RESUMO
Atualmente, um crescente interesse nasVeja teor alcoólico no sangue. práticas rituais indígenas, as quais se utilizavam de plantas com o intuito de se comunicarem com o mundo espiritual, tem sido observado. No Brasil, as seitas religiosas União do Vegetal (UDV) e Santo Daime, freqüentemente, fazem uso de um chá, preparado a partir das plantas Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis, que contém potentes alucinógenos em sua composição, como a harmina, a harmalina, a tetra-hidro-harmalina e a N,N-dimetiltriptamina (DMT). Verifica-se, no depoimento de usuários, que geralmente os efeitos tóxicos decorrentes do uso desse chá são subestimados e atribuídos ao processo de purificação da alma, pregado pela seita. Porém, em virtude da finalidade de uso estar se modificando, é importante ressaltar que a avaliação do potencial tóxico dessas substâncias ainda não está totalmente esclarecida e merece maior atenção, principalmente por parte dos profissionais da área da saúde.
Unitermos: Ayahuasca; Banisteripsis caapi; Alucinógenos; Plantas.
ABSTRACT
Banisteriopsis caapi: hallucinogenic action and ritual use
Presently, a growing concern in indigenous ritual practices, which used plants to establish means of contact with the supernatural world, has been observed. In Brasil, members of the União do Vegetal (UDV) and Santo Daime currently use a beverage prepared from Banisteriopsis caapi and Psychotria viridis, that contains harmine, harmaline, tetrahydroharmine and N,N-dimethyltryptamine, which are potent hallucinogens. In the statement of users, the toxic effects are under-estimated and attributed to the spirit's purification. However, due to the modification of use's finality, it's important to emphasize that risk assessment is not completely enlightened and great attention must be done by the health professionals.
Keywords: Ayahuasca; Banisteriopsis caapi; Hallucinogens; Plants.
INTRODUÇÃO
Diversas plantas com propriedades alucinógenas têm sido utilizadas com finalidades místicas desde as antigas civilizações, apresentando um papel importante em ritos religiosos, principalmente de culturas primitivas1,2,4,7,8. O alucinógeno permitia ao curandeiro comunicar-se com o mundo espiritual, realizar cura, fazer adivinhações e orientar a tribo nas estratégias de guerra3,8,11. Também em algumas culturas, para os adolescentes ingressarem na vida adulta, estes passam por provações que incluem o uso de plantas ou preparados alucinógenos, como o "Epená" (Virola calophylla Wars), que é ilustrado no filme "Floresta das Esmeraldas"3,11. Poucas são as culturas no hemisfério ocidental que não utilizaram alucinógenos em suas cerimônias3. A explicação dos efeitos dessas plantas no transporte da mente humana a regiões etéreas ainda hoje é atribuída ao autoconhecimento, aos contatos com o mundo espiritual, divindades e outras forças4,8.
A busca da autotranscendência por meio das drogasUm termo de uso variado. Em medicina, refere-se a qualquer substância com o potencial de prevenir ou curar doenças ou aumentar o bem estar físico ou mental; em farmacologia, refere-se a qualquer agente químico que altera os processos bioquímicos e fisiológicos de tecidos ou organismos. Portanto, droga é uma substância que é, ou pode ser, incluída numa farmacopéia. Na linguagem comum, o termo se refere especificamente a drogas psicoativas e em geral ainda mais especificamente às drogas ilícitas, as quais têm um uso não médico além de qualquer uso médico. As classificações profissionais (por exemplo: “álcool e outras drogas”) normalmente procuram indicar que a cafeína, o tabaco, o álcool e outras substâncias de uso habitual não médico sejam também enquadradas como drogas, na medida em que elas são consumidas, pelo menos em parte, por seus efeitos psicoativos. é o método mais direto para permitir ao homem liberar-se dos limites de sua existência e entrar, temporariamente, em mundos fascinantes, abertos pelos alucinógenos3.
