A prevenção ao abuso de drogas em uma abordagem interdisciplinar

  


A demanda por um projeto que levasse informações sobre drogas e que, a partir delas, pudesse ter uma abordagem preventiva junto aos alunos do 1° ano do Ensino Médio surgiu da comunidade escolar, especialmente dos pais dos alunos. Acreditamos que muitos destes se sentem despreparados para discutir com seus filhos temas especialmente vinculados às vivências juvenis e que abarcam questões de saúde, sexualidade e comportamentos de risco. É de se pensar que o trabalho escolar poderia colaborar na reflexão sobre estes temas.

Em cerca de cinco décadas, a escola vem acumulando papéis: partiu de atribuições de caráter quase que estritamente didático-pedagógica, ou seja, o ensino dos conteúdos mais convencionais, e acompanhou uma série de transformações sociais do país em direção a uma redefinição de suas atribuições diante da sociedade. O debate acerca das metas de uma nova escola colocou em foco a promoção da cidadania, o fomento à consciência crítica, a instrumentalização para o trabalho, ou para o vestibular, e o desenvolvimento biopsicosocial do aprendiz. Diante destas demandas, que foram se somando ao contexto escolar, têm surgido questionamentos sobre a especificidade da ação pedagógica, seus limites e possibilidades. Podemos pensar em simplesmente somar estas novas atribuições ou em assimilá-las dentro uma reorganização curricular que elegeria prioridades. A proposta objetivada neste artigo se vincula à segunda vertente, ao sugerir que o tema drogas seja desenvolvido nos cursos especiais que a Escola da Vila criou em sua grade curricular para o Ensino Médio, a chamada Integração, atualmente subdividida nas três áreas: Ciências Humanas, Ciências Naturais e Códigos e Linguagens.

Desenvolvimento

A adolescência é uma fase de descobertas, transformações e crises, em que a vulnerabilidade a situações de risco surge com certa freqüência. Os adolescentes vivem marcantes perdas referentes às mudanças psicobiológicas e aos seus papéis dentro do contexto familiar, escolar e social, enquanto vislumbram várias possibilidades de realizações futuras. Nestas circunstâncias, suas angústias e anseios somados à busca de identidade e às experimentações de tais possibilidades tendem a levar os adolescentes a integrar grupos de diversos perfis, dentre estes, aqueles que fazem uso de drogas.

Pesquisa realizada pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas (CEBRID), em 1997, revela que, até os 18 anos, cerca de 25% dos adolescentes entrevistados já havia consumido alguma droga psicoativa (excetuando-se álcool e tabaco); tal número sobe para 32% entre os maiores de 18 anos. Sendo a escola um espaço em que tais dinâmicas de grupo ocorrem de maneira intensa e plural, podemos também legitimá-la como ambiente social adequado para levantar e problematizar o tema das drogas e desenvolver estratégias de informação e orientação para uma educação preventiva. Sabemos que na sociedade, assim com na escola, o mundo adulto carrega representações diferentes acerca do uso de drogas, embora acreditemos que há um consenso sobre as situações de abuso, nas quais o adolescente tem suas relações sociais e seu desempenho escolar fortemente comprometidos.

Nesta intenção educativa sobre a drogadição, não se trataria, no entanto, de apenas expor aos alunos informações objetivas, que contemplem os efeitos e os riscos para a saúde que as chamadas substâncias psicoativas podem causar a curto ou longo prazo. Sabe-se hoje que somente a contribuição científica das diversas áreas do conhecimento não é suficiente para sensibilizar os jovens perante a complexa relação dos fatores envolvidos no consumo de drogas, os quais transitam entre o plano individual e o coletivo. Desta forma, é importante notar que o conhecimento científico das drogas, em particular aquele advindo das ciências naturais, é necessário, porém não é suficiente para uma abordagem que pretenda ter um caráter preventivo. Nesta perspectiva é que o tema poderia assumir um caráter interdisciplinar e, daí, constituir um eixo que não apenas integrasse diferentes componentes curriculares, mas que também buscasse uma ação conjunta dos pais, professores, orientação educacional e funcionários.

Considerando a nossa primeira experiência com a discussão do tema em 2006, constatamos uma variedade de informações, às vezes divergentes, trazidas pelos alunos, ao lado de perguntas que revelam a multiplicidade de fontes em que estão imersos: televisão, cinema, música, internet, imprensa.

