Considerações sobre os aspectos psicossociais, clínicos e terapêuticos da drogadição II

  


Este trabalho é uma continuidade da temática de dois outros aqui publicados anteriormente:

Drogadição: um jeito triste de viver (1994) e Drogadição: o tratamento na comunidade terapêutica (1995).

No presente texto o autor analisa aspectos psicossociais, clínicos e do tratamento da drogadição, com base em sua experiência profissional em uma comunidade terapêutica para dependentes de drogas

Unitermos: drogadição; trabalho terapêutico; crescimento interior

Summary

Essay on social, psychological and clinical conditions in the treatment of the drug addiction

Tire author analyses the social, psychological and clinical conditions in the treatment of the drug addiction. Based in his professional experience in a therapeutic community for drug addict patients.

This paper continues the subject of two others Acre published: Drug addiction: a sad way lo live (1994) and Drug addiction: the treatment in the therapeutic community (1995).

Uniterms: drug addiction concepts; therapeutic work; inner growth

Informação Psiquiátrica - volume 15 - numero 4 - pp. 145 a 149 - ano de 1996

O presente trabalho deve ser entendido como uma continuidade da temática de dois outros textos aqui publicados anteriormente: Drogadição: um jeito triste de viver (Zago, 1994) [8] e Drogadição: o tratamento na comunidade terapêutica (Zago, 1995) [9] . O primeiro constatava que a dependência de droga é uma tentativa enganosa de "cura" para encobrir uma profunda descrença e desvalorização do viver e, sobretudo, um projeto suicida pelos modos de ser da pessoa drogadicta. O segundo demonstrava que a tarefa primordial do trabalho terapêutico no hospital psiquiátrico é de estimular a reflexão com base num compromisso de mudanças assumido pelo paciente consigo mesmo e com a equipe técnica, de onde emerge uma genuína relação pedagógica e cujos resultados podem servir de subsídios à prevenção que pertence ao âmbito da ação educativa.

Portanto o objetivo agora é de apresentar considerações tanto dos conceitos quanto da terapêutica da drogadição como fenômeno humano, que não foram abordados ou detalhados nos textos mencionados.

Escritores de sensibilidade muitas vezes captam a essência da "alma" humana de forma cristalina, transparente. Inclusive, muitos deles desnudam o âmago do existente antes mesmo que os próprios estudiosos do comportamento humano. Em A insustentável leveza do ser, Kundera [3] pergunta: "Mas, na verdade, será atroz o peso e bela a leveza?"

Kundera mesmo responde que peso/leveza é a mais ambígua e a mais misteriosa das contradições. No peso ou na leveza pode estar a realização do ser, porém pode significa um pesado fardo existencial ou uma leveza que afasta o ser de sua realidade

É freqüente pessoas dependentes de drogas, geralmente aquelas não-responsivas ao tratamento, racionalizarem, por exemplo, que a maconha é uma droga leve e a cocaína uma droga pesada. Há dependentes que defendem que aspirar cocaína é leve e que pesado é fumar crack. Há usuários de crack que afirmam, por sua vez, que fumar crack é leve; para esses pesado é injetar cocaína nas veias. Os dependentes de cocaína injetável colocam que fazer tal uso com seringa individual e descartável é leve, evita a Aids; pesado é injetar com seringa de uso coletivo. Há alcoolistas que racionalizam que o álcool é leve e que pesado é ser dependente de maconha ou de cocaína.

Quando vemos um adolescente fazendo uso de bebida alcoólica em uma lanchonete, trata-se de um quadro cultural típico, usual, que não chama nossa atenção (mesmo que esse jovem seja menor e que o consumo de bebida alcoólica no caso é proibido por lei). E comum que esteja com amigos ou com a namorada. Suponhamos que essa ida à lanchonete possa ser algo rotineiro na vida do adolescente. Ninguém se preocupa. E normal!

