A sexualidade do dependente químico institucionalizado

  


A institucionalização do dependente químico é o último recurso a ser considerado quando de sua abordagem. De fato, somente quando a dependência está instalada, caracterizada pelo abuso crônico e deletério, com visíveis repercussões somáticas (debilitude das funções orgânicas e co-morbidades patológicas), emocionais (instabilidade emocional de significativo relevo com entidades psiquiátricas acessórias), familiares (desequilíbrio funcional da família e perda de papéis), sociais (complicações legais) e ocupacionais (absenteísmo ou perda de emprego) e episódios de tentativas infrutíferas de diminuição do abuso da substância, é que se pode considerar o dependente passível de uma asilagem. Em muitos casos a internação compulsória se faz necessário tamanho é o prejuízo alcançado pelo paciente. Nesse caso, o terapeuta per si, não tem mais como usar a palavra como elemento terapêutico e não possui outra saída que não recomendar a internação, no mínimo, para desintoxicação.

Quando, por opção ou mesmo na falta dessa, o paciente é internado num centro de tratamento com características de comunidade terapêutica, na maior parte das vezes irá se deparar com uma estratégia de tratamento que contempla a teoterapia como atividade terapêutica principal. A teoterapia, muitas vezes em conjunto com a psicoteologia, é a responsável pela tentativa de remodelamento interior que o dependente irá experimentar. Nessa tentativa, a busca da espiritualidade, a comunhão com um Deus soberano, supremo e sábio, é que, espera-se, moverá as estruturas internas do dependente e fará com que ele erga novas pilastras de sustentação do seu caráter. Um dos grandes problemas encontrados, entretanto, para que isso ocorra, guarda estreita relação com um dos comportamentos mais execrados pelas comunidades terapêuticas e que pode ser encontrado em oito entre dez dependentes de drogas: a compulsão sexual expressa na masturbação excessiva.

Masturbação é alívio para o dependente

Não raras vezes, o paciente, flagrado em ato masturbatório, é rotulado como maníaco, safado e blasfemo. Na verdade, ele é compulsivo, imediatista e, muitas vezes, religioso. Sua atividade sexual de auto-satisfação não é prerrogativa do seu caráter transfigurado pela droga, mas sim umas ações extremamente comuns, casuais e presentes em todas as pessoas que possuem outros tantos problemas que não a dependência de drogas. O que os difere é que, enquanto a masturbação do dependente químico é a extensão da sua compulsão (cuja raiz está na não satisfação do auto-erotismo infantil projetado junto à mãe), nas pessoas ditas comuns, a masturbação pode ser antes um reflexo de ideação que não encontra materialização no seu cotidiano. Em outras palavras, o dependente de drogas se masturba como um sucedâneo para mitigação de suas satisfações represadas desde a infância, enquanto a pessoa dita normal o faz para dar cor a uma vida afetiva e sexual monótona e monocórdia.

Freud escreveu em 1897: "...comecei a compreender que a masturbação é o grande hábito, o vício primário e que é somente como seu sucedâneo e substituto dela que outros vícios - álcool, morfina, tabaco etc - adquire existência." (Carta 79, in: Sigmund Freud, Obras Completas, vol I, Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1977, pg. 367). Citado pelo Dr. Sérgio de Paulo Ramos em seu artigo "Da contribuição de fatores psicodinâmicos na gênese da dependência química", publicado no jornal eletrônico de psiquiatria Psichyatry On Line Brazil (www.epm.br/polbr/index) em agosto de 1997, esse postulado de Freud, defendido e debatido ao longo dos anos por outros autores como Abraham, Ferenczi, Fenichel, Rádo e Simmel e outros, evidencia a capital importância da função orgástica na gênese do que ele chama de vícios. A masturbação aparece no princípio freudiano como "vício primário", enfatizando o autor, na época, que a manipulação erótica genital já se configurava como busca do alívio.

Evento em vez de ritual

A fim de desbordar o tema e desvinculá-lo do ranço de preconceito que carrega, o cuidador do centro de tratamento precisa entender a importância do sexo e da sexualidade do dependente químico. Primeiro, é preciso distinguir sexualidade de sexo. Sexualidade é um conjunto de manifestações e fenômenos da vida sexual. Sexo é gênero. É feminino ou masculino. Sexo é singular, sexualidade é plural e como tal impõe carinho, atenção, compreensão e aceitação do gênero "sexo" do outro. Na sua onipotência, o dependente químico tende a masturbação uma vez que essa independente do concurso de outras pessoas, com as quais não lida, não interage e tem dificuldades para tal. Mesmo quando em atividade sexual com outro, o dependente ainda assim pode estar exercendo a "masturbação ilusória", pois seu parceiro pode ser simplesmente e mero coadjuvante. Prevalece o exercício egoísta de se bastar para o dependente químico.

