Como pais não somos culpados pelo uso de drogas de nossos amigos e familiares, mas...

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Espiritualidade em alta
Enviado por Daniel, seg, 12/03/2007 - 05:08
Cresce o número de médicos que adotam práticas espiritualistas à sua conduta clínica; afinal isso demonstra uma sensibilidade maior por parte desses profissionais ou trata-se antes de uma escora emocional para os próprios médicos? No caso do dependente de drogas, qual a importância da espiritualidade no tratamento? O alerta foi dado em agosto pelo New England Journal of Medicine, uma das bíblias da literatura médica mundial. "Estamos preocupados com a adesão do público em geral, de médicos em particular e de escolas de medicina quanto a recomendações de práticas espiritualistas como parte integrante de estratégias terapêuticas", afirma o Dr. Richard Sloan, da Universidade Columbia, Nova York, EUA, em um artigo escrito a partir de conclusões feitas por pesquisadores e líderes religiosos. O artigo diz ainda que "práticas religiosas podem ser tão dilacerantes quanto curadoras". A preocupação do New England não deixa de ser relevante. A Dra. Cristina Navalon, psicóloga especializada em dependência química e transtornos psicossomáticos têm experiência com tais métodos de cura. "Tive um paciente soropositivo que, submetido à chamada quebra de maldição em uma igreja evangélica, simplesmente não agüentou a sobrecarga emocional e, já debilitado, morreu". Ela não atribui o trágico evento somente ao ritual a qual seu paciente foi submetido, mas considera que tal sobrecarga pode ter sido tão estressante que o debilitou ainda mais. "Temos que fazer distinções; uma coisa é usar a espiritualidade como parte integrante do tratamento; outra, bem diferente, é se valer somente da espiritualidade para tal fim", explica. O psicólogo mineiro Antônio Brandão Mzarewscky concorda com Cristina. "Tem muito psicólogo se passando por pastor ou padre, e tem muito religioso fazendo às vezes, mal e porcamente devo dizer, de psicólogo". O alerta do prestigioso órgão americano diz respeito a todas as especialidades, mas para os profissionais que lidam com transtornos mentais, psiquiatras e psicólogos, tal alerta soa como sirene de fábrica. Afinal, os transtornos mentais abundam tanto nos consultórios como nas igrejas. Quando o profissional de saúde recomenda a segunda para fazer parte do tratamento, está abandonando a medicina baseada em evidências? Engessado em "vidas passadas""Depende da recomendação", afirma Cristina. "Eu, por exemplo, faço uso sim da espiritualidade na abordagem do dependente químico primeiro porque acredito em Deus e o tenho como fundamental elemento terapêutico; segundo, porque se o paciente apresenta vínculo espiritual, seja com que religião for, seria estupidez minha não utilizar essa ferramenta emocional de qualidade". Para Cristina, falar e deixar o paciente falar de Deus não atrapalha o tratamento desde que ele não fique engessado numa postura de culpa e aflição, achando-se devedor de Deus e das pessoas. O paciente com orientação kardescista, por exemplo, pode se sentir paralisado no seu sofrimento ao crer que o mesmo seja um carma, uma dívida espiritual contraída em outras encarnações, podendo ainda minimizar e/ou racionalizar mais seu problema, escorando-se na justificativa de que suas vidas passadas o fazem adotar esse ou aquele comportamento. Cabe ao terapeuta, redirecionar tais atitudes. Alguns terapeutas, entretanto, possuem uma clara e consistente aversão à espiritualidade apresentada, sequer favorecendo a alusão do paciente a essa questão. A psicóloga Clara Tavares de Almeida, de São Paulo, acha que todo o material que poderia ser chamado de espiritualista apresentado por seus pacientes, são símbolos arquetípicos na melhor expressão de Jung. Esse psicanalista suíço (1875-1961) dizia que arquétipos são imagens psíquicas do inconsciente coletivo, patrimônio comum a toda a humanidade. "Não posso admitir que um paciente meu me diga que fala com Deus, com o Espírito Santo, ou seja, lá com que entidade for e achar isso ocorra realmente", acentua. Para ela, esse tipo de discurso tem de ser utilizado como material interpretativo, nada mais que isso. "É por essas e por outras que anda cheio de padres e pastores, principalmente de igreja evangélica, por aí," "tratando" doenças mentais com expulsão de demônios", afirma. A antropóloga Cristina Pozzi Redko, em seu artigo "Alguns idiomas religiosos de aflição no Brasil", publicado no jornal eletrônico Psychiatry On Line Brazil (Unifesp/EPM), em 1999, diz que "sofrimentos psicológicos ou emocionais agudos, ou angústia existencial, são desafios a que as religiões se direcionam com a intenção de tornar a vida mais compreensível e auxiliar as pessoas a se orientarem dentro deste contexto". O médico ou o profissional de saúde ao orientar seu paciente a procurar uma igreja e vincular-se a uma fé