Mas vamos supor também que esse jovem esteja vivendo uma dificuldade íntima de elaborar suas crises, suas vivências e a construção de sua identidade. O álcool pode então, gradativamente, ser usado de forma inconsciente como fator de grande alívio ou consolo, que deixa, por assim dizer, esse adolescente com a sensação de mais leve. Se prosseguir nessa caminhada, somente com 27 a 30 anos, já casado e com filhos, é que as pessoas mais próximas irão perceber que ele está dependente do alcoolismo. E ao atingir esse ponto de sua existência, mesmo alertado pelos seus pela falta de limites para com a bebida, provavelmente esse indivíduo rebaterá as críticas e continuará bebendo. É comum que pessoas com histórias de vida assim, em torno de 35 -40 anos, já tenham sido internadas por várias vezes em hospitais psiquiátricos. Se no início o uso de bebida alcoólica era um alívio, deixava leve, agora é um pesado fardo.

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Uma senhora, meia-idade, dedicada esposa e mãe. Vem sentindo há algum tempo nervosismo, insônia, palpitação, certa hipertensão e ansiedade. Talvez, entre outras coisas, pelos fatos de os filhos estarem crescendo e procurando cada qual seu caminho. Essa mãe sente-se insegura e solitária em seu sofrimento. Vai ao médico. Este a examina e, entre outros medicamentos, lhe receita um tranqüilizante para ser tornado ao deitar.

Começa a dormir melhor Percebe-se mais calma e tranqüila após algum tempo. Não retorna, entretanto, na época prevista ao médico, mas continua a usar o tranqüilizante. Dá um jeito de obtê-lo na farmácia do quarteirão onde mora. Determinada noite procura por seu calmante e vê que a cartela está vazia. Com isso entra em angústia. Passa vagamente em sua cabeça de que está dependente, porém de maneira automática afasta tal pensamento. Insiste que o esposo providencie imediatamente o `remédio'. Com o tranqüilizante nas mãos, após ansiosa espera, mesmo antes de tomá-lo, sente agradável leveza! A rigor uma insustentável leveza. Ou silenciosamente um pesado fardo?

A sociedade consumista, controlada pelos magnatas da produção que se utilizam à mídia, especialmente a TV, é hipócrita no que se refere às drogas.

A mesma sociedade que combate através da mídia o consumo de drogas ilegais como a maconha, a cocaína e o crack, induz, ao mesmo tempo, por esses mesmos meios de comunicação de massa, o consumo de drogas legais como o tabaco, a bebida alcoólica e "medicamentos. Para cada tipo de problema, por exemplo, dor de cabeça, de estômago, nervosismo, insônia, calvície, impotência sexual, obesidade, esquecimento, etc., uma propaganda de "receita infalível" .

Mas que determina o legal e o ilegal? É a droga legal não prejudicial e a ilícita sim? E exatamente ai que a sociedade revela toda sua hipocrisia. [ 7 ]

Achar que o álcool por ser legalizado é inócuo ou que esses "remédios' assim induzidos não são prejudiciais, é fechar os olhos para uma questão muito séria. Não queremos, contudo, negar que a bebida alcoólica está enraizada em nossa cultura, como é o fato de camponeses bolivianos mascarem folhas de coca para suprir a fome e o cansaço. Porém vale sublinhar que boa parte dos leitos psiquiátricos do país é ocupada por pessoas dependentes ou com transtornos decorrentes do uso abusivo de alcoólicos. Ainda mais, de cada dez pacientes internados por dependência de drogas, considerando-se todas as drogas, oito são por etilismo. E os benzodiazepínicos são os medicamentos mais prescritos no mundo, inclusive com uso crescente e indiscriminado em serviços de saúde podendo com isso facilitar a dependência [ 6 ] . Além dessa situação, a venda desses medicamentos é fragilmente controlada, o que toma seu consumo sempre de risco para a saúde. E superar a dependência de benzodiazepínicos é tão ou mais complicado e custoso do que superar uma dependência de uma droga ilícita. E os sérios problemas clínicos que o uso do tabaco provoca em seus consumidores? Ainda temos de lembrar que os chamados solventes, como a cola de sapateiro, são comercializados indiscriminadamente, onde crianças de sete a dez anos têm acesso, e para muitas é a primeira droga. E não devemos ter ilusões, como profissionais da saúde, de que cheirar cola é padrão de conduta exclusivo de meninos de rua.