Muitas vezes, os alunos demonstraram argumentos contraditórios ou pautados em perspectivas restritas sobre do tema. Outros demonstraram falta de informação ou ainda um aparente receio para adentrar à discussão. Julgamos que a análise, o confronto e a ampliação destas informações sejam importantes para que os alunos possam desenvolver a capacidade de avaliar criticamente o fenômeno da drogadição.

A perspectiva piagetiana sobre o desenvolvimento moral nos coloca a idéia de que a criança progride de uma fase heterônoma a uma autônoma. Na primeira, a criança situa-se em uma condição egocêntrica caracterizada pela dissociação do eu e o meio social.

Ela não compreende o significado das normas de conduta, apenas reage a elas, ora aceitando-as como forma de evitar punições ou garantir recompensas, ora transgredindo-as com maior ou menor influência de um cálculo de riscos. A simples imposição das normas e punições por parte dos adultos dificulta a passagem a uma dinâmica de autonomia, na medida em que limita a liberdade de escolha da criança e reforça suas relações infantis com a norma. Já na fase autônoma, a criança estabelece com os limites uma relação que pressupõe a compreensão da origem destes, não apenas para garantir o seu próprio bem-estar, mas também o do outro. Pensamos que o contato do jovem com diversas informações sobre as drogas, aquelas provenientes da mídia e outros meios informais, e também as que são sistematizadas no âmbito escolar, possam contribuir para a construção de uma visão autônoma acerca dos limites existentes para o uso de drogas, sejam os limites advindos da lei, da norma social ou do conhecimento científico.

Acreditamos, enfim, que informações integradas e o desenvolvimento da autonomia de julgar possam contribuir na prevenção ao abuso de drogas.

Os diversos modelos de prevenção, ao nível escolar, compõem um quadro revisto, a partir da literatura internacional, por Beatriz Carlini-Cotrim e Ilana Pinsky. De modo abreviado, os modelos podem ser agrupados segundo as abordagens:

  1. 1) Modelo de modificação das condições de ensino: Defende que a vivência escolar, desde a educação infantil, é fundamental para o desenvolvimento sadio do adolescente. A ênfase recai na formação global do jovem, em que a prevenção ao abuso de drogas é uma de suas intenções, ao lado da prevenção à delinqüência e às patologias mentais. Como ação propõe-se: técnicas de ensino mais prazerosas, melhoria na relação professor-aluno, maior participação da comunidade nas decisões estruturais, incentivo à cooperação e solidariedade, oferecimentos de serviços de saúde, participação dos pais na vida acadêmica de seus filhos.
  2. Modelo do estilo de vida saudável: A estratégia central deste modelo é promover estilos de vida associados à boa saúde, à alimentação balanceada, a exercícios físicos, à vida sexual segura. Inclui-se o tratamento de temas mais gerais, como poluição trânsito, substâncias cancerígenas e perigo nuclear.
  3. Modelo de oferecimento de alternativas: Entende o abuso de drogas como válvula de escape diante das tensões sociais. Procura propiciar aos jovens sensações de expansão da mente, crescimento pessoal, desafios e alívio do tédio por outros meios que não o consumo de drogas. Intervenções adotadas: formação de grupos para atividades culturais, esportivas etc. fora do horário escolar.
  4. Modelo de educação afetiva: Constitui-se de um conjunto de técnicas que visa melhorar ou desenvolver a auto-estima, a capacidade de lidar com ansiedade, a possibilidade de resistir às pressões do grupo. Defende que jovens mais estruturados psicologicamente são menos propensos ao abuso de substâncias psicoativas. Nesse modelo, a droga não é tratada como a questão principal, ela é apenas um dos tópicos tratados.
  5. Modelo do conhecimento científico: Propõe o fornecimento de informações sobre drogas de caráter imparcial e científico. A partir dessas informações, os jovens poderiam tomar decisões racionais sobre as drogas. As avaliações sobre esse modelo revelaram que grande parte dos jovens assimilou os conteúdos, mas que as mudanças de atitude são mais freqüentes quando estas informações se associam a outros modelos de intervenção.

Outros modelos, de menor interesse para este trabalho, são os denominados modelo da pressão positiva, modelo do aumento do controle social, modelo do princípio moral e modelo de amedrontamento.

