão.
Palavras-chaves: toxicomania - sagrado- transcendência - medicina tradicional - instituição.
"O desconhecido encontra-se nas fronteiras das ciências, onde os professores devoram-se entre eles, como disse (...) É geralmente nestes domínios mal separados que residem os problemas urgentes ...É neles que devemos penetrar...primeiro porque sabemos que não sabemos, e porque possuimos o senso da quantidade dos fatos ",
Marcel Mauss.
"Os alucinógenos não encerram uma mensagem natural cuja noção própria aparecesse contraditória : são desencadeadores e amplificadores dum discurso latente que cada cultura possui em reserva e cuja elaboração vai ser possivel ou facilitada atravès das drogas"
Claude Levi-Strauss
LIMINAR
O que caracteriza (entre entre outras coisas) o mundo que nos cerca (Ferry, 1996), é precisamente que existimos segundo um projeto no qual as Ações nele ralizadas (todas as atividades exercidas nas coisas e nas pessoas que constituem a conduta da vida) têm uma certa significação. Contudo a questão do senso destes projetos que dão senso, escápa-nos, ultrapássa-nos. Com efeito, refletir sobre o senso, é refletir sobre a Vida, a própria existência, por conseguinte é interrogar-se sobre a questão da transcendência. Dito de outra forma, para retomarmos a linguagem da fenomenologia, « a transcendência dentro da própria imanência »: eu tenho em mim (imanência) o sentimento constringente do « fora de sí». O senso da vida está assim estreitamente ligado à noção de sagrado na medida em que ele contém os valores mais profundos da existência como a vida e a morte. A existência humana, tirado o seu sentido, só pode perder-se nos meandros da psicopatologia. O toxicômano teria perdido a dimensão do sagrado? Ele teria renunciado à existência?
« MODIFICAÇÕES » DO QUADRO DO PENSAMENTO
Na nossa sociedade atual, o doente toxicômano é frequentemente « retalhado »pela dualidade obsessiva de nosso sistema de pensamento e de tratamentos (dualismo psicossomático) que pretende - devemos reconhecer- confiscar-lhe o gozo da autodestruição ou do« desarrazoar ». Quando ele ultrapassa com estrépido a barreira do « senso comun » ou da « réalidade comum », é frequentemente para escapar a uma existência sem projeto, a um presente angustiante, perdido no azáfama cotidiano.
A droga viria modificar os estados da consciência, abrir a porta aos espaços psíquicos vividos como dilatados, ao mergulho « trans-pessoal » (« estados não ordinários da consciência » segundo Grof, 1996) geralmente incontrolados e perigosos. O doente toxicômano é então atingido na sua própria sagração, ele é de « maneira anormal encadeado no fundo dele mesmo » (Palem, 1997). O que ele encontrou nisso, quando o acolhemos, é bastante contraditório porque o tratamento que lhe propomos, mesmo que seja o mais « acolhedor », só faz « cortar» a parte da « razão» que é a dele na medida em que seu mal é uma «contradição» (Hegel) no meio da razão. E, sobretudo, ele nega, negligencia a experiência espiritual ou o trabalho de iniciação que o produto permite. Um poeta do Século XIX, Gérard de Nerval, mostrou-nos esta extraordinária contradição :
« Eu vou tentar ...transcrever as impressões de uma longa doença que se desenrolou inteiramente nos mistérios de meu espírito ; e eu não sei porque me sirvo deste termo doença, porque nunca, no que me diz respeito, sentí-me tão bem. As vezes, eu pensava que a minha força e a minha atividade duplicavam ; parecia-me tudo saber, tudo compreender ; a imaginação trazía-me delícias infinitas. Ao recobrar o que os homens chamam razão, devo lastimar tê-la perdida ?» (p.695). E mais adiante: « A partir do momento em que este ponto me deu a certeza de que eu estava submisso às provas da iniciação sagrada, uma força invisível entrou no meu espírito ».
Esta indução de novas percepções se pratica geralmente de maneira solitária e anárquica (em particular nos usos quotidianos de drogas),nos pseudo-rituais (« iniciações selvagens » realizadas dentro de espaços profanos »), como se o doente toxicômano viajando « sem nenhum mapa » nem ponto de orientação, se entrincheirasse no esquecimento: primeiro o esquecimento de si mesmo porque ele está inteiramente dentro do « mundo-outro », segundo a fórmula sugerida por Perrin (1992) ; em seguida ele esquece o Tempo (« tempo do mundo »que torna viável a possibilidade « de ser » mas também a experiência da alteridade ). Num tal momento de « esquecimento », é fora de questão que o doente toxicômano possa se realizar (é impossível para ele abrir o tempo onde pudesse estar presente em seu passado e em seu futuro) e se compreender, isto é dar sentido, existir num projeto de mundo. Em seguida ele esquece que participa ao concerto do Universo, ao jogo do divino, ao Mistério da vida e que ao pretender ter acesso à exaltação divina sem nenhuma preparação, - sabemos que o doente experimenta com a droga um novo estado mental qualificado de « numineux » (do latim « numen », « divino ») dotado de um caráter sagrado, mistura de sentimentos ao mesmo tempo de fascinação (fascinans) e de terror (tremendum) - , ele risca de seguir o destino de Prometeu (personagem da mitologia grega, aquele que rouba o fogo celeste e deve pagá-lo, preso em um rochedo, o fígado devorado por uma águia ). Esquecimento pois da sensação traumática do ritual, de um desejo de divino que não procurasse talvez ser reconhecido mas reconhecer.