Há algum tempo cogitou-se um projeto de lei cujo objetivo era de controlar a venda de tinta spray. Tal projeto, que não sobreviveu, visava apenas a proteger o patrimônio material (casas, muros, paredes) dos pichadores. E evidente que o patrimônio material deve ser preservado desse tipo de agressão, mas um projeto assim seria unilateral, sem a preocupação de um trabalho educativo dirigido à pessoa, ao cidadão.

Desse modo, mais uma vez essência e fenômeno são confundidos. Discute-se atualmente sobre não incriminar o usuário de maconha ou o porte da mesma para o consumo. E evidente que o dependente de droga necessita de ajuda. de apoio, de tratamento. Precisa ter, o drogadicto, um atendimento social e judicial diferente do traficante. Este é um sociopata que sobrevive através da doença do outro. E quando um indivíduo não é sensível ao sofrimento alheio, é mais justo que fique de fora do convívio social.

Uma preocupação, se aprovada a descriminação da maconha, é de que tal lei possa ser manipulada para relaxar prisão de traficantes. Outra preocupação. mais importante que a anterior, é a de que pais e educadores, com o decorrer do tempo, deixem de dar o devido peso à questão do uso dessa droga. Corre-se o risco da não incriminação da maconha ser entendida na prática como legalização pura e simples. semelhante como já ocorre com a bebida alcoólica que é proibida para menores. Mas quem lembra e respeita essa lei?

Dentro de nossa ótica as drogas legalizadas são potencialmente destrutivas porque só é possível perceber suas conseqüências nocivas a saúde após anos e anos quando do abuso, quando então muito pouco pode ser feito pela pessoa. E isso em considerável número de casos. O alcoolismo é o exemplo típico por excelência. Por isso podemos chamar as drogas legais de "lobo em pele de cordeiro.

Enfatizamos quanto a hipocrisia da sociedade cm relação às drogas: nem tudo que é legal é bom ou legítimo para o crescimento interior do ser. E inútil ilusão pensar que tudo que os produtores e a mídia estimulam sedutoramente é bom no sentido de unia genuína auto-realização. Ou seja, não se pode simplesmente entender que se o ilegal faz mal, então o legal é bom. Essa relação, salientamos, é totalmente falsa.

E importante, desse modo, que a pessoa desenvolva uma crítica que lhe permita escolher o que é significativo ao crescimento interior. A escolha é um posicionamento que legitima o ser, através da qual a pessoa confirma sua posição em direção ao seu desenvolvimento. Esse legitimar, esse autenticar, é no significado de que determinado objeto de consumo não está primordial e exclusivamente preenchendo um vazio interior, não estar usando como forma materializada de "solucionar" crises, cuja real elaboração deve estar dentre de si mesmo. Este é um dos mais importantes papel do ser como agente de transformação social: assumir posicionamento críticos e conscientemente responsáveis do que se quer, não se colocando assim passivo e alienado com mais um apenas no universo do consumismo.

Não podemos permanecer na ingenuidade de que leis e decretos isoladamente irão resolver os problemas humanos. Somos propensos, na maioria das vezes, a esperar que verdadeiros milagres ocorram para solucionar nossos problemas existenciais e de convivência humana. Deixemos

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nossa ingenuidade. Leis somente não diminuem sofrimentos e desesperos. É preciso sobretudo investir na formação educativa da pessoa e no controle ético dos governos.