Atualmente, verifica-se que no ritual de algumas seitas, como na União do Vegetal (UDV) e no Santo Daime, o uso de plantas é bastante difundido e culturalmente aceito. Fundamentadas em direito constitucional de liberdade de culto e religião, não há restrições nessas seitas quanto ao uso de plantas sob o aspecto forense, além de que nada consta na "Lei 6368/76 _ Lei de entorpecentes" sobre os componentes das plantas utilizadas nessas seitas2,3.
Características do Bannisteriopsis caapi
O Bannisteriopsis caapi é uma parreira ou cipó gigante da família Malpighiaceae, nativa das zonas tropicais, na América do Sul e Antilhas, também conhecida como Ayahuasca, Yajé, Dapa, Miki, Natema, Kahi ou Oasca (caa = planta; pi = colorido)8,10,11. Esta planta é usada em rituais indígenas, nos quais é produzida uma bebida alucinógena, que, quando ingerida, segundo seus usuários, "libera a alma de seu confinamento corporal"11.
No Brasil, as seitas religiosas União do Vegetal (UDV) e Santo Daime fazem utilização de uma "beberagem" (chá) desta planta, fundamentadas em tradições indígenas2. Segundo seus princípios filosóficos, a UDV tem como instrumento de transmissão aos homens "uma prática ordenada pela força superior no sentido de ensiná-los a se conduzir sobre a terra". Nestes ensinamentos, a luz ao espírito humano vem pelo efeito da ingestão do chá.
Figura 1. Banisteriopsis caapi _ cipó gigante utilizado na preparação do chá, que contém substâncias alucinógenas.
Figura 2. Psychotria viridis _ planta da família Rubiaceae utilizada na preparação do chá.
O chá é feito de uma preparação de Banisteriopsis caapi, geralmente associado à Psycotria viridis (Figuras 1 e 2)4,6,7,8,10. O B. caapi apresenta alcalóides betacarbolinas que são potentes inibidores da enzima monoaminoxidase (MAO). Dentre estes, os de maior concentração são: a harmina (também conhecida como telepatina), a harmalina e a tetra-hidro-harmina, enquanto na planta P. viridis temos derivados indólicos, principalmente o DMT (N,N-dimetiltriptamina), que age sobre os receptores da serotonina2,3,10 (Figura 3).

Figura 3. Estrutura molecular do N,N-dimetiltriptamina e dos alcalóides harmala encontrados no Ayahuasca. A serotonina também está representada pela similaridade aos alcalóides indólicos.
A mistura das duas plantas potencializa a ação das substâncias ativas, pois o DMT é oxidado pela MAO, a qual está inibida pela harmina, acarretando um aumento nos níveis de serotonina, o que causa impulsão motora para o sistema límbico no sentido de aumentar a sensação de bem-estar do indivíduo, criando condições de felicidade, contentamento, bom apetite, impulso sexualA saúde sexual refere-se às áreas da medicina envolvidas com a reprodução humana e comportamento sexual, as doenças sexualmente transmissíveis, os métodos contraceptivos, anticoncepcionais, entre outros., equilíbrio psicomotor e alucinações3,10.
Mecanismo de ação
A DMT é um potente alucinógeno, porém é inativada quando administrada por via oral, provavelmente devido à desaminação pela monoaminoxidase (MAO) intestinal e hepática2,10. Sua ação ocorre sobre o receptor 5 HT1a e é antagonistaUma substância que neutraliza os efeitos de outra. Do ponto de vista farmacológico, um antagonista interage com um receptor para inibir a ação de agentes (agonistas) que produzem efeitos específicos, fisiológicos ou comportamentais, mediados por aquele receptor. do 5 HT2 5,9.
As beta-carbolinas possuem alta atividade como inibidoras da MAO (ação reversível) e são provavelmente alucinógenas10. No entanto, este mecanismo de ação não está totalmente esclarecido, pois existem poucos estudos sobre suas propriedades psicotomiméticas10. A harmalina possui efeitos de vasoconstrição, provavelmente por interagir com sítios de sódio na ATPase (Na/K)10.