UM EXEMPLO DO SABER TERAPÊUTICO TRADICIOANAL AO SERVIÇO DO DOENTE TOXICÔMANO
Tratar-se-ia para o doente toxicômano em busca de sensações fortes de atingir uma verdade e um gozo mais além do humano (dimensão espiritual da existência), nos limites da vida e da morte. Segundo a perspectiva aqui adotada, a abolição dos limites entre a vida e a morte, a ordália são procuradas pelo sujeito que se confronta à morte para sustentar o seu desejo até o extremo limite. A funcionalidade adicta procuraria obter neste caso, de maneira paradoxal, uma tentativa de adaptação do sujeito ao mundo que o cerca, à manutenção do sentimento de identidade. Do ponto de vista fenomenológico, este comportamento, similar aos modos de ser sagrados do homem das sociedades « tradicionais » (Eliade, 1965) é observado em alguns aspectos dentro de nossa sociedade moderna. Para limitarmo-nos aqui a um único exemplo : a cultura da rave ou do transe por meio do uso intensivo de alucinógenos. Estas noites coletivas de espírito tribal, misturadas com aspectos rituais e de iniciação (Sueur, 1999 ; Vitebsky, 2001), utilizam procedimentos que modificam a consciência do adepto, permitindo-lhe viver experiências psíquicas pouco comuns, as vezes violentas e fulgurantes ligadas estreitamente à música. Com efeito, a música «tecnológica », com as suas luzes intermitentes, seus rítmos repetitivos, seus sons fortes e contínuos, permite uma efervescência, favorece uma comunhão com o sagrado isto é a sensação de estar em presença do « numen », com a natureza, o cosmos : « Eu volto em direção da luz dos potentes estroboscópios. O que foi que houve ? Em algumas dezenas de minutos , mais de duzentos rapazes (...)Eles estão vestidos, eles como algumas delas, com uma farda disfarçada de tipo militar , capotes com capucho de cor cáqui com largas « baggies », cujos modelos inspiram-se das calças dos mineiros ingleses. O crâneo raspado ou então bem penteado com longos cabelos trançados, eles dedicam-se uma dansa pessoal, uniforme, robotizada pelas litanias desta música hardcore, a qual, como o martelamento das pancadas africanas, conduzem-nos para o transe a mais de duzentas pancadas por minuto. Como nas cerimônias rituais, as drogas participam desta busca psicodélica. Lícita, ilícita, que importa a norma ... (...). Cada um rumina seu mundo, natural ou sintético, tenta abrir as portas das percepções prezadas pelo deus da alquimia, pelo pai do LSD, Sir Timothy Leary, e sonha sem porvir » (Colombié, 2001).
O transe (...) provoca um estado libertador. Você encontra-se num espaço de inspiração e de liberdade, tem a impressão de abandonar seu corpo. Apos todas essas experiências psicodélicas, eu sei que, em algum recanto do meu ser, existe um profundo desejo de reencontrar os estados paleolíticos que jà eram fontes de experiências hà milhões de anos. Devemos às plantas psicodélicas ter reunido a humanidade desenvolvendo um senso agudo do laço que une o homem ao planeta », Passagem (citada por Vitebsky) de uma entrevista do grupo The Shamen publicada em Actuel, janeiro-fevereiro 1993).
Mas o candidato ao transe ou às viagens interiores é frequentemente bloqueado, incapaz de gerar a experiência psicodélica (ou extática). Ora, esta « experiência limite » resta uma experiência sagrada (experiência « holotrópica »), carregada de « senso », reservada aos verdadeiros iniciados porque ela não tem nada de humano. Existe pois um lugar restrito e impressionante entre as observações resultantes da clínica do doente toxicômano e as descrições antropológicas dos ritos mágico-religiosos tradicionais. A ação psicoterápica ocidental deve ser doravante - para os que aceitam-na- repensada. O acompanhamento do doente toxicômano em seu trabalho de reconciliação (com si-próprio, o mundo e o Tempo) necessita da parte do terapeuta, uma rutura epistemológica com o seu « dispositivo técnico » e sua maneira de pensar (dispositivo que não é tão moderno como parece (Nathan, 1993 ; Ducousso-Lacaze, 2001), ou como um outro referencial clínico (ou conceitual) e terapêutico. Neste contexto, o terapeuta, acaparado pela necessidade de dar sentido, não pode deixar de se referir às«técnicas ancestrais » tradicionais que propõem ao doente toxicômano pelo contrário, o desafio duma verdadeira iniciação, um método empírico suscetivel de lhe dar acesso ao sentido profundo de sua existência transcendente « suas próprias concepções existenciais».