Destacamos quatro sentidos sobre existência e drogadição:

Pessoas demasiadamente inseguras não têm um controle adequado de seus sentimentos e anseios. O ideal, sem atingir neuroticidade, é o equilíbrio entre certa segurança e certa insegurança. Vivenciamos segurança em determinadas situações, insegurança em outras. Isso é da chamada normalidade da vida. Contudo, ser seguro sempre, o tempo todo e em tudo é o risco de ingressar na onipotência.

Há uma maneira de lidar com a insegurança que também é de muito risco: a intenção de dominá-la exercendo um controle no mundo externo, ou seja, controlando pessoas, fatos, coisas. Essa forma controladora de lidar com a insegurança é uma tentativa de preencher um vazio emocional. E a necessidade de controlar tudo "no fora" para sentir-se pleno e seguro `no dentro. É um jeito muito ansioso de viver, pois precisa estar sempre aleita e atento para não perder o controle. Em outras palavras, é como a pessoa não ter seu eu desenvolvido, crescido, e para se perceber com um eu idealizado, capaz e forte, adiciona-se dependentemente a outros eus, aos semelhantes, para destes obter um significado de seu eu.

A necessidade de controlar a tudo e a todos requer um dispêndio enorme de energia psíquica, e muitas vezes física também, ao mesmo tempo em que esse desgaste é compensado com a energia tirada dos outros. Essa maneira de lidar com a insegurança lembra de algum modo os buracos negros: região do espaço-tempo de gravidade tão intensa quê suga ou absorve tudo à sua volta, nada deixando escapar nem mesmo a luz. No universo os buracos negros têm uma dinâmica de voracidade.

A pessoa controladora envolve-se com outras pessoas de um jeito tão intenso que anula em parte o outro, o próximo. Suga a todos e a tudo para si inclusive concretamente: soca pessoas, controla fatos e coisas, suga produtos químicos como solventes, bebida alcoólica, drogas, "medicamentos. Entre outros, absorve também dinheiro, sexo e trabalho.

A pessoa controladora ou insegura é insaciável, um eu sem fundo, sem respaldo próprio, sem valores firmados, pois sem isso não sente em si um singular e singelo eu. E fígurativamente um eu com uma boca grandiosa que abocanha a todo e a todos sugando vida psicológica das pessoas com as quais convive, como se elas fossem nada mais e nada menos que alimentos descartáveis ou extensões apenas desse eu.

No tecido social pessoas controladoras e ao mesmo tempo dependentes são como buracos existenciais que gradativamente aumentam destruindo também tecido saudáve].

A drogadição é a vivência do eu vazio porque o outro, o semelhante, está ausente. E a vivência do outro-negado, do outro- coisificado.

Em sua obra A imortalidade, Milan Kundera [4] questiona a maneira cartesiana e racionalista com que lidamos com a dor humana, principalmente a dor alheia é colocada tão distante e quando próxima procuramos torná-la passageira ou marginalizada:

"Penso, logo existo" é uma afirmação de um intelectual que subestima as dores de dente. Sinto, logo existo é uma verdade de alcance muito mais amplo e que concerne a todo ser vivo. Meu eu não se distingue essencialmente do seu eu pelo pensamento. Muitas pessoas, poucas idéias: pensamos todos mais ou menos a mesma coisa, transmitindo, pedindo emprestado, roubando nossas idéias um do outro. Mas se alguém pisa no meu pé, só eu sinto dor, O fundamento do eu não é o pensamento, mas o sofrimento, sentimento mais elementar de todos. No sofrimento nem um gato pode duvidar de seu eu único e intercambiável. Quando o sofrimento é muito agudo, o mundo desaparece e cada um de nós fica só consigo mesmo'.

Entretanto, para perceber que o outro sofre, é preciso que nossa capacidade de sentir dor esteja viva, plena. Não fluíamos, é evidente, da dor física. Falamos sim da dor humana, existencial. Falamos da tendência que nos impulsiona a solidariedade, a perceber que o outro sofre. Se há o embotamento dessa capacidade, as experiências do eu-sujeito e do nós-social tomam-se respectivamente suicidas e destrutivas. Assim, fica inviável qualquer projeto de vida, pois tais experiências omitem o semelhante. Qual a viabilidade de um projeto existencial se o outro estiver ausente?