A união dessas substâncias causa potencialização das propriedades alucinógenas, pois além da inibição da MAO pelas beta-carbonilas e conseqüente aumento de catecolamina, serotonina e norepinefrina, ocorre aumento da concentração de DMT que interage com os receptores desses neurotransmissores, aumentando as alterações psicotomiméticas2,9.
Principais efeitos
Os efeitos iniciais são caracterizados por vertigens, náuseas, vômitos intensos, diarréias, palpitaçãoO termo palpitação designa a sensação de consciência do batimento do coração, que habitualmente não se sente., taquicardiaTaquicardiaé um termo médico utilizado para designar um aumento da freqüência cardíaca. Convenciona-se como freqüência normal no ser humano uma freqüência coração entre 60 e 100 batimentos por minuto. A partir de 100, inclusive, considera-se que há taquicardia.Uma das formas de se classificar a taquicardiaé quanto ao mecanismo que a origina.
A taquicardia pode ser devida a variações normais do funcionamento do organismo, neste caso chamada deTaquicardia fisiológica, ou devida a alguma doença, neste casoTaquicardia patológica. , tremores, midríase, euforia e excitação agressiva3. Dentre os principais efeitos alucinógenos, temos as alucinações visuais de animais, a comunicação com divindades ou demônios, o vôo pelos ares a lugares distantes, dentre outros. É devido a esses efeitos que a mistura foi e continua sendo utilizada com finalidade mística e ritual3,8.
Depoimentos de usuários
De acordo com alguns depoimentos de seguidores da seita União do Vegetal, os efeitos manifestados são controlados e interrompidos quando necessário. Em um dos relatos, o usuário menciona trocar de corpo com um familiar e vivenciar uma discussão ocorrida dias antes. Segundo ele, isso permitiu que uma nova leitura do acontecimento fosse feita sob a óptica da outra pessoa.
Mesmo nos relatos indígenas, sair de corpo ou adotar outra forma (como, por exemplo, tornar-se uma águia, serpente ou outra pessoa) são efeitos freqüentemente relatados11.
Abaixo, temos dois depoimentos que mostram como os seguidores das seitas encaram os efeitos tóxicos do chá.
"Já conhecia o Daime como droga e um dia um amigo me convidou para participar da religião. Na primeira vez que fomos, tomei 4 a 5 doses (2 a 3 colheres de sopa, doses homeopáticas) durante o período de trabalho, que varia entre 6 e 8 horas. Na primeira vez, passei muito mal, com vômito excessivo, taquicardia, não conseguia manter-me em pé, tinha medo, não conseguia dormir, mas isso aconteceu porque eu havia caminhado muito e esses efeitos são um processo de limpeza do organismo. No dia seguinte, estava super bem, levinha, sentia a pele limpa, como se tivesse sido hidratada. A única vez que tive uma miração, senti-me voando, sentia flutuar acima do meu corpo, elevada acima das pessoas e sentia a presença na sala de pessoas que não estavam, com vestes reluzentes verde e branca. Nem todas as vezes vomito, isso só ocorre quando me desconcentro do hinário." KCT, 27 anos, vendedora.
"Fui convidado por um amigo a participar da seita, como religião, mas nunca tive miração. O vômito e a evacuação servem para dar uma limpada, o efeito do Daime é de um detergente natural. Você passa mal antes, mas, quando vomita, você acha "nossa, que legal" como se tivesse alguma impureza e ela fosse expelida. Para um problema no coração, fiz um trabalho de cura: colocava o chá aquecido num pano e punha direto sobre o coração, na pele, como uma compressa. Nunca mais o problema voltou, já faz mais de um ano". PCS, 32 anos, produtor de vídeo.
Por meio dos depoimentos, verifica-se que, na maioria das vezes, os efeitos tóxicos são subestimados e atribuídos ao processo de purificação da alma.