religiosa, pode refletir o reconhecimento por parte desse profissional de que seu repertório de atitudes terapêuticas é escasso quando diante da exuberância de um quadro agudo, como, por exemplo, a dependência química instalada de longa data. Procurar ou não uma igreja, entretanto, muitas vezes independe do médico. O paciente vai, por conta própria, atrás de um solução milagrosa não alcançada na abordagem humana adotada. Leitura bíblica caóticaCristina Pozzi diz em seu artigo: "Os problemas de saúde consistem na dimensão mais significante de aflição que leva uma pessoa a procurar uma fonte de ajuda religiosa no Brasil; alguns estudos sugerem que a doença pode mobilizar a procura de ajuda pela religião por causa das representações mágico-religiosas do corpo bastante difundidas no Brasil. Isto pode ilustrar o fato que embora um brasileiro fale em doença, tanto em relação à etiologia quanto aos recursos disponíveis, o indivíduo freqüentemente fará uma distinção entre doença material e doença espiritual. Por exemplo, seria ilógico considerar o "encosto" (causado por um espírito) ou "uma obsessão" (causada por um espírito obcessor) como doenças materiais. Entretanto esta distinção é muito sutil". Ela complementa: "Alguns estudos revelam que pessoas que sofrem de transtornos mentais podem procurar ajuda em fontes religiosas como parte de seus mecanismos de auto-ajuda". O profissional que transmite ao seu paciente um conteúdo espiritual, seja pela abordagem direta, seja pelo teor do discurso que imprime ou mesmo pelos elementos presentes no seu consultório, geralmente é consciente de que não importa qual é a sua religião, seita, filosofia ou doutrina. Nem a do seu paciente. Uma vez estabelecida qual sua orientação religiosa, o terapeuta que crê que existe um Deus modificador deve preservar seu paciente e valorizar esse conteúdo espiritual como parte integrante do tratamento. Cristina Navalon, por exemplo, há muito não recomenda as sessões de quebra de maldição presentes nas igrejas pentecostais evangélicas. "Com o reavivamento do seu passado de forma não elaborativa, apenas emersa, sem o estabelecimento das conexões emocionais e familiares o paciente pode sofrer o peso de lembranças com as quais não sabe lidar; tanto é assim que, no caso dos dependentes químicos, a droga entra como cimento que tampa ou desfigura esse passado". Os psicólogos ouvidos pela "ABDQ.com" são unânimes quanto à preocupação de religiosos estarem fazendo às vezes de psicólogos. E têm razão. Sob o nome de aconselhamento pastoral, muitos pastores evangélicos sem o menor treinamento e traquejo sequer como conselheiros terapêuticos (função reconhecida por várias especialidades médicas) estão fazendo atendimento em igrejas, usando como métodos de "cura" imposição de mãos, expulsão de demônios, leitura caótica da Bíblia. Em várias comunidades terapêuticas que cuidam de dependentes químicos, a situação é ainda mais grave. Em muitas delas inexiste a conexão religião-psicoterapia, reinando uma indigência estrutural geral de tal monta que o dependente químico não tem nenhum esboço de uma abordagem espiritual de qualidade. A resultante disso é um embotamento espiritual do paciente que só contribui para penalizá-lo ainda mais. Em outras, entretanto, o cunho espiritual do tratamento é bem focado e equilibrado com os outros procedimentos laborais. Dom de línguas: glossolaliaSe os médicos estão se valendo de práticas religiosas talvez isso seja um indicativo de que afinal existe algo acima do conhecimento humano que o cientificismo puro não consegue explicar. Talvez seja também um dos nós de encontro entre ciência e religião. A ciência não pode mais se arvorar como expressão máxima dos fatos, nem a religião pode se escorar em dogmas, creditando todos os fenômenos ao sobrenatural. Há um ponto em comum entre essas duas vertentes, resgatadas, por exemplo, por expoentes da ciência como Albert Einstein, Niels Bohr e Wolfgang Pauli que perceberam que a ciência chegara a um ponto em que lhe era impossível abordar toda a complexidade de fenômenos que assolam o ser humano. Tanto que em 1986, uma declaração conjunta assinada por alguns intelectuais de peso como o paquistanês Abdus Salam (Prêmio Nobel de Física) e o francês Jean Dausset (Prêmio Nobel de Medicina) afirmava que a ciência e as tradições espirituais são complementares e não contraditórias e que o intercâmbio entre elas "abre as portas para uma nova visão da humanidade". Essa declaração, assinada em Veneza, mostra a possível transigência entre as duas correntes, pois desde que Darwin apresentou seu postulado de evolução das espécies, tirando o véu divino do surgimento do homem na Terra e introduzindo um viés contestador, ciência e religião se batem na tentativa de uma para desacreditar a outra. Só para ficar num exemplo, o dom de falar línguas, presente e extremamente valorizados nos ambientes pentecostais, tido como uma das principais dádivas