Uma analogia pode ser estabelecida entre o Mal de Hansen e a drogadição.

A anestesia é um dos elementos mais importantes para o diagnóstico da hanseníase. O portador dessa doença apresenta, entre outros sintomas, a perda da sensibilidade à dor. Ausente esse referencial - a dor - o doente não pode avaliar adequadamente o nível de esforço, por exemplo, a que submete os seus membros afetados. Como não há dor, exige tanto a ponto de provocar fraturas, corte, contusões e até perdas de dedos e artelhos. Como resultado, um corpo mutilado, sem dor física, mas provavelmente repleto de dor emocional.

A função primordial do uso de drogas na sociedade é, antes de obter prazer, evitar o pensar às vezes pode ser doído, amargo. Todos nós temos momentos onde a existência nos coloca frente a frente ao nosso intimo. Temos que elaborar essas crises, pensá-las e sair delas crescidos. Contudo esses momentos podem ser dolorosos e angustiantes. Uma das formas de fugirir deles; já que de fato evitá-los é impossível, agimos simplesmente. Essa ação, desprovida do pensar ou da reflexão, torna-se de risco se a saída é um sugar de objetos. A droga pode estar entre esses objetos.

O uso de drogas é uma maneira de não-pensar ou em outras palavras de não-sofrer. Isso no significado da pessoa sentir como uma ameaça caminhar para seu crescimento interior. O uso de drogas é uma tentativa então de não sentir dor existencial. À medida que se estreita na dependência de drogas, a pessoa cada vez mais torna-se incapaz de perceber seu sofrimento e também daqueles que sofrem assistindo sua dor A pessoa drogadicta chega a um ponto de empedrar-se, isto é. nada sentir em si e dos acontecimentos significativos que ocorrem à sua volta apresentando uma postura de indiferença, de não-sentir. Sem esse parâmetro - a capacidade de sentir dor emocional - mutila-se existencialmente e muitas vezes fisicamente também. E o projeto suicida composto por pequenos suicídios ou suicídios parciais. Incapaz de sentir angústia pelo seu modo de vida, os outros, geralmente do grupo familiar, são os que acabam abraçando compulsoriamente seu sofrimento. Há um adoecer recíproco: se a droga lhe dá um prazer, a destruição entretanto é coletiva: da pessoa que se droga e daqueles que o amam.

Adição é um substantivo que significa inclinação ou apego por alguma coisa. O adjetivo adicto refere-se ao indivíduo severamente comprometido dependentemente de certa prática. Tal prática pode ser uma crença, trabalho, atividade partidária, etc. (SI,

Drogadicto significa o indivíduo que é escravo da droga; não que a droga, a rigor, o tenha transformado assim, mas por já ter uma propensão à dependência. Desse modo o termo drogadicto sepulta a errônea visão de que a droga é o agente

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causal da dependência e, ao mesmo tempo, resgata a pessoa como sujeito no sentido dele ser o agente, aquele que determina.

Dessa maneira a droga nada é. É somente um objeto inanimado que é adjetivado ou que ganha sentido apenas através da ação humana. É o ser solitário de si mesmo:evitando ou camuflando crises e evadindo de sua busca-encontro que pode provocar nos objetos externos, estimulado por uma sociedade que prioriza o consumismo como pseudo-solução questões mais intimas, cair numa postura doentia de apego ou de dependência para com pessoas e objetos Insatisfeita consigo mesma, não aceitando ser si mesma, a pessoa busca adições para ser diferente do que é, ou melhor, do que vem sendo. Com isso, sob efeito de uma droga, torna-se inautêntica, uma "outra" pessoa, alterada (alter = outro).