Discussão
O uso de alucinógenos em nossa sociedade merece uma atenção especial, principalmente se considera da a finalidade de uso. O que as pessoas procuram hoje em dia no uso dos alucinógenos não deve ser comparado aos objetivos dos povos indígenas. A massificação de cultos religiosos, nos quais se utilizam alucinógenos, turva a finalidade ritual dessas seitas. A situação atual de consumo, caracterizada pelo aumento dos seguidores das seitas e pelo provável uso inadequado da Ayahuasca, não possui as mesmas características buscadas anteriormente, mas, sim, as de um consumo abusivo, cuja finalidade é a alteração da percepção.
Apesar da extensa literatura sobre o assunto, permanece o mistério sobre o que leva um indivíduo a buscar "outra realidade" Por meio da utilização dos alucinógenos. Além disso, falta-nos conhecimento sobre essas substâncias que afetam a mente do ser humano de modo tão surpreendente.
Nos últimos anos, várias discussões sobre a permissão de substâncias alucinógenas, ou mistura de substâncias, em seitas religiosas, têm sido realizadas por profissionais de diversas áreas3. Podemos observar um aumento dos adeptos das seitas, da qual fazem parte a classe média, educadores, profissionais liberais, artistas e outros, onde a disseminação do uso do chá tem sido atribuída à ampla divulgação nos meios de comunicação. O direito constitucional de liberdade de culto e religião cria um impasse no que diz respeito ao risco de intoxicaçãoUma situação conseqüente à administração de uma substância psicoativa e que resulta em perturbações do nível da consciência, da cognição, da percepção, do juízo crítico, do afeto, do comportamento ou de outras funções e reações psicofisiológicas. As perturbações estão relacionadas com a substância através dos efeitos farmacológicos agudos e das reações aprendidas relativos à substância e desaparecem completamente com o tempo, exceto quando houver surgido lesões teciduais ou outras complicações. O termo é mais comumente utilizado em relação ao uso de álcool; seu equivalente da linguagem diária é “embriaguez”. A intoxicação pelo álcool manifesta-se por rubor facial, fala empastada, marcha instável, euforia, hiperatividade, volubilidade, perturbação da conduta, diminuição do tempo de reação, juízo crítico perturbado, descoordenação motora, insensibilidade ou estupor.A intoxicação aguda depende muito do tipo e da dose da droga e é influenciada pelo nível individual de tolerância e por outros fatores. Muitas vezes uma droga é consumida exatamente para se conseguir um grau desejado de intoxicação. A expressão comportamental de um determinado grau de intoxicação é fortemente influenciada pelas expectativas culturais e pessoais acerca dos efeitos da droga.Intoxicação aguda é o termo empregado na CID-10 para designar uma intoxicação com importância clínica (F1x 0). As complicações podem incluir traumatismos, aspiração do vômito, delirium, coma e convulsões, dependendo da substância e do método de administração.A intoxicação habitual (ou embriaguez habitual), expressão usada basicamente em relação ao álcool, designa um padrão regular ou recorrente de beber até à intoxicação. Tal padrão às vezes é considerado como um delito, independentemente de episódios isolados de intoxicação.Outros termos gerais para intoxicação ou intoxicado incluem: embriaguez, embriagado, estar alto, bêbado.Veja também:bebedor de rua; intoxicação. a que estão sujeitos os seguidores dessas seitas.