De qualquer modo, a atividade sexual exercida pelo dependente químico é um evento que tem um fim em si próprio. É mecânica, automática, fugaz, proporciona refrigério e alívio imediato. Ele não ritualiza o ato sexual que predispõe a conquista, o romance, a vivência, a afetividade, o doar-se e o prazer, numa ação que se estende e se perpetua. Entender como esses mecanismos agem no conjunto de emoções do dependente químico é fundamental para auxiliá-lo no seu processo de recuperação. O sexo, para Freud, é a energia vital que move o homem. Mais tarde, ele admitiu que a fome, uma tese de Jung, também é primária. Assim sendo, o homem precisa ter parte de sua carga sexual canalizada para outros objetivos que não somente o da perenização da espécie, uma predisposição adâmica. Se não souber mediar tal acúmulo energético, poderá represá-lo e sublimá-lo desenvolvendo compulsões, entre elas a dependência por substâncias psicoativas.

Fixação oral

Cabe aos pais, sobretudo a mãe na fase intra-uterina, esse papel mediador. É muito comum na gravidez, pais preferirem "menino homem" ou "menina mulher", quando o ideal seria que preferissem uma "pessoa", independente do seu gênero. Aceitar e amar a criança na fase intra-uterina é exercer a chamada protoprofilaxia, quando todo um elenco de atitudes que beneficiam a criança são adotadas pela mãe. Aceita em seu gênero desde o útero, a criança não se verá obrigada a atender a projeção narcísica dos pais quanto ao seu sexo e, acolhida sob um teto emocional equilibrado, desenvolverá sua pulsões sexuais de modo salutar lidando com seu corpo como algo passível de ser descoberto e não encoberto. Bem atendida em suas satisfações emocionais, com uma "mãe suficientemente boa" e um pai que lhe permite exercer sua "agressão", ela pode valer-se de seu auto-erotismo, erguendo um edifício egóico com todas as formas de expressão, não somente com as que lhe são permitidas pelos pais.

Na argamassa dessa construção, a criança passará por todas as fases do desenvolvimento: a oral, anal, fálica, edipiana, a puberdade, adolescência e a adulta. A família disfuncional permitirá o surgimento na primeira infância de quadros compulsivos. Avulta, nesse aspecto, a importância da fase oral. "Freud foi o primeiro (1905), a destacar a presença de fixações orais em dependentes químicos. Escreveu em seus três ensaios sobre a teoria da sexualidade: " ... da importância erógena da região labial, constitucionalmente determinada. Se esta importância persistir, estas crianças quando crescerem, torna-se-ão epicuros do beijo, inclinar-se-ão ao beijo pervertido, ou, se do sexo masculino, terão poderoso motivo para beber e fumar." (Freud, S. (1905), Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, in: Sigmund Freud, Obras Completas, Vol 7, Ed. Imago, Rio de Janeiro,1972, citado por Sérgio Paulo Ramos, em "Da contribuição de fatores psicodinâmicos na gênese da dependência química")".

Orgasmo oral infantil

Segundo Ramos, para muitos autores, (Abraham, 1916; Rádo, 1926; Wulf, 1932; Bergler, 1933; Robbins, 1935; Knight, 1937; Fenichel, 1945; Meerloo, 1952; Rosenfeld, 1960; Brow, 1965; Limentani, 1968; Rosenfeld D., 1974/92; Wurmser, 1974; Khantzian, 1978 e Maldonado, 1995) a oralidade destes pacientes era fato. "Para estes autores os dependentes químicos estariam fixados na fase oral, como resultado de imperativos constitucionais ou determinantes biográficos. Uns e outros contribuindo para a não resolução de conflitos primitivos. Desta maneira a relação com a droga representaria a satisfação das necessidades orais - capaz de reviver o orgasmo oral infantil, como referiu Rádo em 1926 - com sentimento de triunfo sobre as outras pessoas". O mesmo autor, afirma que Vaillant (A História Natural do Alcoolismo Revisitada, 1995, Artes Médica, Porto Alegre), uma das maiores autoridades mundiais em alcoolismo, não concorda com essa oralidade quando se fala em alcoolismo.

Paralisado na oralidade difusa, o dependente químico tem ainda de se a ver com a agressão natural que não pôde exercer na infância. Engolir choro, ver-se proibido de qualquer manifestação de desagrado, com tentativas constantes de acomodação e sempre carente da nutrição emocional da qual foi privado, ele pode cultivar um agressividade destruidora e latente. Quem adia o ódio, odeia dia-a-dia. No vácuo da desatenção, da vilania ou da permissividade familiar, o potencial compulsivo propenso a desenvolver um superego violento, encontrará frestas para se manifestar. Com sua oralidade não satisfeita, desequilíbrio na mediação da gratificação, ele pode desenvolver uma vivência perversa contra si e contra os outros. Compulsivo, ele exibirá atitudes de busca do "orgasmo oral infantil", quando se voltará para o beber ou comer compulsivo, o fumar desbragadamente (cigarro ou qualquer coisa), ou o sexo, mecânico e instintivo, que lhe foi "negado" nas proibições e imposições da infância.