Se damos viver a um objeto, tal é revertido a nós mesmos, bem ou mal. Por exemplo, se é dado vida por certo período de tempo a uma caneta, ela torna-se instrumento valioso de trabalho. Se não lhe emprestamos vida, a caneta é objeto inanimado, não se move por si. Assim que dá vida ao objeto droga, o retomo é em destruição, morte. O drogadicto dá viver à droga e recebe em troca, como afirmamos, morte. Daí o fato de entendermos a existência drogadicta como um projeto suicida. Semelhante ao trabalho escravo que enriquece somente o senhor e empobrece cada vez mais o escravo em todos os sentidos.

E à medida que a dependência se estreita, mais aumenta a fascinação psicológica e química para com a droga. As drogas, é claro, não são substâncias inócuas quando ingeridas. Elas atuam no sistema nervoso central, aliado ao fenômeno da tolerância: há necessidade de aumentar gradativamente a dose para obter-se o efeito desejado. Conforme isso avança, confirma-se a dependência. E sob efeito de uma droga a pessoa tem suas funções mentais e comportamento alterados.

A simples retirada da droga faz com que, geralmente, as alterações mentais e de comportamento sintomáticas da dependência sejam abolidas. Isso contudo não modifica a pessoa dependente. Tal explica o fato de que tratamentos objetivando apenas a desintoxicação não têm resultados duradouros.

São comuns os chavões utilizados que evidenciam como a realidade é vista às avessas ou de forma invertida. Por exemplo

a) "O problema de K. é a droga.'

b) O álcool acabou com

c) "O problema de X. é o álcool."

d) "O que atrapalha W é a droga."

e) "A bebida malote X."

E preciso despertar a pessoa dependente no sentido de que se conscientize de sua realidade. Ou seja: abandonar a ilusão de sua passividade frente a pseudoconcreticidade da droga, assumindo-se como sujeito de sua história.

Sartre [ 5 ] resume fidedignamente a essência da obra de Soren Kierkegaard:

"a dor, a necessidade, a paixão, o sofrimento dos homens, são realidades brutas que não podem ser superadas nem modificadas pelo saber.. (...) Há, entre nós, psiquiatras e psicólogos que consideram certas evoluções de nossa vida íntima como o resultado de um trabalho que ela exerce sobre si mesma: neste sentido a existência kierkegaardiana é o trabalho da nossa vida interior - resistências vencidas e sempre renascentes, esforços sempre renovados, desesperos superados. malogros provisórios e vitórias precárias -enquanto este trabalho opõe diretamente ao conhecimento intelectual. (...) (A obra de Kierkegaard) pode ser compreendida com a morte do idealismo absoluto: não são as idéias que modificam os homens, não basta conhecer uma paixão pela sua causa para suprimi-la, é preciso vivê-la, opor-lhe outras paixões, combatê-la com tenacidade, enfim, trabalhar-se."

O trabalhar-se é a busca-encontro que cada um, momento ou outro do viver, se vê frente a frente ou mergulhado em sua própria subjetividade que pode ser fonte de renovação ou de desespero. Ai, nesses momentos, abrem-se possibilidades de descobrir limites, aspirações, esperanças e potencialidades. É de cada trabalho interior que se retorna mais humanizado, mais disponível para o semelhante. São nessas buscas que nos percebemos mais humanos e que nos aproximam mais do próximo. Cada qual superar suas próprias fraquezas, insignificâncias, descobrir-se desse modo humano, é sinal de crescimento, de ser forte.

É muito salutar aceitarmos o fato de que viver em sua essência é um fazer sempre, continuadamente. E importante descobrirmos que o significado do viver é precisamente aceitar que nele nada é definitivo, Só os que se julgam deuses, os onipotentes, têm ilusoriamente as definições e as certezas, O viver em essência não! Que seria então da dor, do desespero, das angústias, das perdas, do abandono se na vida fosse tudo definitivo?