Devido à problemática acima discutida, surge a necessidade do desenvolvimento de estudos referentes à avaliação do potencial tóxico dessas substâncias, considerando, principalmente, a indução de tolerânciaUma diminuição de resposta a uma dose de determinada substância que ocorre com o uso continuado da mesma. No consumidor freqüente ou de grandes quantidades de bebidas alcoólicas (ou de outras drogas), por exemplo, são necessárias doses mais elevadas de álcool para alcançar os efeitos originalmente produzidos por doses mais baixas. Tanto fatores psicológicos como psicossociais podem contribuir para o desenvolvimento da tolerância, que pode ser física, comportamental ou psicológica. Com respeito aos fatores fisiológicos, pode desenvolver-se tanto a tolerância metabólica como a funcional, isoladas ou conjuntamente. Aumentando-se a taxa de metabolismo da substância, o organismo pode ser capaz de eliminar a substância mais rapidamente. A tolerância funcional é definida pela diminuição da sensibilidade do sistema nervoso central à substância. A tolerância comportamental é uma mudança no efeito da droga como resultado de aprendizado ou de alterações ambientais. A tolerância aguda é uma acomodação rápida, temporária, ao efeito de uma substância após uma única dose. A tolerância reversa, também conhecida como sensibilização, refere-se a uma condição na qual a resposta a uma substância aumenta com o uso repetido.A tolerância é um dos critérios para a síndrome de dependência., a síndrome de abstinência(F1x.3)Um grupo de sintomas de configuração e gravidade variáveis que ocorrem após a cessação ou redução do uso de uma substância psicoativa que vinha sendo usada repetidamente e geralmente após um longo período e/ou em altas doses. A síndrome pode ser acompanhada por sinais de alterações físiológicas.A síndrome de abstinência é um dos indicadores da síndrome de dependência. Também é uma característica distintiva do significado mais estrito do termo dependência.O início e o curso da síndrome de abstinência são limitados no tempo e são relacionados ao tipo de substância e à dose que vinham sendo usadas imediatamente antes da interrupção ou da redução do uso. Tipicamente, as características da síndrome são opostas às da intoxicação aguda.A síndrome de abstinência do álcool é caracterizada por tremores, sudorese, ansiedade, agitação, depressão, náusea e mal estar. Ocorre entre 6-48 horas após a interrupção do consumo de álcool e, quando não complicada, termina em 2-5 dias. Pode complicar-se por convulsões tipo grande mal e progredir para um delirium (conhecido como delirium tremens).As síndromes de abstinência de sedativos têm várias características comuns com a abstinência do álcool, mas podem também incluir dores musculares e espasmos, distorções perceptivas e distorções da imagem corporal.A abstinência de opióides é acompanhada de rinorréia (secreção nasal), lacrimejamento (excesso de formação de lágrimas), dores musculares, calafrios, arrepios e, após 24-48 horas, cãibras abdominais e musculares. O comportamento de busca da droga é proeminente e continua após a diminuição dos sintomas físicos.A abstinência de estimulantes (crash) não é tão bem definida quanto às síndromes de abstinência de substâncias depressoras do sistema nervoso central; a depressão é proeminente e acompanhada por mal-estar, inércia e instabilidade.Veja também:ressaca.Sinonímia: estado de privação; reação de abstinência; síndrome de privação ou o desejo compulsivo, até o momento não determinados. Além disso, por serem os alcalóides presentes na Ayahuasca potentes inibidores da enzima MAO, estes podem desencadear sérias reações adversas quando combinados com outra medicação, como os inibidores específicos da recaptação de serotonina, podendo levar ao desenvolvimento da síndrome serotoninérgica2.
REFÊRENCIAS
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Autores:
Silvia O. S. Cazenave
Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas, Faculdade de Ciências Médicas, Curso de Ciências Farmacêuticas, Puccamp.
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Comentários
BOA NOITE, ANDANDO NOS
BOA NOITE,
ANDANDO NOS ARREDORES DA CIDADE DE URUCARA NO AMAZONAS,ENCONTREI UM IGARAPÉ POR NOME DE APII . SEGUNDO UMA ENCICLOPEDIA ANTIGA A PLANTA APII E A MESMA CAAPI. VERDADE?
UCHOA249@GMAIL.COM
Considerações
Compreendo que o artigo contempla a toxicologia da ayahuasca, mas está desatualizado nesse quesito, tem uma base de dados empírica reduzida, que aparentemente serve apenas ao propósito expressamente pouco estatístico de enviesar a opinião de leitores desprevenidos. Basta buscar mais pesquisas científicas disponibilizadas na internet acerca da ayahuasca e perceber o que digo.