Podemos identificar em algumas ações da Escola da Vila elementos associados aos modelos de prevenção descritos. A participação dos pais na escola infantil e no ensino fundamental, que incentiva um acompanhamento mais próximo das produções dos alunos, assim como a proposição de atividades que estimulam a sociabilidade e a solidariedade entre os alunos em toda escola ou a busca de canais para sua participação estariam vinculados ao modelo de modificação das condições de ensino.

Outro conjunto de ações tais como a valorização da saúde presente em várias abordagens da nutrição, hábitos alimentares e higiene nos três segmentos, ou o estudo das diferentes formas de poluição atrelado à conscientização sobre a importância do equilíbrio ambiental, ou ainda a discussão sobre os possíveis riscos decorrentes do uso de alimentos transgênicos, aditivos alimentares e da energia nuclear se vinculariam ao modelo do estilo de vida saudável.

As atividades esportivas, além de se associarem ao modelo anterior, também caracterizariam um dos elementos do modelo de oferecimento de alternativas. A este ainda poderíamos relacionar outras práticas como as atividades culturais ligadas à formação de grupos musicais ou teatrais, ao Festival de Poesia e ao Arte e Ciência, bem como a participação em ações sociais e no grêmio estudantil. A compreensão, por parte dos professores, da importância de incentivar a participação dos alunos em atividades desta natureza, bem como de considerar suas conquistas e produções, seria um forte estímulo ao modelo de prevenção considerado, ao lado do reconhecimento dos valores intrínsecos a estas práticas.

Já quanto ao modelo de educação afetiva, é comum os professores não deterem conhecimentos teóricos e circunstanciais sobre as variações pessoais e psicológicas de seus alunos para poder intervir. A ação mais direcionada aos aspectos pessoais da auto-estima, do controle da ansiedade etc. se enquadra no âmbito da orientação educacional em parceria com a família. Um diálogo entre professores e orientadores pode, em decorrência dos encaminhamentos, aliar este modelo de intervenção àqueles outros em que tais alunos estão envolvidos sob supervisão do corpo docente.

Para além destas atividades, o modelo do conhecimento científico é o referencial para a sugestão de trabalho que fazemos para 2007. Como já dissemos, consideramos que seja valoroso o planejamento de uma seqüência didática sobre o abuso de drogas que integrasse as três áreas de conhecimento do Ensino Médio.

Na área de Ciências Naturais, seria feito o estudo dos principais tipos de drogas, sejam lícitas ou ilícitas, seus modos de ação, efeitos agudos e crônicos e os riscos derivados do abuso e da dependência.

Nas áreas de Ciências Humanas e Códigos e Linguagens, se abordariam os aspectos sociais e culturais tais como a historicidade, as drogas em culturas diversas, os vínculos entre economia, violência e o narcotráfico, a correlação entre a liberdade de escolhas e o bem-estar coletivo, questões éticas, conceitos psicológicos acerca da normalidade e loucura, a representação das drogas nas artes e na literatura, a sua relação com a criatividade, entre vários outros aspectos.

Em suma, consideramos que uma estratégia de prevenção ao abuso de drogas deva ter como princípios a valorização à vida e a promoção da qualidade de vida, dentro de uma ação educativa continuada que pressupõe o processo de construção da autonomia do adolescente. A elaboração de uma seqüência de estudo sobre o tema nos parece bastante importante e viável, considerando todas as práticas já desenvolvidas e a consonância entre os princípios desta proposta e aqueles que norteiam as metas globais da escola.

  1. Bibliografia AQUINO, J.G. – 1998. A Escola e as novas demandas sociais: as drogas como tema transversal. In: AQUINO, J.G. (org.) – Drogas na Escola: Alternativas Teóricas e Práticas. São Paulo: Summus
  2. BOUER, J. E TOZZI, D. – 1998. Prevenção também se ensina? In: AQUINO, J.G. (org.) – Drogas na Escola: Alternativas Teóricas e Práticas. São Paulo: Summus
  3. CARLINI-COTRIM, B. – 1998. Drogas na escola: prevenção, tolerância e pluralidade. In: AQUINO, J.G. (org.) – Drogas na Escola: Alternativas Teóricas e Práticas. São Paulo: Summus DE LA TAILLE, Y. – 1998. Limites: três dimensões educacionais. São Paulo: Ática SOUSA, P. M. L – 2006.
  4. Desenvolvimento moral na adolescência. Disponível em http://www.psicologia.com.pt/artigos/textos/A0296.pdf. Acesso em 22/out/06.