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Questões Éticas e Morais do Conceito de Drogadição.
Enviado por Daniel, seg, 12/03/2007 - 04:50
Resumo O objetivo deste trabalho é levantar questões acerca do papel do conceito de drogadição na sociedade contemporânea. Esta análise é baseada no estudo que está sendo conduzido pela pesquisadora sobre drogas, gênero sexual e imaginário social. O intuito é de expor alguns fundamentos morais dos discursos em torno da adição e abrir espaço para outras formas de entendimento deste conceito. Como a psicanálise contribuiria para esta discussão? Duas frentes se abririam, uma da própria postura ética da clínica e a outra de alguns insights proporcionados pela teoria psicanalítica no entendimento da droga no seu contexto atual. A partir destas considerações, pretende-se debater questões sobre lei, corpo, o "outro", refletindo sobre os paradoxos e contradições éticas no âmbito jurídico e da saúde. Questões Éticas e Morais do Conceito de DrogadiçãoO objetivo desta apresentação é abrir espaço para discussão do papel do conceito de drogadição na sociedade contemporânea. O foco principal é resgatar as questões ético-morais do entendimento atual deste fenômeno. Quando drogadição tornou-se doença? Como um enfoque psicanalítico promoveria uma aproximação mais crítica a esta conceitualização? Ressaltando primeiramente alguns aspectos epistemológicos, a adição começou a ser entendida como doença nos meados do século XIX e leis com intenção de controlar e de erradicar o uso de determinadas substâncias psicoativas foram impostas no século XX (Berridge e Edwards 1982, Musto 1999, McDonald 1994, Escohotado 1998). Esta mudança no entendimento de drogas e adição, ocorreu em meio a uma atmosfera de pós-guerra, xenofobia, ascensão da medicina e questões político-econômicas, contribuindo para o fenômeno do medo da adição. Esta mudança teve seus alicerces morais nos ideais do Temperance movement e do protestantismo. E o tratamento, consequentemente, teria também elementos punitivos (Berridge e Edwards, 1982). Torna-se importante ressaltar que este alicerce moral, parece traduzir muito dos discursos atuais associados às drogas, adições e drogadictos (Szasz, 1975). No cenário contemporâneo, uma das conseqüências mais contundentes da intervenção da lei a partir de pressupostos médicos, é que todo usuário de drogas ilegais tem o status de criminoso, transgressor da lei. Ao nível discursivo, é possível apontar duas frentes deflagradas, no aspecto social, da "guerra contra as drogas" e ao nível individual o "diga não às drogas e sim à vida". Questões éticas emergem em torno destas frentes de batalha, numa primeira instância, em relação à guerra contra as drogas, parece interessante notar a tentativa de desintegração das dialéticas e a aniquilação de aproximações distintas das simples dicotomias bem e mal. Gurfinkel (1996) coloca esta questão de uma forma interessante, apontando à importância do entendimento do uso de drogas, do objeto-fetiche, e não a simples eliminação bélica do objeto tornado ‘coisa’. Por outro lado, ao levantar o slogan "diga não às drogas e sim à vida, análises clínicas apontam a incongruência desta equação, uma vez que o uso de drogas, não significaria necessariamente sim à morte, mas poderia estar apontando também a formas de lidar com a vida. "Drug cultures apresentam uma fascinação notável para uma estética relacionada à morte1". (Loose, 2002, p.144). Porém, "nenhuma delas necessariamente representa um desejo para morrer mas, ao invés, uma tentativa de desafiar a morte. A proximidade do drogado (junky) com a morte provê a fantasia de ser capaz de dominá-la2" (Loose, 2002, p.145). Analogia talvez também possível com o entendimento de self-harm, ressaltando o seu caráter ambivalente, uma vez que self-harm poderia estar relacionado à sobrevivência e não necessariamente suicídio (Spandler, 2000, p.179). Um dos pontos de questionamento deste trabalho é sobre quando adição torna-se problema. E para tanto, outras perguntas surgem, como: Toda forma de uso de substâncias psicoativas levaria a drogadição? Que usos seriam aceitos? Quais seriam os significados do uso