Promiscuidade e impotência

A atividade sexual é assim exercida por um paciente de auto-estima rebaixada que se vale do álcool e da droga para obter "melhor dos dois mundos", quais sejam, as drogas e as cópulas desenfreadas. Sem peias, esse paciente é alvo dileto de enfermidades infecto-contagiosas. O uso do álcool como elemento desinibidor (e suas congêneres em pó, cigarro e comprimidos), é de uso clássico. Entretanto, ainda que o aumento da libido se dê rapidamente tal estímulo não se mantém e tal qual o uso da droga, a busca pelo prazer (na verdade, alívio) esgota o recurso (a estimulação dopasinérgica) e o veículo (o usuário). Sobrevêm, no curto prazo a depressão e no médio e longo prazo, a promiscuidade sexual. A dor emocional, que deveria ser solucionada, na visão do dependente químico, não o é. Ele entra na esfera viciosa do uso continuado para pseudo-estimulação sexual somente para sentir, no fim das contas, que a disfunção erétil que experimenta (no caso dos homens) pode resultar em algo pior: impotência.

É esse quadro que pode chegar ao centro de tratamento. O ato masturbatório, contando que a relação sexual num ambiente terapêutico desses é pouco possível, não tem nada a ver com o ambiente, com o presente, mas sim com o passado. Um passado muito presente na vida do paciente. Assim como, sobretudo nos primeiros dias, ele irá se referir ao tempo em que estava usando a droga, é natural que relembre (e procure mesmo exercitar) algumas ações que antes praticava. Ele poucas vezes o faz visando quebrar as regras, mas sim como algo quase fisiológico e com um quê de auto teste. Ainda estão presentes, nessa fase, a onipotência e o orgulho, tanto quanto a frustração de "se bastar", que revela, na verdade, a incapacidade de se doar do dependente. O alívio que experimenta e que deveria, segundo as regras, ser partilhado com alguém, é exercido de modo solitário, para o seu (legítimo) desprazer. Ele não é capaz de proporcionar algo (prazer) a alguém que ele nunca, ou poucas vezes, experimentou.

Dependente não é assexuado

Flagrado num ato masturbatório, o dependente tem de ser orientado, nunca reprimido. A psicoteologia se aplica melhor aqui do que a teoterapia pura. Por menos que queira, e a depender do grau de espiritualidade alcançada, o dependente se sente "devedor e traidor de Deus". O profissional da psicoteologia poderá lhe dizer porque o ato masturbatório é ainda importante para ele, e o porque ele precisa deter controle sobre o ato e como de resto, sobre toda sua vida. Punir só empurra o paciente mais para seu passado, que continuará confuso e sem rosto e, portanto, doloroso. Na dor, ele irá fazer o que costumava fazer para superá-la: usar drogas e viver a vida promiscuamente do ponto de vista sexual. Muitos cuidadores valorizam a masturbação, em vez do paciente. Com isso, querem tirar a masturbação da vida do dependente a fórceps, com uma violência emocional que só diminui a estatura afetiva do paciente e o conduz para mais perto da droga.

É preciso compreender que a masturbação é também uma forma de expressão do dependente e que o ato compulsivo masturbatório tem de ser compreendido à luz do processo de tratamento pelo qual ele passa. O terapeuta ocupacional do centro de tratamento tem uma grande responsabilidade nesse quesito, uma vez que a ele cabe encontrar formas de fazer o paciente se expressar. Pode ser argila, massa de modelar, pintura, colagem, teatro, música ou qualquer outra atividade física. Com as sessões de psicoteologia, é possível clarificar a mente do dependente para essa questão, tendo em vista que esse auto-erotismo pode tornar-se circunstancial, restrito ao quadro, uma vez que contemplado no tratamento. O problema é que a maioria dos centros de tratamento simplesmente desconsidera a questão, preferindo acreditar que o dependente é assexuado e livre de libido. O que ele faz com sua sexualidade? Simplesmente ela existe e, como componente do conjunto somático-emocional, tem de ser considerada.

Assim, tratar o paciente dependente químico em todo o seu aspecto é preservar seu erotismo estrutural gratificante, uma vez que esse será componente do seu conteúdo egóico restaurado. Ele não pode ser um aleijado sexual. Seu tratamento não exclui sua sexualidade, antes a reintegra. Com sua sexualidade restabelecida, o dependente independerá de si para sua satisfação sexual. Restaurado, verá o quanto é precioso ter e proporcionar prazer sexual, que na verdade, é a manifestação orgásmica de um enlace emocional mais profundo. Saberá doar-se e doará o melhor de si. Mas para que isso ocorra, é preciso que o cuidador do centro de tratamento também tenha sua sexualidade em dia. A sexualidade está no "olhar do outro". Se o cuidador pune e faz o dependente "socar guela adentro" sua sexualidade, é muito provável que assim foi ensinado a lidar com o tema. Só está reproduzindo o que aprendeu. Isso é perigoso. Quem não tem sua sexualidade resolvida, não pode lidar com a do outro.

Autor

José Antonio Mariano - email - mariano@kbonet.com.br
Jornalista especializado em psiquiatria e psicologia, consultor, pesquisador e conselheiro em dependência química
e diretor editorial da revista Arquivos Brasileiros de Dependência Química
Publicado em: http://www.abdq.hpg.ig.com.br/saude/10/index_int_7.html

 

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