Fiz o uso da substância uma única vez, em um ritual "tradicional" do Santo Daime, que, na minha opinião, de tradicional não possui nada, confrontada a pouca idade dessa religião com o da bebida - cerca de 2000 anos antes de cristo. Respeito a atribuição cultural ao vômito como "limpeza" segundo os daimistas, afinal em sociedade todos temos nossos ritos e crenças, quase sempre automáticos e imperceptíveis; mas a realidade é que a causa do regurgitar reside, em geral, no gosto péssimo do chá, cuja consistência e sabor mais se assemelham aos de um vinho licoroso avinagrado. Havia cerca de 60 pessoas, uma vomitou. Pelo que ouvi no local, o vômito ocorre em poucos dos "iniciandos". Não foi o meu caso.
Quanto às "alucinações", são bastante subjetivas, variam com a religiosidade e vida do indivíduo. Definitivamente, são muito significativas para serem reduzidas ao descaso inerente a essa palavra. Cultivo uma religiosidade pessoal baseada em relações e decisões éticas, o chá fez com que eu entrasse em um confronto comigo mesmo de modo muito mais intenso do que anos de terapias psicológicas tradicionais. A maioria das pessoas conhece-se pouco e apropria-se de uma etiqueta equivocada para com o próximo; em massa isso torna-se bastante evidente pelo atual estado do mundo. A experiência que tive com a ayahuasca me ajudou muito nesse sentido. Pouco interessa o credo, o efeito é definitivamente terapêutico, do contrário não haveria psiquiatras renomados utilizando a substância, alguns há décadas. Aliás, milhares de pessoas já a utilizam há décadas, indivíduos equilibrados e bem estabelecidos, seria interessante pesquisá-los de um ponto de vista estritamente científico.
É impossível o uso da ayahuasca funcionar apenas como alterador da percepção, o fato de ter-se tornado "massivo" definitivamente não serve à conclusão proposta. A ayahuasca não é recreativa como LSDVeja alucinógeno., além de apresentar composição química completamente diferente. Sei que a cultura médica é bastante alheia e por vezes desdenhosa à psique do indivíduo; mas, sejamos razoáveis, não é preciso ser um gênio para compreender que uma experiência que faz com que se lide diretamente com os sonhos, medos e problemas pessoais de forma amplificada situa-se muito longe da esfera decadente do "drogar-se". Todas as pessoas que utilizam a ayahuasca passam por isso, e é necessário ressaltar que pouca gente teria força psicológica para passar por essa experiência de novo; gera-se muita coisa em que pensar antes. Há pessoas que o fazem uma ou duas vezes por mês, mas faz dois anos e ainda me preparo para uma segunda vez.
A relação da síndrome serotoninérgica e outras desordens com a ayahuasca está bem explicada. É preciso bastante descuido para usar medicamentos ou comer alimentos que, em combinação com a ayahuasca, possam causá-las. Problemas de interação medicamentosa ocorrem muito mais frequentemente, ou mesmo de efeitos colaterais alopáticos.
Lembremos que, se a ayahuasca fosse uma substância tão perniciosa, após "massificada", deveria ter causado mais mortes que o álcool ou mesmo medicamentos. O álcool é ingerido para fins não espirituais e onde for, a pessoa pode embriagar-se e fazer muitas atrocidades, como registrado em milhares de casos, ao contrário da ayahuasca, utilizada por grupos fechados para fins espirituais. O álcool comprovadamente destrói milhões de neurônios, enquanto a ayahuasca só pode vir a fazer algum mal se associada a determinadas substâncias.
Não permanece um mistério o que faz o indivíduo buscar "outra realidade", justamente porque a literatura já é de fato bastante extensa, e a realidade não é tão "outra" assim: Para a maioria das pessoas, ainda é pavorosa a idéia de conhecer intensamente melhor a si mesmo.
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