de substâncias? Uma simples resposta para estes questionamentos, é o baseado no campo da saúde, que é o maior pilar discursivo a respeito das práticas de intoxicação. Neste sentido, qualquer uso de substâncias psicoativas seria impróprio, com exceção das prescristas. Porém, contradições emergem quando estudos apontam à grande quantidade de tranqüilizantes e outras drogas prescritas, ressaltando a alta taxa em idosos (Lopes, 1999) e em mulheres (Ettorre and Riska, 1995), o que leva a questionar outros pontos morais e o posicionamento frente à idade e gênero sexual. Ao mesmo tempo, é impossível ignorar a função da droga nas suas especificidades sociais, culturais e religiosas (Heath 1987, Mc Douglas 1987, Xiberras 1989, Mac Rae, 1998). Outras análises emergem a respeito da arbritariedade da escolha de certas drogas para serem erradicadas (Escohotado, 1998). "A droga torna-se remédio quando é disponível apenas para prescrição médica e qual é exatamente a diferença entre Prozac e ecstasy além do aspecto legal?" (Loose, 2002, p.209), pergunta referente ao efeito estimulante destas substâncias. Outro aspecto que poderia ser hipotetizado, é de como a interdição legal contribuiria também ao fenômeno atual da drogadição. Numa análise clínica, é possível levantar a questão do poder na transgressão da lei, do tornar-se um fora da lei, das formações de grupo, da sub-cultura e outros. Estes foram alguns dos aspectos emergentes nas entrevistas realizadas no Brasil com pessoas que utilizam drogas ilegais (recreacionalmente e continuamente). Desta forma, mais uma vez a mesma questão ressurge, quando drogadição é um problema ou mais especificamente, como se dá o entendimento de adição como doença? E como este problema poderia estar traduzindo alguns valores morais? Davies (1997) aponta o argumento discursivo da drogadição, que seria aquele em que pessoas não adictas teriam mais controle sob o seu comportamento do que pessoas adictas, e seriam portanto mais livres. Tal argumento discursivo, pelo reducionismo ligado a este, (colocado em oposição a indivíduos ‘não adictos’), traz à tona questões éticas e morais. Neste sentido, haveria o risco da patologização de indivíduos e da normatização do sujeito. Abrindo espaço portanto, à eleição de um bode escapatório e fortalecendo assim, a idéia do drogadicto enquanto "outro" ou vítima, adquirindo "as feições do anti-sujeito" (Roudinesco em Gianesi 2002, p.37). Por um outro lado, oscilando entre os julgamentos morais entre falta de caráter e doença, nas entrevistas aparecem algumas justificativas relevantes. Uma usuária de álcool enfatiza que tem uma doença e não falta de caráter, nesse sentido, frente a apenas duas opções: ‘doença’ e ‘falta de caráter’, poderia-se pensar em aspectos ambíguos destas opções discursivas (Por que estas opções? Estariam estas se opondo? Doença seria mais aceito socialmente? E como este conceito estaria sendo utilizado neste exemplo?). A entrevistanda enfatiza igualmente o apoio à idéia do alcoolismo ser uma doença hereditária. Refletindo sobre este argumento, este poderia estar encontrando seu fundamento na idéia do que é genético é legítimo. "É somente o desejo geneticamente determinado que merece respeito e proteção legal?" (Warner, 1999, p.10). Reconhece-se aqui o sofrimento do ciclo vicioso, porém, ressalta-se o uso do discurso utilizado para o que é legítimo e para o que é desmedido. Uma outra aproximação seria sobre o entendimento do uso de substâncias psicoativas enquanto hábito e parte integrante e estruturante dos rituais sociais, por exemplo o uso do álcool. No aspecto individual, um aspecto que emerge novamente, é da questão do controle (e suas possíveis ambigüidades), "o prazer da droga é viver sob a lei do hábito" (Burroughs em Olievenstein, 1989, p.18). Analogia mais uma vez possível com a experiência clínica de selfharm, que poderia ser entendida como uma tentativa do indivíduo em restaurar controle (Chantler, Burman, Bastleer e Bashir, 2001, p.36). Aqui poderiam surgir as questões do entendimento de hábito enquanto bom e mal hábito no discurso social, emergindo portanto, a dicotomia moral do bem e mal. Parece que nesse