DO ESPAÇO PROFANO AO ESPAÇO SAGRADO »
Basta-nos aqui referirmo-nos infelizmente de maneira muito breve- a um dispositivo terapêutico original que propõe através de uma aliança entre a medicina moderna e a medicina tradicional, alternativas para o tratamento do doente toxicômano: refíro-me ao centro de reabilitação para doentes toxicômanos e de pesquisas sobre as medicinas tradicionais, o centro « Takiwasi »[1] («a casa que canta » em quechua) (Mabit, 1988) instalada em Tarapoto, na alta Amazônia peruana. Seu quadro de referência técnico-terapêutico repousa nas tradições do curandeirismo centradas num ritual cosmogônico. A base mesma do edifício terapêutico é representada pela utilização de uma planta, l'ayahuasca (Banisteriopsis caapi, classe natural das ï¢-carbolinas), liana com efeito psicotrópico. Esta « liana dos mortos » preparada em poção, permite ao doente toxicômano, o acesso ao « mundo-outro » isto é à experiência de um outro tipo de comunicação como o que o cerca, homens, animais, vegetação e mais além consigo mesmo, por uma ampliação geral das percepções (alucinações visuais , olfativas, auditivas,estéticas visuais, (percepções de contactos no corpo por exemplo) ou ainda cruzadas ( um som pode ser visto como um odor )) sem criação de uma conduta aditiva ou de dependência nem tão pouco de estado comatoso. O tratamento do doente toxicômano passa de maneira tradicional por duas fases: a primeira fase é aquela da « desintoxicação física ». O sujeito é então isolado inteiramente e durante cinco a dez dias, administra-se nele uma preparação vegetal vomitiva (Huancahui Sacha et Yawar Panga) afim de reduzir a síndrome de desmame (ritual de purificação). Esta difícil etapa leva a uma segunda fase, fase mais lenta de « desintoxicação psíquica». Os terapeutas são eles mesmos iniciados, constituidos, principalmente, por um curandeiro étnico-botânico (« curandero »), de três assistentes terapeutas indígenas, de um médico para a parte biomédica e de um segundo para a parte psicológica e étnico-médica vão se « situar» como partenários existenciais junto aos doentes toxicômanos ( a ayahuasca é antes de tudo uma experiência comunitária ) e interagir em níveis distintos pela utilização de plantas por seus efeitos psicotrópicos (elas induzem uma auto-análise por meio de estados de relaxação, de remmemoração de lembranças antigas surgindo no decurso dos sonhos noturnos ou acordados) ; um contexto de dinâmica de grupo pela utilização de técnicas modernas como o sociodrama, a expressão corporal,a musicoterapia, a ergoterapia etc. ; e um trabalho de psicologia (psicoterapias individuais) mas sempre numa relação de respeito com o universo da floresta ( a floresta representa para os indígenas, um cosmos sacramentado, um universo vivo onde todas as plantas possuem um espírito, uma alma, uma mãe, (madre) que os anima).
REFERÊNCIAS :
- Binswanger. L. Introduction à l'analyse existentielle. Paris : Editions de Minuit ; 1971.
- Chaigneau. H. Ce qui suffit. Réflexions surgies de la fréquentation au très long court de quelques schizophrènes. L'Information psychiatrique 1983 ; vol 5, 3.
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- Costa Jorge, Silva Alberto : « Présent du passé, présent du présent, présent du futur en psychiatrie » - In Pichot P, Rein, W : L'approche clinique en psychiatrie - Le Plessis-Robinson, Les Empêcheurs de tourner en rond, 1999.
- Ducousso-Lacaze. A. Nos psychothérapies sont-elles modernes ? L'Evolution Psychiatrique 2001 ; 66 : 516-26.
- Eliade. M. Le sacré et le profane. Paris:Gallimard ; 1965.
- Ferry. L. L'homme-dieu ou le sens de la vie. Paris : Grasset et Fasquelles ; 1996.
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- Grof. S. Psychologie transpersonnelle. Monaco : Editions du Rocher ; 1996.
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- Mabit. J. L'hallucination par l'ayahuasca chez les guérisseurs de la haute-amazonie péruvienne (Tarapoto).Institut Français d'Etudes Andines, Lina; 1988.
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- Vitebsky P. Les Chamanes. Le grand voyage de l'âme. Forces magiques. Extase et guérison. Köln:Duncan Baird Publishers Ltd ; 2001 : 150-153.
Par M. Singaïny Erick J-Daniel
Psychologue clinicien
Service d'addictologie du Groupe Hospitalier Sud Réunion BP 350
97448 Saint-Pierre Cedex
Tradução : Eliezer de HOLLANDA CORDEIRO
Obtido em: pagina http://www.polbr.med.br/ano05/fran0505.php#3
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