É de fundamental importância que a pessoa pare de tornar drogas para poder refletir a fim de mudar seu existir, sua visão de mundo. A finalidade primordial do uso de drogas, como já afirmamos, é evitar o pensar, pois para o dependente pensar dói. E para recuperar-se o remédio principal é pensar, refletir Estimular o drogadicto a ser sujeito de sua história para que ele possa se angustiar e resgatar sua capacidade de sentir dor existencial, num sentido estrito dor emocional.

Deixar a dependência implica assim em suor e trabalho, construir um caminho próprio, correr o risco de ser si mesmo. De certa forma é menos trabalhoso ser alterado oti drogado, pois ser si mesmo requer responsabilidade. luta. perseverança. Por isso que se tratar é pensar para descobrir novo caminho. E garimpar um novo lugar no tempo. no espaço social e, acima de tudo, ser sujeito ou governo de si mesmo.

Portanto referir-se a drogas leves ou drogas pesadas é o que há de mais falso e enganoso. São termos criados para muitos justificar a si e aos outros a própria dependência minimizando-a.

A fundamental questão que levantamos é : ser ou não ser escravo de uma droga'?

Não existe escravidão pesada ou leve. Escravidão é uma

situação de estar à margem do poder de governar-se. Ser escravo é a rigor uma condição muito triste. E abrir mão de ser si mesmo.

A premissa básica para ajudar a pessoa dependente é ela estar disponível para receber ajuda. Aceitar a internação é um passo importante, contudo aceitar o tratamento e outro qualitativamente diferente, Se a pessoa não estiver disposta a repensar seriamente seu existir, a terapêutica não evolui ou avança até o limite de uma desintoxicação. Assim ficar apenas no hospital ou na comunidade terapêutica pouco resolve.

Se não há disponibilidade não adianta insistir pressionar. Somos limitados como profissionais de a saúde quando o paciente é lúcido. Há necessidade de a pessoa dependente tomar consciência de seu sofrimento, e devemos colaborar de maneira transparente nesse intento. É preciso que o dependente diga sim, que se disponha a ouvir. A saúde mental não é uma dádiva ou graça dada pelo terapeuta ou pela

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equipe técnica. A pessoa precisa querer ser saudável e para isso deve trabalhar esse objetivo.

Muitas vezes a negação. como mecanismo de defesa, é utilizada pelo paciente. permitindo, nesses casos, que `somente a droga seja tratada'. Tal lembra o conto A menina e os fósforos de Hans Christian Andersen [ 1 ] a pequena vendedora de fósforos risca palito por palito, a princípio para aquecer-se na noite fia. Mas a cada clarão tem visões reconfortantes, inclusive da avó já falecida; a cada luz de fósforo, uma esperança fugaz. Risca boa parte dos fósforos que possui. percebendo possibilidades de vida nova enquanto dura cada pequenina chama de luz. Na manhã do Ano Novo. dentre os que observam o cadáver da menina e os fósforos riscados, alguém indaga: "Ter-se-á querido aquecer?" Não! A menina sonhou com suas visões a cada chama de fósforo, porém a rigor morreu de frio! Somente sonhos é um caminho irreal e inatingível na região concreta do espaço-tempo.

Igualmente são os pacientes que tratam exclusivamente o corpo: apenas a desintoxicação é como riscar uma chance de vida nova. São pessoas que ao recuperarem sua forma física deixam o tratamento ou tentam convencer a si mesmos, a equipe, os familiares, enfim, os membros da comunidade terapêutica de que a dependência está superada. Esses pacientes são aqueles que apresentam os maiores riscos de recaídas e conseqüentemente de reintemações. Quase sempre são pacientes que na entrevista de admissão já querem determinar o tempo de internação e a `data da alta". São pessoas onipotentes que não sabem ouvir e que carecem de humildade, isto é. estão embotados dessas duas condições básicas para a mudança. Como resultado repetem sempre o mesmo fracasso. Não saber ouvir e ser arrogante são mecanismos utilizados para ignorar o terapeuta ou a equipe técnica,

Tratar é pensar no viver. E incluir o pensar entre a intenção e a ação evitando a impulsividade. E aprender ou reaprender a determinar o agir. possibilitando a ação pensada. refletida.