de Deus porque, segundo essas igrejas, trata-se da língua dos anjos, é, para a ciência médica, glossolalia. Trata-se, segundo o psicanalista Sérgio Telles, de "um sintoma psicótico esquizofrênico e manifestação histérica coletiva em ambientes religiosos fundamentalistas". "Tais pessoas, ao falarem "línguas", estão em um nível psicótico ou outros em nível neurótico (histérico), regredidos e identificados com a mãe, com os adultos, com os portadores da língua, os "falantes"; elas revivem, assim, momentos fundamentais e constitutivos do psiquismo, em que ouviam a língua "estrangeira", carregada de sentidos e desejos dos adultos", diagnostica. O que irrita os psicólogos é o "tratamento" prescrito ao paciente por líderes religiosos despreparados, baseados em conceitos empíricos-eclesiáticos e muitas vezes sem o concurso de profissionais de saúde. O grande problema, ao ver de vários psicólogos e psiquiatras, é a crença difundida por algumas igrejas de que Deus tanto livra que a administração de medicamentos pode ser suspensa pelo paciente. O Dr. Ageu Heringer Lisboa, psicólogo e presidente do Corpo de Psiquiatras e Psicólogos Cristão (CPPC) é enfático: "Se um pastor ou padre manda o membro de sua igreja que toma medicamentos suspender o uso, deveria assinar um termo de responsabilidade". A substituição pura e simples da estratégia medicamentosa pela ação religiosa pode ser muito danosa. O psicólogo que acredita em Deus e usa de suas palavras como elemento terapêutico tenta fazer o paciente entender que o milagre que Deus promove na sua vida é um processo, não um evento. E é um processo que contempla a intervenção psicoterápica e medicamentosa, essa última se for o caso. A importância da psicoteologia"Não sou contra o aconselhamento pastoral, nem contra conselheiros terapêuticos; sou contra quem pratica tais funções sem conhecimento de causa e embasamento teórico", ressalva Cristina Navalon. Para os líderes religiosos, sobretudo os evangélicos, que por sua superexposição na mídia são os que mais aparecem, os profissionais de saúde desconsideram em sua maioria o poder de Deus como elemento de tratamento e o pouco caso que muitos deles fazem dos atendimentos pastorais. O pastor Márcio Paulo Veraz afirma: "Muitas pessoas chegam até nós completamente destruídas depois de terem passado por vários tratamentos médicos sem sucesso; nós as acolhemos, damos carinho, conforto espiritual e perspectiva de vida lastreada em um Deus soberano e absoluto", ressalta. Veraz é formado em psicologia, e por isso é capaz de conjugar religião e conhecimento científico. Quando isso acontece, o paciente pode se ver no melhor dos dois mundos: a psicoteologia. Raras são as pessoas formadas em psicoteologia, mesmo porque ela não é disciplina. Com essa formação tais profissionais podem, no caso do dependente químico, escavar o conteúdo emocional do paciente, chegando aos mecanismos de defesa clássicos presentes em todas as pessoas. E, na esfera religiosa, promover a restauração interna, o preenchimento do vazio existencial deixado pela droga. "Eu acho que deixar a droga é um milagre de Deus", acredita Cristina Navalon. Para ela, a religião pode mudar o foco de atenção do dependente, a partir da perspectiva de revalorização interna que abriga. A antropóloga Cristina Pozzi diz que o "efeito fundamental da religião é alterar o significado de uma doença para aquele que sofre, que também pode ser considerado como uma forma de persuasão modificadora da visão de mundo do indivíduo. Isto não implica na remoção dos sintomas, mas na mudança dos significados que a pessoa atribui à sua doença ou ainda a uma alteração no estilo de vida". Não existe pesquisa a respeito, mas é pode-se avaliar a importância do vínculo espiritual para o dependente, a partir dos seus testemunhos de vida sobre como deixaram a droga. De cada dez, pelo menos nove falam em Deus - como O entendem - como fundamental no seu processo de recuperação. Em seguida, vem o cônjuge, a família, os amigos. Disso se infere que, seja qual for à estratégia terapêutica adotada, se Deus não estiver presente, o dependente pode até abandonar a droga, mas isso não quer dizer que esteja recuperado. Deus é importante tanto no processo de recuperação em si, como no pós-tratamento, essa sim a fase mais difícil. Os grupos de mútua-ajuda não abrem mão de Deus, nomeando-o democraticamente como Poder Superior, desvinculando-O de rótulos e emblemas. A espiritualidade é importante e com isso concorda inclusive o New England quando termina seu artigo afirmando que "a religião não precisa da ciência para justificar sua existência ou seu encanto". AutorJosé Antonio Mariano - email - mariano@kbonet.com.br é jornalista especializado em psiquiatria e psicologia, consultor, pesquisador e conselheiro em dependência química e diretor editorial da revista Arquivos Brasileiros de Dependência Química
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