sentido, não haveria uma resposta unidimensinal, recobrando assim a dialética, ou os elementos paradoxais desta questão, como Derrida (1997) ressalta na Farmácia de Platão sobre o movimento dialético do pharmakon, como remédio e veneno. O que traria uma direção distinta para essa discussão. Que entendimentos portanto estariam sendo veiculados em relação ao pharmakon, que outros insights a psicanálise poderia oferecer? Numa primeira instancia, assinala-se o papel da psicanálise para o entendimento dos fenômenos sociais. Zizek (1999) aponta a psicanálise como um "tipo de meta-teoria do impasse da mordenidade" (p.86). Parker3 (2003) discorrendo sobre o debate entre Zizek, Laclau e Butler, ressalta a questão sujeito e sociedade no nível da representação, propondo que ao "invés de continuar a buscar uma teoria que estabeleça as relações de representação entre indivíduo e sociedade é necessário tomar esta relação problemática e insolúvel como ponto de partida constitutivo do campo social e do sujeito individual. O antagonismo entre individual e social torna-se então uma manifestação particular do impasse da representação e não sua força originária e definitiva. Zizek torna este ponto explícito em seu argumento contra Laclau, de que o antagonismo é ‘interno’ ao sujeito e ao social, e não algo que ocorre entre eles4" (p.2). Desta forma, é a partir deste intrínseco antagonismo que se pretende pensar alguns aspectos do discurso de adição. Poderia-se traçar portanto, dois caminhos basicamente, por um lado, de como algumas analogias baseadas na psicanálise ajudariam a contextualizar alguns dos discursos sociais, das normas reguladoras e de seus alicerces morais a respeito da drogadição. E por outro lado, de como a psicanálise em sua prática clínica desenvolveria uma aproximação em busca do sentido da droga para o sujeito e o que isto significaria em relação ao conceito de drogadição. Retornando aos entendimentos relacionados ao pharmakon, talvez aqui seja importante algumas definições sobre adição. Atraves da etimologia da palavra, encontra-se adição, derivando do latim [Do lat. additione.] S. f. 1. Ato ou efeito de adir; adicionamento, adicionação (Dicionário Aurélio). Neste sentido, é interessante notar o discurso de uma das entrevistadas ao se referir ao seu uso de ecstasy em festas, dizendo que o utiliza como aditivo propriamente, assim como outros utilizariam outros aditivos, como o álcool. A definição psiquiátrica adotada pela World Health Organisation define "adição como relacionada ao uso repetido de substância psicoativa ou substâncias, ao ponto que o usuário é periodicamente ou cronicamente intoxicado, mostrando uma compulsão a usar a substância preferida (ou substâncias), tem uma grande dificuldade em voluntariamente parar ou modificar o uso de substância, e apresenta determinação para obtê-la por quase quaisquer maneiras5". A intenção aqui não é definir o conceito de drogadição, mas sim, de levantar os paradoxos éticos dessa definição no discurso e prática, portanto cabe apontar que esta definição (WHO) não é clara, uma vez que não há diferenciação entre distintos usos de drogas, por exemplo entre drogas prescritas e drogas ilegais. Importante ressaltar igualmente que não se ignora a existência de tal fenômeno, mas sim o entendimento da dependência no seu sentido fenomenológico, como Gurfinkel (1996) aponta ao referir-se ao estatuto da droga na experiência do toxicômano, onde haveria "a fixação exacerbada a um objeto e a transformação do registro do desejo para o registro da necessidade" (p.227). Neste sentido, o enfoque aqui não seria no sentido moral da adição (prescritivo), mas de como o fenômeno aparece (descriptivo). Na clínica psicanalítica, várias interpretações procuram dar formato à drogadição, porém não há consenso enquanto fenômeno estrutural ou nosológico. "A toxicomania não é uma doença, no sentido de uma entidade nosológica ou um sintoma clínico, visto que não possui a estrutura metafórica que a análise destacou a este; mas uma forma muito particular de gozar" (Silva 1999). Ou como coloca Gianesi (2002) "a toxicomania é um termo fruto do discurso da ciência, considerada uma manifestação. Assim, o