A comunidade terapêutica deve propiciar um clima ou uma cultura de tratamento, oferecendo e facilitando meios e instrumentos (grupos, reuniões comunitárias. comissões, tarefas. Atividades ocupacionais e recreativas, atendimento médico e psicológico individual, etc.) para a reflexão pessoal. respeito às regras de vivência e convivência no sentido do paciente pôr em prática um modo de ser construtivo e participativo na comunidade hospitalar

Assim o tratamento não é algo abstrato ou teórico. Não objetiva o paciente a descobrir causas de sua dependência. Muitas vezes procurar tenazmente as causas da dependência é como se fosse uma forma de adiar o fazer de práticas efetivas. Dificilmente descobre-se com certa exatidão a causa ou as causas. E mesmo que se venha a descobri-las, tal descoberta não muda a pessoa. Para a mudança a pessoa precisa colocar em prática seu projeto de vida: desenvolver respeito a si e aos outros., ser sincero, assumir compromissos e. principalmente . colaborar com a recuperação do outro. Esta é uma das melhores maneiras de recomeçar vida nova.

A alta hospitalar e o consenso entre equipe, paciente e família. E o consenso de que não mais necessidade de uma proteção concreta para a pessoa. E o momento de continuar o tratamento em campo aberto, reassumindo a vida familiar e profissional. A pessoa deve estar conscientizada de que a alta hospitalar não resgata suficientemente a confiança dos familiares, de que é preciso paciência, suor e trabalho no cotidiano.

Desse modo o desligamento a pedido, a alta triunfante, a alta apressada são nítidos sinais de que o paciente não evoluiu no processo terapêutico. O momento da alta é, quando elaborada, um momento de dúvidas e de temor e. ao mesmo tempo, de esperança. Nesse caso a pessoa sabe que verdadeiramente, ao deixar o tratamento hospitalar, de fato começarão os reais problemas do dia-a-dia, um viver mais autêntico e sem artifícios, O que é uma empreitada trabalhosa, mas não impossível para o ser cuja escolha é de caminhar consigo mesmo um caminho nunca antes percorrido.

Autor

José Antonio Zago joseantoniozago@ig.com.br

Psicólogo Clínico do Instituto de Psiquiatria da Fundação Espírita "Américo Bairral", Itapira, SP
Mestre em Filosofia da Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba, SP

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REFERÊNCIAS

1-ANDERSEN HC - Contos Imortais. Publicações Europa-América, 1974

2- KALINA E, KOVADLOFF S - [Drogadição:Indivíduo. Familia e Sociedade. Francisco Alves Ed.. Rio de Janeiro, 980.

3- KUNDERA M - A Insustentável Leveza do Ser. Rio Gráfica Ed.. Rio de Janeiro. 986.

4- KUNDERA M - Circulo do Livro, São Pauto, 1994.

5- SARTRE JP - Questão de Método. Ed. Abril Cultural. São Pauto, 973. •

6- VIDAL CE et al. - Uso de benzodiazepinicos em ambulatório de psiquiatria - Jornal Brasileiro de Psiquiatria - 42 [8] pp. 425-429. 1993.

7- ZAGO JA - Drogas: Condições Pisicossociais da Dependência. Ícone Ed.. São Pauta. 1988

8- ZAGO JÁ - Drogadição - um jeito triste de viver - Informação Psiquiátrica - 13 [4] pp. 155-158, 1994

9. ZAGO JA- Drogadição o tratamento na comunidade terapêutica - Informação Psiquiátrica - 14 (4) pp.133-137 - 1995.

 

Republicado: 06/Agosto/2007 - 17:18

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