que o analista diante da nosografia percebe, é apenas a existência de um fenômeno que ocorre e não equivale aos conceitos de estrutura da psicanálise" (p.72). Pensando a prática analítica, a droga per se não teria tais conotações morais, e portanto a droga não seria a causa ultima da adição, uma vez que a prática clínica traz à tona a singularidade do sujeito, da ação do mesmo, buscando-se portanto o sentido deste para o sujeito. "A droga surge (…) como metáfora que se desvela em cada sujeito, quando estes podem desta forma fazêlo: produzir discurso". (…) "O objeto droga aparece carregado de importância nesses sujeitos, muitas vezes ocupando lugar de centralidade, mas não é a causa, não é a droga que faz o toxicômano" (Gianesi, 2002, p.142 e143). Estas considerações parecem importantes pois oferecem diferentes entendimentos sobre adição, uma vez que a questão estaria centralizada no sujeito, o que em outras leituras parece haver uma inversão. Ao mesmo tempo, não estaria focalizando na questão moral do sujeito toxicômano, mas na busca do sentido da droga para o sujeito. Outros aspectos possíveis de serem hipotetizados a partir de referentes psicanalíticos, é referente ao entendimento da droga no atual contexto social. Por exemplo Gurfinkel (1996, p.236) sugere o modelo do fetichismo para uma compreensão de drogadição, no qual a droga seria uma "espécie de objeto-fetiche", enfatizando desta forma, a questão do estatuto do objeto para o toxicômano. E traz uma citação de Lukacs da relação entre a sociedade capitalista e o fetichismo, "esta intensificação do fetichismo (própria do estágio imperalista do capitalismo) exerce um efeito anti-dialético sobre o pensamento". Esta citação parece interessante no sentido da compreensão da drogadição como a ilusão do fim da angústia. "Quando o mundo e a relação com os objetos que o povoam ameaça esmaecer para o sujeito, os mesmo são hiperinvestidos com o objetivo de preservar o self do indivíduo. Trata-se de uma integridade artificialmente mantida por uma espécie de respiração artificial sobre o objeto, já que no estágio de dependência, não há sobrevivência do sujeito sem a realidade do objeto". Algumas questões emergem a partir desta aproximação como: a função da droga na sociedade contemporânea e do fetiche enquanto defesa, promovendo uma tentativa de findar com as incertezas. Finalmente, algumas considerações éticas sobre a intervenção da lei em relação às drogas se fazem pertinentes, para tanto levanta-se algumas contribuições dos estudos de gênero sexual (gender studies, queer studies). Através destes, questões éticas sobre autonomia (incluindo do corpo) e escolha emergem. "Do Simpósio de Platão à teoria queer contemporânea, o estudo do sexo geralmente envolve questões fundamentais como a relação da ética com prazer, a natureza do consentimento, e a definição de liberdade"6. (Warner, 1999, p.16). Warner (1999) aponta que "coerção sexual e violência foram justificadas em nome da saúde nacional"7 (p.20) (por exemplo, homossexualismo era uma prática ilegal até meados dos anos 60 e algumas práticas sexuais consensuais continuam sendo ilegais). Beckmann (2001) através do trabalho de Michel Foucault em A História da Sexualidade (1986) ressalta "como o caráter autoritário médico, psiquiátrico, e discursos e práticas de especialistas governamentais trabalharam para constituir sujeitos e tornaram-se portanto, uma importante ferramenta para operar controle social"8 (p.3). Através desta justaposição, a partir da esfera da lei, enquanto representante moral, poderia-se então perguntar, quais seriam os significados vinculados à utilização de substâncias psicoativas? Que prazeres seriam legítimos? A intenção deste trabalho foi de brevemente lançar algumas questões relativas à postura ética e posicionamento moral referente aos discursos e práticas no campo da drogadição. Não pretende-se ignorar o fenômeno da adição enquanto tal, mas abrir espaços reflexivos sobre esta problemática. Gostaria de agradecer a Erica Burman, Ian Parker, Marcia Jones e Yara Mitsuishi pelo apoio e sugestões para este trabalho. Autor:
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